Depois de décadas ocupando um cargo de liderança em uma multinacional e viajando por praticamente todo o Brasil, Valdir decidiu abandonar a vida corporativa para construir uma rotina voltada à produção de alimentos, ao aprendizado constante e à tranquilidade do interior mineiro, onde vive há 27 anos.
Durante décadas, trabalhar em grandes empresas e ocupar cargos de liderança foi considerado o caminho natural para quem buscava estabilidade financeira. Entretanto, para algumas pessoas, chega um momento em que qualidade de vida passa a valer mais do que salários elevados, viagens constantes e a rotina acelerada dos grandes centros urbanos.
Foi exatamente essa decisão que transformou completamente a vida de Valdir. Aos 79 anos, ele vive em uma propriedade rural de apenas um alqueire — aproximadamente 2,4 hectares — localizada em Pratápolis, no sudoeste de Minas Gerais, próximo à divisa com Itaú de Minas. Ali, desenvolveu um sistema de produção que combina criação de frangos caipiras, horta, pomar, cultivo de mudas e diversos projetos voltados para a autossuficiência alimentar.
A história ganhou destaque após ser apresentada pelo canal Eduardo Pádua, que visitou a propriedade para mostrar como o produtor conseguiu transformar um pequeno pedaço de terra em um espaço altamente produtivo, organizado e planejado. Conforme mostrado na reportagem do canal, cada detalhe da chácara foi pensado para reduzir desperdícios, melhorar a produção e aumentar a independência da família.
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O que mais chama atenção, porém, não é apenas a estrutura construída ao longo dos anos, mas sim a filosofia adotada por Valdir. Depois de deixar para trás uma carreira de sucesso, ele passou a acreditar que produzir o próprio alimento seria uma das decisões mais importantes para enfrentar os desafios do futuro.
Da carreira em uma multinacional para a tranquilidade do interior

Muito antes de viver cercado por árvores frutíferas, galinheiros e hortaliças, Valdir ocupava um cargo de grande responsabilidade em uma empresa italiana considerada uma das maiores do país em seu segmento.
Segundo ele, sua função exigia viagens constantes por praticamente todo o Brasil. O ritmo intenso fazia parte da rotina, mas chegou um momento em que a busca por qualidade de vida falou mais alto.
Ao recordar a decisão, ele contou que seu diretor sequer queria aceitar seu pedido de desligamento. O motivo parecia simples, mas representava uma mudança completa de prioridades: enquanto muitos buscavam promoções e aumentos salariais, ele desejava apenas viver com mais tranquilidade.
Mesmo recebendo um excelente salário, decidiu deixar a carreira corporativa para investir em um sonho construído durante anos de estudos e planejamento.
A escolha não aconteceu por impulso. Antes mesmo de comprar a propriedade, Valdir revelou que passou cerca de um ano e meio estudando livros sobre agricultura, criação de animais, manejo rural e diversas técnicas capazes de aumentar a produtividade de pequenas propriedades.
Esse período de preparação permitiu que cada investimento fosse realizado com planejamento, reduzindo erros e aproveitando ao máximo os recursos disponíveis.
Além disso, sua experiência profissional como mecânico industrial e gerente contribuiu para desenvolver soluções práticas dentro da propriedade, utilizando conhecimentos técnicos em irrigação, estruturas, automação e organização dos espaços.
Mais de 150 frangos, galinheiros separados e manejo baseado na experiência

Hoje, uma das principais atividades da propriedade é a criação de frangos caipiras.
Durante a visita, Valdir mostrou um dos lotes com aproximadamente 70 aves entre machos e fêmeas, além de outro grupo com cerca de 80 animais mais jovens, totalizando mais de 150 frangos distribuídos em diferentes espaços da propriedade.
A divisão não acontece por acaso.
Segundo ele, a experiência mostrou que misturar aves de diferentes tamanhos pode provocar diversos problemas. Os frangos maiores acabam impedindo que os menores tenham acesso adequado à alimentação e, em alguns casos, podem até provocar mortes devido à diferença de peso.
Por isso, cada lote permanece separado até atingir um desenvolvimento semelhante.
Outro aprendizado importante veio durante a construção dos galinheiros.
Inicialmente, as aves não foram acostumadas a utilizar poleiros nos primeiros 30 dias de vida. Como consequência, muitas passaram a dormir amontoadas no chão, situação que favorece o aparecimento de problemas sanitários.
Mesmo após a instalação dos poleiros, parte das aves manteve o hábito antigo, obrigando o produtor a reorganizar completamente o manejo dos galinheiros.
Além da divisão por idade, os pintinhos recebem um tratamento específico logo após o nascimento.
Durante aproximadamente 20 a 25 dias — podendo chegar a 30 dias em alguns casos — permanecem sob aquecimento com duas lâmpadas. Depois que desenvolvem penas suficientes para manter a própria temperatura corporal, o sistema de aquecimento é retirado.
Outro detalhe observado durante a visita foi o sistema de piquetes.
Atualmente, a propriedade possui dois piquetes em funcionamento e um terceiro em fase de implantação. A ideia é ampliar gradualmente a área destinada ao pastejo das aves, permitindo maior aproveitamento do terreno e reduzindo a pressão sobre a vegetação.
Segundo Valdir, parte da nova estrutura utilizará cerca elétrica em vez de telas convencionais, reduzindo significativamente os custos da instalação.
Ele explicou que os fios são posicionados em alturas específicas — aproximadamente 6, 8 e 16 centímetros — criando uma barreira eficiente para manter as aves protegidas e afastar possíveis predadores.
A horta produz praticamente o ano inteiro e reduz a dependência do mercado
Além da criação de frangos caipiras, a propriedade também chama atenção pela diversidade de alimentos cultivados.
Logo durante a caminhada pelo sítio, Valdir apresentou uma horta repleta de hortaliças produzidas para o consumo da própria família. Entre elas estão alface, chicória, rúcula, pimentão, jiló, berinjela e tomate, além de diversas ervas medicinais e temperos naturais.
O produtor explica que boa parte do adubo utilizado vem da própria criação de aves.
Segundo ele, a cama de frango é aproveitada para enriquecer o solo e aumentar a produtividade das plantações, reduzindo a necessidade de fertilizantes comerciais. Ao mesmo tempo, os próprios animais ajudam no controle natural de pragas, consumindo pequenos insetos, escorpiões e até cobras de pequeno porte, diminuindo sua proliferação na propriedade.
Durante a visita, ele mostrou orgulho do sistema integrado que conseguiu construir ao longo dos anos.
Enquanto as aves produzem adubo para a horta, a vegetação serve de alimento para os frangos, criando um ciclo sustentável que reduz custos e melhora o aproveitamento do terreno.
Valdir também explicou que algumas culturas exigem cuidados específicos.
A rúcula, por exemplo, precisa ser cultivada sob sombrite para evitar o ataque de borboletas, que depositam ovos sobre as folhas. Poucos dias depois, as lagartas podem comprometer completamente a produção.
Segundo ele, esse conhecimento foi adquirido por meio de muito estudo, leitura e prática no campo, permitindo antecipar problemas antes mesmo que eles aconteçam.
Outro objetivo da família é ampliar significativamente o cultivo de tomates.
A ideia é deixar de comprar o produto no comércio para produzir toda a matéria-prima necessária para molhos naturais preparados na própria propriedade.
Além disso, o produtor afirma que pretende eliminar cada vez mais alimentos industrializados da alimentação diária.
Na avaliação dele, consumir produtos frescos produzidos no próprio sítio representa um investimento direto na saúde e na qualidade de vida.
Pomar diversificado, irrigação automática e até hidroponia fazem parte dos projetos
Quem visita a propriedade rapidamente percebe que o planejamento vai muito além dos galinheiros.
O sítio possui um pomar bastante diversificado, formado por aproximadamente 18 árvores cítricas, incluindo limão siciliano, limão-cravo, lima e diferentes variedades de laranja.
Além disso, há quatro tipos de mangueira, coqueiros, abacateiros, jabuticabeiras e outras espécies frutíferas que garantem produção durante boa parte do ano.
Segundo Valdir, quando a colheita é abundante, parte das frutas é transformada em polpas congeladas para consumo ao longo dos meses seguintes, evitando desperdícios.
Outro investimento importante foi a implantação de um sistema automatizado de irrigação.
A água utilizada vem de uma mina existente dentro da propriedade.
Com auxílio de temporizadores e válvulas automáticas, o produtor consegue programar exatamente o horário em que cada setor da horta receberá irrigação.
O sistema reduz o desperdício de água, economiza tempo e permite que as plantas recebam irrigação de maneira uniforme.
Entre os projetos mais interessantes apresentados durante a visita está a produção de milho hidropônico.
Valdir explicou que está concluindo um curso específico sobre hidroponia e pretende utilizar cerca de 15 canteiros para produzir alimento destinado às aves.
Segundo ele, o milho hidropônico permanece entre 30 e 35 dias em desenvolvimento antes de ser utilizado.
Nesse estágio, a concentração de nutrientes e proteínas ainda permanece elevada, tornando-se uma alternativa eficiente para complementar a alimentação dos frangos.
Inicialmente, ele construiu um protótipo para validar o sistema antes de ampliar a estrutura em escala maior.
Aos 79 anos, rotina intensa mostra que idade não impede novos projetos
Outro aspecto que impressiona quem conhece a propriedade é o ritmo de trabalho mantido pelo produtor.
Mesmo aos 79 anos, Valdir continua participando pessoalmente das atividades diárias, acompanha a construção de novos galinheiros, cultiva mudas, realiza manutenções e planeja futuras ampliações.
Durante a conversa, ele resumiu sua filosofia de vida em uma frase simples: para ele, o corpo funciona como uma máquina que não pode parar.
Segundo o produtor, permanecer ativo é fundamental para preservar a saúde física e mental.
A esposa também participa diretamente da rotina, ajudando na organização do jardim, na produção de mudas e na manutenção da propriedade, formando uma parceria que se tornou essencial para o sucesso do projeto.
Embora tenha iniciado sua vida rural pensando na produção de leite, Valdir revelou que abandonou a ideia após concluir que pequenos produtores acabam trabalhando muito para obter baixa rentabilidade.
Na época, a intenção era produzir cerca de 1.000 litros de leite por dia, mas, após analisar o mercado, decidiu seguir um caminho diferente, investindo em atividades com maior autonomia e agregação de valor.
Hoje, além de comercializar frangos caipiras diretamente para consumidores da região, ele continua estudando novas técnicas agrícolas, buscando formas de aumentar a eficiência da pequena propriedade sem perder o foco na produção sustentável.
Sua história mostra que tamanho da área nem sempre determina o potencial produtivo.
Com planejamento, conhecimento técnico, organização e disposição para aprender continuamente, um terreno de apenas 2,4 hectares foi suficiente para reunir criação de aves, horta, pomar, sistemas automatizados de irrigação, cultivo de mudas, projetos de hidroponia e produção diversificada de alimentos.
Mais do que um exemplo de empreendedorismo rural, a trajetória de Valdir evidencia que a busca por qualidade de vida pode transformar completamente a maneira de enxergar o trabalho, a alimentação e o futuro.

