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Do sertão da Bahia aos morros do Rio: a verdadeira história por trás das 813 favelas que cercam os bairros mais caros do Brasil

Imagem de perfil do autor Felipe Alves da Silva
Escrito por Felipe Alves da Silva Publicado em 26/10/2025 às 21:56
Assista o vídeoContraste entre favelas e bairros de luxo no Rio de Janeiro, destacando a Rocinha e o Leblon ao pôr do sol.
A origem das favelas no Rio vem da Guerra de Canudos, do crescimento desigual e da geografia que moldou a cidade mais dividida do Brasil.
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O contraste entre luxo e pobreza no Rio de Janeiro sempre chamou atenção. Em poucos metros, é possível ver o bairro mais caro do país, o Leblon, com o metro quadrado avaliado em R$ 28 mil, e, logo ao lado, comunidades como Vidigal e Rocinha, onde o valor cai para R$ 4 mil. Essa disparidade geográfica e social é tão grande que se tornou símbolo da capital fluminense — uma cidade onde 813 favelas compõem parte essencial de sua paisagem urbana.

Segundo dados recentes, o número de favelas na região metropolitana do Rio só cresce: em 2010, eram 763. O fenômeno desafia governos, urbanistas e sociólogos, levantando uma questão inevitável: por que há tantas favelas no Rio de Janeiro?

A favela nasceu da guerra: o elo entre Canudos e o Rio de Janeiro

Para entender a origem das comunidades cariocas, é preciso voltar ao sertão da Bahia, no fim do século XIX. Após a queda da monarquia e a proclamação da República, o Brasil tentava consolidar seu poder. Nesse período, surgiu Canudos, um assentamento fundado por camponeses pobres e ex-escravizados que buscavam viver livres de impostos e da interferência estatal. A cidade cresceu rapidamente, abrigando 25 mil pessoas, mais do que várias capitais da época.

Entretanto, o governo viu o movimento como uma ameaça. Em 1897, enviou 10 mil soldados com canhões e armamentos modernos para destruir Canudos. O massacre deixou apenas algumas dezenas de sobreviventes.
Quando os combatentes retornaram ao Rio de Janeiro, então capital federal, esperavam recompensas prometidas — terras e indenizações. Nada disso veio. Sem moradia e sem trabalho, ocuparam um morro próximo ao centro, construindo barracos improvisados. Nascia o Morro da Favela, batizado com o nome da planta que cobria os campos de Canudos.

Assim, o primeiro aglomerado urbano precário do Brasil surgiu não por escolha, mas por abandono estatal. A partir dali, o modelo se espalhou e se perpetuou por décadas.

Contraste entre favelas e bairros de luxo no Rio de Janeiro, destacando a Rocinha e o Leblon ao pôr do sol.
Vista aérea mostra contraste entre Leblon e Rocinha, simbolizando a desigualdade social do Rio de Janeiro. Créditos: Imagem ilustrativa criada por IA – uso editorial.

Crescimento desordenado e expulsão dos pobres

No início do século XX, o Rio de Janeiro já era a capital mais populosa do país. Em 1900, contava com 811 mil habitantes, enquanto São Paulo tinha apenas 239 mil. À medida que avenidas e bondes se multiplicavam, as elites ocupavam o centro e a zona sul, enquanto os trabalhadores eram empurrados para os morros.

A geografia também contribuiu para esse processo. Estados como Amazonas, Pará, Amapá e Espírito Santo — e o próprio Rio — compartilham uma característica: limites naturais de expansão. No caso carioca, a serra próxima ao litoral impedia o crescimento horizontal da cidade, confinando o avanço urbano entre o mar e os morros.

Durante as décadas de 1930 e 1940, o governo demoliu cortiços e moradias populares em nome da modernização do centro. Sem alternativas, milhares de famílias subiram os morros. Assim nasceram comunidades como o Morro do Cantagalo, Morro do Borel e, mais tarde, a Rocinha, hoje considerada a maior favela do Brasil.

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Migração em massa, desigualdade e o retrato do Rio moderno

Com a industrialização do país e o êxodo rural das décadas de 1940 a 1970, milhares de brasileiros deixaram o campo em busca de trabalho. O Rio, sendo o coração político e econômico do Brasil, atraiu multidões. Vieram nordestinos, mineiros e fluminenses do interior, mas encontraram uma cidade cara e sem infraestrutura.

A falta de políticas habitacionais gerou uma explosão demográfica nas favelas. Durante os anos 1960 e 1970, comunidades como Jacarezinho, Maré, Cidade de Deus e Vila Kennedy surgiram e se consolidaram. O governo tentou intervir com programas de remoção e urbanização, mas sem sucesso. Cada despejo resultava em novas ocupações, repetindo o ciclo da exclusão.

De acordo com levantamentos recentes, 20% dos moradores do Rio vivem em favelas. Em áreas como a Rocinha, Maré, Vidigal e Complexo do Alemão, a densidade populacional ultrapassa 60 mil habitantes por km². Em termos territoriais, as favelas ocupam cerca de 7% da área urbanizada, mas concentram quase um quarto da população carioca.

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A informação foi divulgada pelo canal Capital Financeiro, que analisou a expansão das favelas e as causas estruturais desse fenômeno urbano.

O legado: a favela como parte da identidade carioca

Com o passar das décadas, as favelas deixaram de ser vistas como uma exceção temporária e se tornaram parte da identidade do Rio de Janeiro. Elas influenciam a cultura, a economia e a dinâmica social da cidade. A convivência entre o luxo e a carência define a paisagem urbana carioca, onde o brilho das coberturas da zona sul contrasta com o colorido dos morros.

Atualmente, o Rio ainda vê o número de favelas crescer, resultado direto da desigualdade, da falta de políticas públicas e da estrutura geográfica que limita seu desenvolvimento.
O Rio é, portanto, um retrato vivo da história do Brasil — um país que nasceu com promessas de liberdade, mas onde milhões ainda lutam por um pedaço digno de chão.

Diante dessa trajetória que começou com o abandono de ex-soldados e se estende até as encostas superpovoadas da cidade, a verdadeira questão que permanece é: como o Rio de Janeiro, com toda sua beleza natural, cultura vibrante e história de resistência, ainda não conseguiu romper o ciclo de desigualdade que transformou a favela em símbolo e ferida aberta de sua identidade?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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