Pesquisa conduzida em florestas recém-plantadas no País de Gales mostra como a aplicação de rocha basáltica triturada pode transformar o futuro do sequestro de carbono e da restauração ambiental em larga escala ao redor do mundo
Uma simples camada de pó de rocha vulcânica pode estar reescrevendo as regras do reflorestamento moderno. É o que sugere um novo estudo conduzido por cientistas do Imperial College London, que identificaram no basalto triturado um verdadeiro impulsionador de crescimento para florestas recém-plantadas. Mais do que uma curiosidade científica, a descoberta chega em um momento decisivo: o mundo planta árvores em ritmo recorde, mas nem sempre consegue garantir que elas sobrevivam — e, principalmente, que cumpram seu papel de capturar carbono da atmosfera.
Segundo informações divulgadas pelo Imperial College London, a pesquisa integra o maior experimento de campo já realizado sobre “intemperismo acelerado” (enhanced weathering, na sigla em inglês) combinado ao enriquecimento do microbioma do solo. Na prática, os cientistas queriam responder a uma pergunta simples, mas com implicações globais: existe uma forma barata e natural de fazer florestas jovens crescerem mais rápido e armazenarem mais carbono?
O desafio invisível por trás do reflorestamento global

Nos últimos anos, projetos de plantio de árvores multiplicaram-se em todos os continentes, movidos pela promessa de compensar emissões de CO2 e recuperar habitats naturais. Contudo, esse otimismo esconde um obstáculo pouco discutido: bilhões de mudas nascem e crescem simultaneamente, competindo pelos mesmos recursos, e boa parte delas não resiste aos primeiros anos de vida. Nesse sentido, garantir que uma floresta jovem sobreviva tempo suficiente para que seu potencial de armazenamento de carbono realmente impacte o ciclo climático tornou-se um dos maiores desafios da ciência ambiental contemporânea.
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Não é segredo que iniciativas de plantio em massa costumam andar lado a lado com episódios de mortandade de árvores. Por outro lado, pesquisadores vêm testando alternativas capazes de reverter esse cenário — e é exatamente aí que entra o basalto.
O estudo em questão é conduzido no chamado Glandwr Forest Carbon Study, localizado no País de Gales, Reino Unido. O projeto reúne parceria entre o Royal Botanic Gardens Kew, a organização Carbon Community, o próprio Imperial College London e a Universidade de Sheffield. Ao todo, cerca de 25 acres (o equivalente a aproximadamente 10 hectares) de área reflorestada abrigam 26.000 árvores, plantadas e monitoradas em 72 parcelas experimentais diferentes.
Como o pó de rocha basáltica potencializa o crescimento das árvores
A proposta científica é ambiciosa: construir um banco de dados robusto, do tipo caso-controle, capaz de comparar diferentes técnicas de reflorestamento lado a lado. Entre elas, destaca-se a dispersão de rocha basáltica triturada sobre o solo, além da inoculação de micro-organismos extraídos de florestas maduras e já estabelecidas.
A lógica por trás da técnica não é nova, mas ganha agora respaldo experimental em larga escala. Conforme publicado em reportagens anteriores sobre o tema, fragmentos de rocha silicática, ao sofrerem intemperismo natural e se transformarem lentamente em pó, liberam um conjunto de minerais essenciais. Esse processo também altera o pH do solo de maneira favorável, ampliando a disponibilidade e a absorção de nutrientes fundamentais, como nitrogênio e fósforo.
Os resultados preliminares surpreenderam até os próprios pesquisadores. De acordo com a reportagem, os cientistas que estudam as florestas de Glandwr constataram que essa técnica melhora significativamente o potencial de armazenamento de carbono acima do solo, somando a contribuição das raízes das árvores — com um aumento de 27% segundo os dados iniciais coletados em campo.
Microbioma florestal e os limites da ciência em curto prazo
Encorajados pelo resultado com o basalto, os pesquisadores avançaram para uma segunda etapa: testar se fungos e micro-organismos presentes em florestas naturais próximas poderiam acelerar o desenvolvimento do sistema radicular das árvores de Glandwr, replicando um fenômeno já observado em ecossistemas florestais maduros.
Ainda assim, os resultados dessa frente foram mais modestos. Algumas parcelas — sobretudo as de carvalho e abeto — mostraram benefício mensurável com a adição dos micro-organismos. Contudo, a variação observada em todo o site do projeto acabou tornando o efeito estatisticamente insignificante quando analisado em conjunto.
Por fim, a equipe testou uma terceira hipótese: será que combinar as duas técnicas — basalto e microbioma — produziria um resultado ainda melhor, ou pior, do que aplicá-las isoladamente? Mais uma vez, o efeito combinado não se mostrou estatisticamente relevante. Diante disso, os cientistas levantaram uma hipótese interessante: talvez seja cedo demais na vida dessas florestas para que essas intervenções revelem todo o seu potencial, e períodos de monitoramento mais longos ainda possam comprovar benefícios adicionais.
Enquanto isso, a comunidade científica já enxerga no basalto uma ferramenta promissora e replicável. A informação foi divulgada recentemente pela revista científica Nature, em artigo assinado pela equipe do Imperial College London, reforçando a robustez metodológica do experimento galês.
“Florestas jovens e saudáveis são essenciais para a biodiversidade, a mitigação climática e a resiliência das paisagens”, afirmou a Dra. Bonnie Waring, autora sênior do estudo que apresentou os resultados das duas técnicas de cultivo avaliadas. “Nossas descobertas mostram que intervenções relativamente simples, baseadas na natureza, podem melhorar o estabelecimento das árvores e aumentar a absorção de carbono de florestas novas logo em seus primeiros anos de vida.”
Portanto, o que começou como um experimento de campo no interior do País de Gales pode, nos próximos anos, influenciar diretamente a forma como governos, ONGs e empresas conduzem seus projetos de reflorestamento ao redor do planeta. Ainda há perguntas em aberto — especialmente sobre os efeitos de longo prazo do microbioma florestal —, mas o pó de rocha basáltica já se consolida como uma aposta de baixo custo e alto potencial na corrida global contra as mudanças climáticas.
Com informações da Good news network.
