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Depois de vencer leilão federal, Eneva coloca quase R$ 6 bilhões no Pecém para erguer duas térmicas de 1.147 MW e terminal de GNL de 14 milhões de m³ por dia, com mais de 2 mil empregos previstos

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 09/09/2026 às 16:44 Atualizado em 09/09/2026 às 17:36
Complexo Parnaíba, da Eneva.
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O Hub Ceará reúne as usinas Jandaia II e III, um novo terminal de GNL e o Píer Zero no Porto do Pecém; estrutura deve começar a operar por etapas entre 2028 e 2029 e poderá fornecer gás até para a Termoceará, da Petrobras

Um investimento de quase R$ 6 bilhões está transformando uma área do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, em um novo polo de geração elétrica e distribuição de gás natural. O chamado Hub Ceará, liderado pela Eneva, reunirá duas grandes usinas termelétricas, infraestrutura portuária e um terminal capaz de movimentar até 14 milhões de metros cúbicos de gás por dia.

A Eneva voltou a apresentar os detalhes do projeto em 4 de setembro de 2026, durante encontro com representantes do Porto do Pecém. A implantação, porém, começou meses antes: a pedra fundamental do projeto Jandaia foi lançada em 9 de junho, depois de o empreendimento vencer o Leilão de Reserva de Capacidade realizado pelo Governo Federal em março.

O tamanho do projeto aparece também na mão de obra. A expectativa divulgada é de mais de 2 mil empregos diretos e indiretos durante implantação e operação, além da abertura de espaço para fornecedores, prestadores de serviços e empresas ligadas à cadeia industrial cearense.

Mas o ponto mais importante do projeto não está apenas nas duas termelétricas. O Pecém receberá uma estrutura integrada na qual o navio que traz o GNL, o terminal que transforma esse combustível novamente em gás e as usinas que geram eletricidade estarão conectados dentro do mesmo hub energético.

Duas térmicas vão colocar mais de 1,1 GW de potência contratada dentro do Pecém
CEARÁ RECEBE HUB DE R$ 6 BILHÕES E 1.147 MW DE ENERGIA

Duas térmicas vão colocar mais de 1,1 GW de potência contratada dentro do Pecém

O braço de geração do Hub Ceará será formado pelas UTE Jandaia II e UTE Jandaia III, novos empreendimentos movidos a gás natural.

A Eneva informou que o compromisso de venda de potência contratado no leilão chega a 1.147,8 MW por 15 anos. A companhia também registra aproximadamente 1.199,4 MW de capacidade instalada prevista, diferença que ocorre porque capacidade instalada e potência efetivamente contratada são indicadores distintos.

Na prática, trata-se de aproximadamente 1,2 GW de geração térmica concentrada em um dos principais complexos portuários e industriais do Nordeste.

Os contratos associados ao leilão começam em 1º de agosto de 2029 e terão duração de 15 anos, segundo documentação da companhia. A receita fixa anual associada ao compromisso de capacidade foi calculada em aproximadamente R$ 3,119 bilhões, na data-base de setembro de 2025 e com atualização prevista pelo IPCA.

Isso ajuda a explicar por que a Eneva avançou com a contratação antecipada dos principais equipamentos de geração e iniciou os trabalhos de engenharia antes mesmo da operação comercial.

Gás chegará de navio e poderá passar por estrutura de 14 milhões de m³ por dia

Para fazer as duas térmicas funcionarem, o Hub Ceará precisa resolver uma questão essencial: de onde virá tanto gás natural?

A resposta está no mar.

O projeto prevê um novo terminal de Gás Natural Liquefeito (GNL) no Porto do Pecém. Em vez de depender exclusivamente de gás transportado por longas redes terrestres, o combustível poderá chegar ao Ceará em navios na forma líquida.

Uma FSRU, sigla para unidade flutuante de armazenamento e regaseificação, ficará ligada à infraestrutura portuária. É nessa embarcação que o GNL recebido em baixíssima temperatura retorna ao estado gasoso antes de seguir para consumidores.

A capacidade de escoamento planejada chega a 14 milhões de metros cúbicos por dia, segundo documentos da própria Eneva.

É uma escala que transforma o terminal em algo maior do que simplesmente um “tanque de combustível” para Jandaia II e III.

A infraestrutura foi planejada para oferecer capacidade adicional de gás a terceiros e permitir o desenvolvimento de outros projetos industriais e termelétricos no futuro.

R$ 430 milhões serão enterrados em uma peça essencial do projeto: o Píer Zero

Antes de o gás chegar às turbinas, outra grande obra precisa avançar dentro do Porto do Pecém.

O chamado Píer Zero receberá aproximadamente R$ 430 milhões e terá a função de dar suporte à operação do terminal de GNL e à atracação da unidade flutuante de regaseificação.

A estrutura é uma das peças que ajudam a levar o investimento global do complexo para perto da marca de R$ 6 bilhões. A implantação das térmicas foi estimada oficialmente em aproximadamente R$ 5,5 bilhões, enquanto o novo píer adiciona cerca de R$ 430 milhões à infraestrutura necessária.

As obras portuárias já mobilizaram serviços de engenharia, máquinas, equipamentos, levantamento batimétrico e montagem de canteiros.

O cronograma divulgado aponta a entrada em funcionamento da infraestrutura portuária em 2028, enquanto conclusão, testes e preparação das termelétricas avançam para 2029.

Ou seja: antes de produzir eletricidade, o projeto precisa construir uma cadeia que começa no navio, passa pelo píer, transforma GNL em gás e termina dentro das turbinas.

Terminal não ficará restrito à Eneva e poderá abastecer a Termoceará, da Petrobras

É justamente neste ponto que o Hub Ceará ganha dimensão maior para o mercado de gás do Nordeste.

O novo terminal foi planejado para ter capacidade além daquela exigida pelas usinas Jandaia.

O próprio Complexo do Pecém informa que a infraestrutura poderá fornecer gás para outras instalações industriais, entre elas a UTE Termoceará, da Petrobras, além de futuros empreendimentos instalados na região.

Isso transforma o projeto em potencial porta de entrada de GNL para diferentes consumidores.

O CPG mostrou recentemente outra peça dessa estratégia: a Eneva ficou com 100% da empresa ligada ao terminal de GNL do Pecém após uma operação societária com a Diamante Energia que pode alcançar R$ 867 milhões e ainda depende da análise do Cade.

A operação ajuda a explicar a importância estratégica do terminal para a companhia. Deixar de dividir seu controle significa aumentar a autonomia sobre infraestrutura, cronograma e desenvolvimento comercial do projeto.

O movimento também ocorre enquanto a Eneva reorganiza seu portfólio e reduz sua exposição direta à geração a carvão, reforçando sua posição no gás natural e em estruturas integradas de geração.

Quando vento, sol e chuva não entregam energia suficiente, as térmicas entram em cena

O Ceará possui uma das condições naturais mais favoráveis do país para geração eólica e solar. Entretanto, essas duas fontes apresentam uma característica física incontornável: a produção varia de acordo com as condições ambientais.

Uma turbina eólica não produz a mesma quantidade de eletricidade quando o vento cai. Da mesma forma, a geração solar despenca durante a noite.

É aí que entram fontes consideradas despacháveis, capazes de aumentar a geração quando o Operador Nacional do Sistema necessita de potência adicional.

Durante o lançamento do projeto, representantes da Eneva destacaram justamente essa função das termelétricas dentro de um sistema cada vez mais abastecido por fontes renováveis variáveis.

O gás natural continua sendo combustível fóssil, portanto não elimina emissões. Entretanto, a lógica do empreendimento está ligada à capacidade de colocar grandes volumes de eletricidade no sistema nos momentos em que outras fontes não conseguem entregar a potência necessária.

Esse papel tende a ganhar importância conforme a participação de eólica e solar cresce na matriz elétrica brasileira.

Mais de 2 mil empregos colocam fornecedores cearenses diante de uma obra que vai durar anos

Para a economia local, a construção física é apenas uma parte da história.

Um empreendimento com duas termelétricas, terminal marítimo, FSRU, dutos, estruturas de gás, sistemas elétricos e um novo píer exige uma cadeia extensa de engenharia e serviços.

Entram nesse ecossistema atividades de construção civil, montagem eletromecânica, elétrica, instrumentação, tubulação, caldeiraria, logística, manutenção, segurança industrial, comissionamento e apoio portuário.

A estimativa oficial é que o projeto movimente mais de 2 mil empregos diretos e indiretos.

Também existe impacto potencial sobre fornecedores de materiais, transporte, alimentação, hospedagem, aluguel de equipamentos e diversos serviços que acompanham projetos industriais dessa dimensão.

Por isso, quando a Eneva fala em quase R$ 6 bilhões, o número não representa apenas equipamentos importados ou grandes contratos de engenharia. Uma parte da movimentação econômica tende a atravessar empresas locais durante a construção e, posteriormente, durante a operação.

Pecém deixa de ser apenas o endereço das usinas e começa a funcionar como um hub de gás

O projeto Jandaia começou como uma grande contratação de capacidade elétrica, mas o desenho final revela algo mais amplo.

  • As térmicas precisam de gás.
  • O gás exige um terminal.
  • O terminal exige infraestrutura marítima.

Essa infraestrutura pode atender outros consumidores.

E a presença de gás disponível dentro de um complexo industrial pode, por sua vez, ajudar a atrair novas fábricas, projetos térmicos e grandes consumidores energéticos.

Essa sequência explica por que o empreendimento recebeu o nome de Hub Ceará.

O Complexo do Pecém já reúne porto, Zona de Processamento de Exportação e uma área industrial superior a 19 mil hectares, além de projetos ligados a hidrogênio, logística e energia.

Agora, a chegada de até 14 milhões de m³ de capacidade diária de gás acrescenta uma nova camada a esse ambiente.

Se o cronograma previsto for cumprido, 2028 marcará a entrada da nova infraestrutura portuária, enquanto 2029 deverá concentrar a conclusão dos testes das termelétricas e o início dos contratos de capacidade.

É nesse intervalo que quase R$ 6 bilhões sairão dos projetos de engenharia para se transformar em píer, terminal, turbinas, instalações de gás e geração elétrica.

E o resultado pode ser maior do que duas novas usinas: o Pecém poderá ganhar uma infraestrutura de gás capaz de abastecer não apenas o Hub Ceará, mas também plantas existentes e futuros projetos industriais do Nordeste.

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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