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Só 33% do gás natural produzido no Brasil chega ao consumidor final, e foi esse número que a Abegás colocou na mesa dos presidenciáveis junto com nove medidas e um alerta sobre a Margem Equatorial

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 15:47 Atualizado em 04/09/2026 às 16:10
Tubulação amarela de gás natural em obra urbana
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Apenas 33% do gás natural produzido no Brasil chega ao consumidor final, e foi com esse número que a Abegás abriu a agenda de nove medidas para o mercado de gás natural entregue aos candidatos à Presidência, junto com um alerta de que o gás da Margem Equatorial só deve estar disponível em seis, oito ou dez anos.

Conforme divulgado, a associação que reúne as distribuidoras de gás canalizado apresentou o documento em formato de e-book interativo, com propostas divididas entre frentes legislativa, regulatória e de políticas públicas. Assinam as declarações o diretor Marcelo Mendonça e o presidente do conselho, Rafael Lamastra Jr. A entidade representa distribuidoras com operação ativa em 19 estados.

Nesse sentido, os números que sustentam o argumento são expressivos. O setor de distribuição investe cerca de R$ 1,5 bilhão por ano, sustenta em torno de 60 mil empregos diretos e indiretos anualmente, movimentou 58 milhões de metros cúbicos por dia em 2025 e atende 5 milhões de clientes diretos. O país produziu, no mesmo período, cerca de 179 milhões de metros cúbicos por dia.

Rede de distribuição de gás sendo instalada

Para onde vão os outros dois terços do mercado de gás natural

Em primeiro lugar, a diferença entre 179 milhões e os 58 milhões que chegam à distribuição é o coração da queixa do setor. De acordo com o setor, boa parte do gás produzido no Brasil é associado, ou seja, sai junto com o petróleo nos campos do pré-sal. Uma fatia relevante desse volume é reinjetada no próprio reservatório, prática que serve para manter a pressão e maximizar a extração de óleo, e outra parte é consumida na própria operação das plataformas.

Por outro lado, do ponto de vista do produtor de petróleo reinjetar faz sentido econômico: o óleo vale mais que o gás, e a reinjeção aumenta a recuperação do campo. Do ponto de vista do consumidor de gás, é energia que existe, foi produzida e nunca chega ao mercado. Não por acaso, a Abegás incluiu a questão da reinjeção entre os pontos que exigem definição de política pública.

Além disso, há o gargalo físico. Levar gás do mar até o consumidor exige gasoduto de escoamento, unidade de processamento e rede de distribuição, uma cadeia cara e de construção lenta. O Brasil tem malha de transporte modesta em relação ao território, e regiões inteiras simplesmente não têm acesso à molécula, o que limita a demanda industrial e mantém o mercado pequeno em relação ao potencial.

Estação de tratamento e medição de gás natural

O que a agenda de nove medidas propõe

De fato, as propostas cobrem frentes bem distintas. Estão na lista o uso de gás natural em data centers, tema que ganhou relevância com a aprovação do regime de incentivo ao setor no Congresso, e os leilões compulsórios de gas release, mecanismo pensado para forçar a entrada de mais moléculas no mercado e ampliar a concorrência na oferta.

Em seguida, outras medidas atacam o desenho institucional: atribuição de funções de comercialização à CCEE, ajustes na Lei 14.134, de 2021, que é o marco legal do gás, acesso negociado aos gasodutos e criação de um gestor independente da malha de transporte. Esse último ponto é sensível, porque separar quem transporta de quem vende é justamente o que permite concorrência real em mercados de rede.

Por fim, completam a agenda os corredores sustentáveis com postos de abastecimento a gás, voltados ao transporte pesado, linhas de crédito para expansão das redes de distribuição e maior integração entre os setores de gás e de energia elétrica. Essa integração, aliás, conversa diretamente com o debate sobre térmicas e segurança de suprimento que domina a pauta elétrica.

Convém lembrar por que o gás importa tanto para a indústria. Diferente do consumo residencial, que no Brasil é pequeno e concentrado em poucas capitais, o uso industrial do gás é intensivo: vidro, cerâmica, papel, química e siderurgia dependem de calor de processo, e o gás natural entrega esse calor com controle e eficiência difíceis de igualar. Fábrica sem acesso à rede de gás acaba usando alternativa mais cara ou mais poluente, e isso aparece no custo do produto final.

Ao mesmo tempo, o preço explica a insistência do setor. O custo da molécula no Brasil segue elevado em comparação com países que abriram seus mercados, e a explicação corrente aponta para concentração na oferta e para o acesso limitado à infraestrutura de transporte. É exatamente esse diagnóstico que sustenta propostas como o gas release e o gestor independente da malha, ambas voltadas a criar concorrência onde hoje há poucos agentes.

Ao mesmo tempo, vale registrar o contexto competitivo desse documento. Na mesma semana, a associação da energia eólica entregou aos presidenciáveis a sua própria agenda, com sete propostas centradas no corte de geração renovável. São dois setores que disputam espaço na matriz e no orçamento público apresentando, quase simultaneamente, listas de pedidos ao próximo governo. Coincidência de calendário eleitoral, mas também sinal de que a energia entrou de vez na disputa de agenda.

O alerta sobre a Margem Equatorial

Ainda assim, o ponto mais duro do documento é sobre expectativa. A entidade destaca que o potencial exploratório da Margem Equatorial, região que concentra hoje as maiores esperanças do setor no país, estará disponível em seis, oito ou dez anos. É um recado direto contra a tentação de tratar a nova fronteira como solução de curto prazo para o abastecimento.

Nesse caso, o raciocínio vale para qualquer fronteira exploratória. Entre a descoberta e a primeira molécula comercializada existe um caminho longo: delimitação da acumulação, estudo de viabilidade, licenciamento ambiental, decisão de investimento, contratação de unidade de produção, construção de escoamento. Nenhuma dessas etapas é rápida, e várias dependem de decisão de terceiros.

Consequentemente, a associação pede planejamento imediato para os próximos vinte anos, e não apenas para o ciclo eleitoral seguinte. Fico com a impressão de que esse é o recado mais útil do documento: um setor que depende de infraestrutura de décadas pedindo que o país pare de tratar energia como pauta de quatro em quatro anos. Se o gás da Margem Equatorial chegar mesmo em dez anos, quem decidir a rede hoje é que vai definir se ele terá para onde ir.

Faz sentido produzir 179 milhões de metros cúbicos de gás por dia e entregar só um terço ao consumidor?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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