Estruturas gigantes maiores que a Lua existem no interior da Terra a 2.900 km de profundidade e podem ter surgido do vazamento do núcleo há 4 bilhões de anos.
Segundo pesquisadores da Universidade Rutgers, que publicaram seu trabalho na revista científica Nature Geoscience em setembro de 2025, o interior da Terra guarda duas estruturas de escala continental que desafiam os modelos tradicionais de formação planetária desde sua identificação por sismólogos na década de 1980. Essas formações repousam na fronteira entre o manto e o núcleo, a aproximadamente 2.900 quilômetros de profundidade, uma região inacessível a qualquer instrumento humano. Durante décadas, sua origem permaneceu sem explicação.
O novo estudo propõe uma hipótese que altera profundamente a compreensão sobre a formação inicial do planeta: essas estruturas seriam o resultado da contaminação do manto por material do núcleo terrestre, ocorrida há cerca de 4 bilhões de anos, quando a Terra ainda era um oceano global de magma e a vida não existia.
O que são Tuzo e Jason, as estruturas gigantes conhecidas como LLSVPs no manto terrestre
As duas formações foram apelidadas de Tuzo e Jason, nomes dados em homenagem a pesquisadores pioneiros da tectônica de placas. Tecnicamente, elas são classificadas como Large Low-Shear-Velocity Provinces (LLSVPs), regiões identificadas exclusivamente por meio da análise da velocidade das ondas sísmicas.
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Sempre que um terremoto ocorre, ondas sísmicas percorrem o interior do planeta e são captadas por sensores ao redor do mundo. A velocidade dessas ondas varia conforme a densidade, temperatura e composição dos materiais atravessados.
Tuzo e Jason se destacam como regiões onde as ondas de cisalhamento desaceleram significativamente, indicando materiais mais quentes e densos do que o manto ao redor.
Estruturas maiores que a Lua ocupam até 3% do volume do manto terrestre
Cada uma dessas estruturas possui dimensões continentais. A estrutura localizada sob o Oceano Pacífico, conhecida como Jason, apresenta cerca de 3.000 quilômetros de extensão horizontal e centenas de quilômetros de altura.
Juntas, Tuzo e Jason ocupam entre 2% e 3% do volume total do manto terrestre. Em termos absolutos, essa escala as torna maiores do que a própria Lua.
As duas estruturas estão posicionadas de forma quase antipodal, ou seja, em lados opostos do planeta, uma configuração que se alinha com os padrões de convecção do manto ao longo de bilhões de anos.
Modelos tradicionais de formação da Terra não explicavam a existência dessas estruturas
A teoria clássica de formação da Terra descreve um processo extremamente violento há cerca de 4,5 bilhões de anos, com colisões sucessivas de corpos celestes. Esse processo gerou calor suficiente para fundir grande parte do planeta, criando um oceano global de magma.
Conforme esse oceano resfriava, os modelos previam uma separação química clara: materiais mais densos afundariam, enquanto os mais leves subiriam, resultando em um manto estratificado e relativamente homogêneo.
No entanto, os dados sísmicos mostram um cenário diferente, com a presença de estruturas irregulares, densas e quentes como Tuzo e Jason, que não se encaixam nesses modelos.
Vazamento do núcleo para o manto pode explicar origem das estruturas profundas
O modelo desenvolvido por Yoshinori Miyazaki, em colaboração com pesquisadores da Universidade Princeton, introduz um fator até então negligenciado: a interação entre o núcleo metálico e o oceano de magma basal.
O núcleo terrestre é composto principalmente por ferro e níquel fundidos, contendo também elementos mais leves dissolvidos, como silício e magnésio.
À medida que o núcleo resfriava, esses elementos foram expelidos e migraram para o manto, em um processo conhecido como exsolução.
Esse fenômeno teria contaminado o oceano de magma na base do manto, alterando sua composição e impedindo a formação de camadas químicas uniformes.
Formação de pilhas densas no manto explica distribuição atual de Tuzo e Jason
Com o tempo, o material contaminado se solidificou em uma mistura heterogênea de componentes do núcleo e do manto.

As simulações indicam que esse material foi transportado pelas correntes de convecção do manto e acumulado em duas grandes regiões, formando as estruturas hoje conhecidas como Tuzo e Jason.
Essas regiões correspondem exatamente aos pontos onde as correntes de convecção convergem, explicando sua posição atual.
Zonas ultrabaixas de velocidade sísmica reforçam evidência de material do núcleo no manto
O estudo também reproduz a existência das chamadas Ultra-Low Velocity Zones (ULVZs), regiões onde as ondas sísmicas desaceleram até 50% em relação ao normal.
Essas zonas aparecem principalmente nas bordas das LLSVPs e são interpretadas como áreas com maior concentração de material derivado do núcleo.
Essa evidência reforça a hipótese de que houve transferência de material entre núcleo e manto nos primeiros estágios da Terra.
Estruturas profundas influenciam vulcanismo e formação de ilhas como Havaí e Islândia
As LLSVPs estão diretamente associadas aos chamados pontos quentes vulcânicos. Regiões como Havaí, Islândia, Reunião e Samoa estão localizadas acima de plumas térmicas que se originam na fronteira entre o manto e o núcleo.
Essas plumas transportam calor e material do interior profundo até a superfície, alimentando vulcões por milhões de anos.
Tuzo e Jason funcionam como zonas geradoras dessas plumas, conectando processos profundos à atividade geológica observada na superfície.
As implicações do estudo vão além da geofísica. A forma como o planeta resfriou, a intensidade do vulcanismo e a composição da atmosfera podem ter sido influenciadas pela presença dessas estruturas profundas.
Comparações com outros planetas mostram diferenças marcantes: Vênus possui uma atmosfera extremamente densa, enquanto Marte apresenta uma atmosfera rarefeita.
Essas diferenças podem estar relacionadas à dinâmica interna de cada planeta, incluindo processos semelhantes aos identificados na Terra.
Manto terrestre pode guardar memória química de 4 bilhões de anos da formação do planeta
O estudo sugere que o manto não é completamente homogêneo, como se acreditava. Em vez disso, ele pode preservar registros químicos das interações iniciais entre núcleo e manto.
Essa “memória” permite reconstruir eventos ocorridos bilhões de anos atrás, oferecendo uma nova perspectiva sobre a evolução do planeta.
Os autores destacam que os modelos utilizados ainda apresentam simplificações, como simulações bidimensionais e composições químicas reduzidas.
Pesquisas futuras com modelos tridimensionais e experimentos de alta pressão serão necessárias para validar completamente as conclusões. Mesmo assim, os resultados já representam um avanço significativo na compreensão do interior terrestre.
Agora queremos saber: essas estruturas podem mudar tudo o que sabemos sobre a formação da Terra?
A existência de duas estruturas maiores que a Lua a quase 3.000 quilômetros de profundidade desafia diretamente os modelos clássicos da geologia. Se confirmada, a hipótese de vazamento do núcleo para o manto pode reescrever a história inicial do planeta.
Na sua visão, essas descobertas mudam completamente o entendimento sobre como a Terra se formou?

