Embrapa reúne 163 medidas para orientar produtores diante dos riscos associados ao El Niño na safra 2026/2027, com recomendações para soja, milho, café e outras culturas em diferentes regiões do país.
A safra brasileira de 2026/2027 entrou em uma fase de maior atenção com o fortalecimento do El Niño. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou, em boletim divulgado em 30 de setembro, que há 95% de chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre entre outubro e dezembro de 2026.
Diante desse cenário, a Embrapa reuniu 163 medidas para ajudar produtores a reduzir perdas provocadas por seca, excesso de chuva, calor e outros eventos climáticos extremos. As recomendações foram entregues ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e fazem parte do trabalho conduzido pelo Grupo de Trabalho sobre El Niño, criado pelo governo federal para acompanhar os possíveis impactos sobre a agropecuária.
Cerca de 50 profissionais da Embrapa participaram da elaboração da nota técnica. Do conjunto apresentado, 14 medidas são transversais para o setor agropecuário, 139 foram elaboradas para cadeias produtivas específicas e outras dez dependem de ações institucionais ou de políticas públicas.
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As orientações incluem desde decisões que podem ser adotadas dentro da propriedade até instrumentos como crédito, seguro rural, assistência técnica e aperfeiçoamento do monitoramento meteorológico.
El Niño deve produzir efeitos diferentes entre as regiões
Embora o alerta seja nacional, a Embrapa ressalta que os impactos esperados variam de acordo com a região, a cultura e o momento do ciclo produtivo.
Historicamente, episódios de El Niño estão associados a maior ocorrência de chuvas no Sul e redução das precipitações em partes do Norte e do Nordeste, além de temperaturas mais elevadas em determinadas áreas.
Para 2026/2027, os estudos regionais apontam diferenças importantes. No Centro-Oeste, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal apresentam maior risco de seca, atraso das chuvas e veranicos, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul pode receber volumes maiores de precipitação. Entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 está prevista uma das janelas de maior atenção para áreas produtoras da região.
No Sudeste, o cenário também não é uniforme. São Paulo, partes de Minas Gerais e outras áreas podem enfrentar temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas, enquanto determinadas regiões têm previsão de precipitação acima da média. Soja, milho, café, feijão, amendoim e laranja estão entre as culturas acompanhadas com maior atenção em diferentes pontos da região.
Já no Sul, o excesso de água aparece entre as principais preocupações. Chuvas frequentes podem favorecer erosão, dificultar operações de campo e criar condições para o avanço de doenças em culturas como soja e milho.

Soja e milho exigem atenção desde o início do plantio
Uma das orientações recorrentes nas recomendações da Embrapa é o respeito às janelas indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). A ferramenta considera informações climáticas, características do solo e ciclo das cultivares para indicar períodos de plantio com menor exposição a determinados riscos.
No caso de soja e milho, a instituição recomenda combinar diferentes estratégias, como manutenção da cobertura do solo, escolha de cultivares adequadas às condições esperadas, escalonamento da semeadura e acompanhamento constante das previsões meteorológicas.
A intenção é reduzir a possibilidade de que toda a área cultivada atravesse uma fase crítica de desenvolvimento durante um episódio de seca ou excesso de chuva. A palhada, por exemplo, pode ajudar a preservar umidade e reduzir a temperatura do solo em períodos secos, além de diminuir o impacto direto das gotas de chuva e a erosão quando há excesso de precipitação.
No Centro-Oeste, produtores também devem acompanhar eventuais atrasos na implantação da soja, já que uma semeadura tardia pode reduzir a janela disponível para o milho de segunda safra.
Em situações de atraso acentuado, a recomendação técnica é reavaliar a sucessão e considerar culturas com menor custo e risco, como sorgo ou milheto, conforme as condições de cada propriedade.
A quantidade de chuva ainda influencia a pressão de doenças.
No Sul, períodos de alta umidade e molhamento prolongado das folhas podem favorecer problemas como ferrugem-asiática, mofo-branco e outras doenças da soja. Em áreas mais secas, alterações nas condições ambientais também podem modificar a ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas.
Café entra em janela sensível entre o fim de 2026 e o início de 2027
A cafeicultura está entre as cadeias que exigem atenção especial. No Sudeste, a Embrapa considera o período entre o fim de 2026 e o início de 2027 uma janela crítica para o café, por coincidir com etapas importantes do desenvolvimento das plantas, como floração e enchimento dos grãos.
Déficit hídrico e temperaturas elevadas nessas fases podem provocar abortamento de floradas e afetar produtividade e qualidade.
A orientação técnica é acompanhar as condições da lavoura, conservar a umidade do solo e utilizar práticas de manejo capazes de reduzir a exposição das plantas ao estresse hídrico e térmico.
O impacto, porém, depende das condições encontradas em cada área. Por isso, as recomendações não são apresentadas como uma única receita para toda a cafeicultura, mas como medidas que devem considerar clima local, solo, disponibilidade de água e estágio de desenvolvimento da lavoura.
Seguro rural, crédito e monitoramento também entram nas medidas
As 163 recomendações da Embrapa não se limitam ao manejo de culturas específicas. Parte das ações envolve previsões meteorológicas, diversificação da produção, planos de contingência, manutenção da infraestrutura das propriedades, sistemas integrados, seguro rural e capacitação das equipes.
O Mapa também criou uma página específica sobre El Niño e agropecuária, reunindo informações relacionadas a clima, Zarc, crédito rural, seguro e assistência técnica. A proposta é concentrar orientações que possam apoiar decisões durante a safra.
Em outubro, a Embrapa ampliou as recomendações com materiais voltados separadamente às cinco regiões brasileiras.
A estratégia reforça que plantio, manejo, irrigação e demais intervenções precisam considerar as condições locais, já que os efeitos do El Niño podem variar de forma significativa dentro do próprio país.

