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Ela começou a criar gado há apenas três anos numa das fronteiras mais pressionadas da Amazônia e virou a primeira pecuarista do Pará a colocar brinco eletrônico em cada um dos seus 76 bois, apostando na origem rastreada antes de a lei exigir

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Escrito por Jefferson Augusto Publicado em 31/07/2026 às 14:03
Boi nelore branco com brinco de identificação eletrônica amarelo preso na orelha, em pastagem do Pará com floresta amazônica ao fundo
Cada animal identificado recebe um brinco eletrônico que liga o boi a um cadastro cruzado com imagens de satélite para checar desmatamento ilegal.
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Numa propriedade perto de Novo Repartimento, no sudeste do Pará, cada um dos 76 bois de Maria Gorete carrega um brinco eletrônico preso na orelha. Segundo reportagem da agência Associated Press publicada em julho de 2026, ela foi a primeira pecuarista do estado a aderir à identificação individual do rebanho.

O brinco não serve para controle interno de fazenda. Ele liga cada animal a um cadastro oficial que pode ser cruzado com imagens de satélite para verificar se a terra onde aquele boi pisou foi desmatada ilegalmente.

Ela entrou na atividade há pouco tempo. Começou a criar gado há cerca de três anos, com um rebanho pequeno para o padrão da região, e escolheu justamente o caminho mais trabalhoso, o de registrar animal por animal quando quase ninguém no estado fazia isso.

Essa é a engrenagem do Programa Pecuária Sustentável do Pará, a primeira política obrigatória de rastreabilidade animal do Brasil desenhada com finalidade ambiental. E ela acaba de mudar de calendário.

O que o brinco eletrônico registra ao longo da vida do animal

A mudança de fundo é passar da identificação por lote ou por propriedade para a identificação individual. Cada animal ganha um número próprio, e os deslocamentos passam a ser registrados um a um.

Isso cobre todas as etapas: cria, recria, engorda, leilão e abate. No fim da cadeia, é possível reconstruir por onde aquele animal específico passou antes de virar carne na prateleira.

O ponto sensível está no cruzamento de dados. As propriedades registradas podem ser comparadas com imagens de satélite que mostram desmatamento recente e também com mapas de terras indígenas, onde a criação de gado é proibida.

O Pará concentra uma fatia desproporcional da floresta perdida

O estado não entrou nessa discussão por acaso. Segundo levantamento de monitoramento florestal citado pela Associated Press, o Brasil perdeu cerca de 339,6 mil quilômetros quadrados de floresta madura desde 2001, e mais de um terço dessa perda ocorreu dentro do Pará.

O mesmo levantamento aponta que o estado responde sozinho por cerca de 14% de toda a perda de floresta tropical registrada no mundo ao longo dos últimos 24 anos.

A pecuária está no centro dessa conta, porque a abertura de pasto é historicamente o principal destino da área desmatada na Amazônia. Ainda assim, dados oficiais de monitoramento por satélite, já noticiados por este portal, mostram que o desmatamento caiu ao menor nível em oito anos.

O programa nasceu numa vitrine internacional

O Pará anunciou a iniciativa em 2023, durante a COP28, conferência do clima realizada em Dubai. Segundo o governo do estado, trata-se da maior iniciativa de rastreabilidade individual de gado já montada no país.

A promessa era colocar brinco em todo o rebanho bovino e bubalino do estado, algo na casa de dezenas de milhões de animais, e transformar isso numa espécie de passaporte ambiental da carne paraense.

Dois anos depois, quando Belém sediou a COP30, o programa voltou a ser exibido como demonstração prática do que o Brasil faria para separar carne legal de carne ligada à destruição da floresta.

O prazo era janeiro de 2026 e passou para dezembro de 2030

O desenho original do decreto previa duas etapas. Até 1º de janeiro de 2026, os animais com trânsito registrado deveriam estar identificados, e até 1º de janeiro de 2027 o rebanho bovino e bubalino inteiro do estado, conforme os prazos publicados pelo próprio governo paraense.

Em 2 de dezembro de 2025, o governador Helder Barbalho assinou um novo decreto que empurrou a exigência para 31 de dezembro de 2030. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, a Semas, a assinatura ocorreu durante o Encontro Rural organizado pela federação de agricultura e pecuária do estado.

Na prática, o rastreamento obrigatório saiu de um horizonte de poucas semanas e foi parar num horizonte de cinco anos.

De um lado a estrutura, do outro a cobrança ambiental

O argumento a favor do adiamento é operacional. Colocar brinco em dezenas de milhões de animais exige equipe de campo, leitores, sistema de dados e dinheiro, e boa parte dos produtores pequenos não teria como cumprir o prazo curto.

Do outro lado, organizações que acompanham a Amazônia trataram a mudança como recuo. Em janeiro de 2026, a Human Rights Watch classificou o adiamento como risco direto para a floresta, justamente por vir logo depois de o estado ter sido sede da conferência do clima.

A crítica central é de momento. O prazo foi esticado exatamente quando a atenção internacional sobre o Pará estava no ponto mais alto, e não quando o programa ainda era só uma intenção no papel.

Quem aperta de verdade é o comprador de fora

A rastreabilidade deixou de ser uma discussão apenas ambiental e virou comercial. A União Europeia aprovou regulamento que exige das empresas prova de que produtos como a carne bovina não vieram de área desmatada, o que transfere a cobrança para o fornecedor.

A China mexe em outra variável. Maior compradora da carne brasileira, ela mantém cota de importação e aplica tarifa sobre o excedente, e reportagem publicada por este portal mostrou que o volume exportado já supera o teto isento de tarifa, o que pressiona a margem do setor.

Nesse cenário, o brinco funciona como credencial. Sem origem comprovada, o produtor fica de fora dos contratos que pagam mais, e sobra para ele o mercado que paga menos.

Para a propriedade pequena, o custo vem antes do retorno

O programa tem dois lados para quem tem pouco rebanho. Aderir custa dinheiro, entre brincos, leitores e cadastro, e essa despesa recai justamente sobre quem tem menos capital de giro.

Em compensação, a identificação abre porta. Um rebanho rastreado pode ser vendido a empresas e países cujos consumidores querem saber a origem do que comem, um nicho que costuma pagar prêmio sobre o preço padrão.

É esse cálculo que explica por que produtores de pequeno porte entraram cedo no programa, antes de a exigência valer para todo mundo.

No caso da criadora de Novo Repartimento, a aposta é direta. Com o rebanho identificado, ela passa a poder vender para empresas e países cujos consumidores exigem saber de onde veio a carne, um mercado que estava fechado para quem não comprova origem.

É também uma inversão de papel. A região onde ela está costuma aparecer nas estatísticas pelo lado da destruição, e o brinco na orelha do boi é o que permite mostrar o contrário, com dado verificável em vez de discurso.

A cadeia privada já cobra o que a lei adiou

Enquanto o prazo oficial se estica, parte da cadeia se antecipou por conta própria. Frigoríficos passaram a operar sistemas que bloqueiam automaticamente o transporte quando há indício de que o animal veio de área com desmatamento ilegal.

Isso cria uma situação curiosa. A obrigação legal foi adiada para 2030, mas o comprador privado começou a cobrar antes, empurrado pelo risco de ter a própria marca associada à destruição da floresta.

Há ainda o caminho oposto, o de remunerar quem não derruba nada, linha que o governo federal tem testado com pagamento a comunidades que mantêm a floresta em pé.

Enquanto o estado inteiro tem até 31 de dezembro de 2030 para cumprir a regra, os 76 bois de Maria Gorete já circulam identificados um a um, com cada deslocamento registrado, segundo apuração da Associated Press.

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Jefferson Augusto

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