Trajetória iniciada nos canteiros de obra reúne infância difícil, formação em engenharia, tentativas frustradas e a criação de um modelo de locação que ganhou escala nacional, avançou para outros países e transformou equipamentos temporários em um negócio de grande porte.
Expedito Eloel Arena começou a acompanhar o pai pedreiro ainda na infância e, anos depois, ao lado de Altino Cristofoletti Júnior, transformou uma pequena operação de materiais e máquinas na Casa do Construtor, rede com 800 unidades e faturamento de R$ 940 milhões em 2024.
A ligação com a construção civil surgiu aos 7 anos, quando ele passou a frequentar canteiros para auxiliar o pai, que tinha visão bastante limitada e precisava do filho por perto enquanto realizava serviços usados para sustentar a família.
Em meio a ferramentas, materiais e tarefas executadas manualmente, Arena desenvolveu familiaridade com a rotina das obras e passou a enxergar na engenharia um caminho profissional, embora desde cedo também demonstrasse interesse por liderança e pela criação de um negócio próprio.
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Da infância nos canteiros à formação em engenharia
Foi em Rio Claro, no interior de São Paulo, que a trajetória de Arena se encontrou com a de Altino Cristofoletti Júnior, conhecido ainda na juventude em uma comunidade religiosa onde ambos compartilhavam o desejo de cursar engenharia.
Sem recursos sobrando para a formação, Arena concluiu um curso técnico, conseguiu emprego e destinou parte da renda ao pagamento da faculdade, ao mesmo tempo que realizava serviços adicionais para complementar o orçamento e manter os estudos.
Cristofoletti seguiu percurso semelhante até concluir a graduação em engenharia civil, e a amizade construída antes da vida empresarial ganhou consistência suficiente para sustentar, mais tarde, uma sociedade marcada por decisões conjuntas e objetivos de longo prazo.
Mesmo com o diploma, as oportunidades não surgiram imediatamente, obrigando os dois recém-formados a aceitar trabalhos variados e testar diferentes formas de renda antes de encontrarem um modelo consistente, capaz de crescer de maneira estruturada.
Entre essas experiências, Arena chegou a circular de motocicleta com uma caixa de ferramentas, atendendo pequenos reparos e serviços conhecidos como marido de aluguel, enquanto buscava espaço em um mercado que oferecia poucas vagas para engenheiros no início da carreira.

Antes de unirem esforços, ambos mantiveram empreiteiras próprias, mas as iniciativas não avançaram como esperavam, até que o contato de Cristofoletti com o sistema de franquias abriu uma possibilidade empresarial diferente para a dupla naquele momento.
Aluguel de máquinas revelou uma oportunidade
Em vez de concentrar a operação apenas na venda de materiais, os sócios perceberam que pessoas e pequenas empresas precisavam usar máquinas por poucos dias, sem assumir o custo de comprar equipamentos que permaneceriam parados depois da obra.
Betoneiras, andaimes, compactadores e ferramentas elétricas podiam ser indispensáveis em determinadas etapas, porém se tornavam despesas pouco eficientes quando o uso era pontual, o que ajudou a consolidar a proposta de oferecer acesso temporário a esses itens.
A primeira unidade da Casa do Construtor surgiu em Rio Claro, onde Arena e Cristofoletti abriram uma loja modesta e começaram a organizar o aluguel de equipamentos, enfrentando limitações de capital, manutenção constante e necessidade de ampliar o estoque.
Parte dos recursos iniciais veio de empréstimos feitos por familiares, enquanto os valores recebidos com as locações eram reinvestidos na compra de novas máquinas, permitindo que o catálogo crescesse de forma gradual e acompanhasse a procura dos clientes.
Cada equipamento precisava gerar receita suficiente para financiar a expansão seguinte, criando uma lógica contínua de reinvestimento que sustentou o crescimento inicial e reduziu a dependência de aportes externos ao longo da consolidação da empresa.
Um episódio daquele período mostra o peso de cada aquisição: Arena comprou um martelo profissional cujo preço se aproximava do valor de seu Fusca e, temendo perder a ferramenta, levava o equipamento para casa após o expediente.
Clientes precisaram entender o novo modelo
Como a locação por períodos curtos ainda não fazia parte do hábito de muitos consumidores, os fundadores precisaram explicar que alugar poderia reduzir o desembolso e evitar gastos com armazenamento, manutenção ou compra de equipamentos destinados a um único serviço.
Ao demonstrar essa vantagem prática, a empresa passou a atrair profissionais, responsáveis por reformas residenciais e pequenos negócios, criando uma base de clientes interessada em usar máquinas adequadas sem assumir os custos permanentes da propriedade.
A franquia começou a ganhar forma depois que a operação inicial alcançou maior estabilidade, momento em que os sócios organizaram processos internos, padronizaram rotinas de trabalho e aprofundaram conhecimentos sobre logística, contabilidade, manutenção e atendimento.
Com métodos mais definidos, o modelo avançou além de Rio Claro e chegou a cidades onde pequenas reformas, obras residenciais e serviços profissionais garantiam demanda regular, permitindo que novos operadores reproduzissem a proposta em diferentes mercados.
Casa do Construtor chegou a 800 unidades
O marco da 800ª unidade foi alcançado com a inauguração de uma loja em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, consolidando uma expansão que levou a marca de uma operação local para uma rede distribuída por várias regiões.
Segundo dados da própria empresa publicados pelo InfoMoney, a Casa do Construtor realizou em média 150 mil locações mensais, registrou tíquete médio de R$ 312 e encerrou 2024 com faturamento anual de R$ 940 milhões.
A estrutura reunia 55 lojas próprias ligadas aos fundadores e mais de 740 franquias, enquanto o portfólio já ultrapassava os equipamentos tradicionais da construção civil para incluir máquinas usadas em jardinagem, limpeza pesada e outros serviços.
Fora do Brasil, a rede também passou a operar no Paraguai, no Uruguai e na Argentina, ampliando internacionalmente o alcance de um modelo baseado em locação, manutenção, transporte e disponibilidade contínua de milhares de equipamentos.
A estratégia de crescimento priorizou cidades pequenas e médias, especialmente municípios com população entre 40 mil e 150 mil habitantes, onde a empresa identificou espaço para operações padronizadas e menor presença de concorrentes com estrutura semelhante.
Ainda conforme os números apresentados ao InfoMoney, as lojas trabalhavam com margens brutas médias entre 35% e 40%, enquanto a rede estimava gerar cerca de 6 mil empregos diretos e indiretos em toda a sua operação.
Ao longo dessa expansão, Arena permaneceu ligado ao negócio construído com Cristofoletti e manteve no centro da empresa uma atividade conhecida desde a infância: o uso de ferramentas e máquinas que fazem obras e reformas avançarem.
O menino que ajudava o pai pedreiro passou a administrar uma rede apoiada justamente nos equipamentos que movimentam canteiros, enquanto a empresa transformou uma necessidade temporária de seus clientes em uma operação empresarial de grande escala.
Ao substituir a compra pelo acesso temporário, a Casa do Construtor aproximou máquinas de alto custo de quem precisa utilizá-las por períodos limitados, levantando uma questão capaz de estimular novos negócios: quantas oportunidades semelhantes ainda estão escondidas em problemas cotidianos?

