Disputa bilionária em Roșia Montană expôs o choque entre mineração, preservação histórica e pressão popular na Romênia, depois que uma empresa canadense tentou viabilizar por décadas um projeto de ouro e prata em uma região marcada por galerias romanas reconhecidas pela Unesco.
A mineradora canadense Gabriel Resources perdeu, em 08 de março de 2024, uma disputa arbitral contra a Romênia após tentar obter US$ 4,4 bilhões em indenização pelo fracasso do projeto de ouro e prata em Roșia Montană, nas montanhas Apuseni, no oeste do país.
Ligado ao Banco Mundial, o Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos, conhecido como ICSID, foi responsável pela decisão que encerrou a cobrança bilionária apresentada pela companhia contra o Estado romeno.
Na prática, o caso colocou em lados opostos uma promessa de desenvolvimento econômico e a preservação de uma paisagem cultural reconhecida pela Unesco, em uma região onde a mineração atravessa séculos de história.
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Enquanto a empresa defendia a geração de empregos em uma área com poucas oportunidades, ambientalistas, moradores e grupos cívicos alertavam para riscos ecológicos e danos a um patrimônio arqueológico considerado raro.
Disputa bilionária começou após recuo do governo romeno
A controvérsia chegou à arbitragem internacional em 2015, um ano depois de o governo romeno retirar o apoio ao empreendimento e consolidar a paralisação de um projeto discutido havia décadas.

Ao acionar o tribunal, a Gabriel Resources alegou perdas bilionárias e sustentou que seus investimentos haviam sido prejudicados por decisões do Estado romeno ao longo do processo de licenciamento e aprovação.
Prevista para operar em escala industrial, a mina de Roșia Montană tinha como objetivo explorar ouro e prata em uma área apontada entre os maiores depósitos auríferos conhecidos da Europa.
Segundo a Reuters, a operação planejada pela companhia canadense estaria entre as maiores minas de ouro a céu aberto do continente, mas enfrentou resistência pública crescente até ser paralisada.
Roșia Montană preserva galerias romanas ligadas à mineração
Muito antes de virar alvo de uma disputa internacional, Roșia Montană já tinha importância histórica por ter sido conhecida na Antiguidade como Alburnus Maior, durante o período de presença romana na região.
No subsolo, permanecem galerias associadas à mineração romana, reconhecidas pela Unesco como parte de um dos complexos de extração de ouro mais relevantes e diversos daquele período histórico.
Por causa desse valor arqueológico, a discussão deixou de girar apenas em torno de empregos, licenças e investimentos estrangeiros, passando a envolver patrimônio cultural, proteção ambiental e soberania regulatória.
Entre os críticos da mina, uma das principais preocupações estava ligada ao método de exploração, especialmente pelo uso de cianeto no processamento do ouro e pelos impactos sobre a paisagem histórica.
O plano de mineração também previa remoção de montanhas, deslocamento de famílias e criação de uma área de rejeitos associada ao processo industrial, fatores que ampliaram a resistência ao projeto.
Essas preocupações ganharam força em 2013, quando manifestações de grande porte tomaram as ruas da Romênia e transformaram Roșia Montană em um símbolo nacional de mobilização ambiental e patrimonial.
Protestos ambientais pressionaram decisão sobre a mina

Sob pressão popular, o governo romeno retirou o apoio político ao empreendimento, medida que consolidou a interrupção da mina e abriu caminho para a cobrança bilionária apresentada pela Gabriel Resources.
No julgamento arbitral, os pedidos da companhia foram rejeitados por maioria de dois votos a um, e a empresa ainda foi condenada a reembolsar cerca de US$ 10 milhões em custos à Romênia.
A vitória romena ganhou peso simbólico porque evitou uma indenização bilionária em uma disputa acompanhada por investidores, ambientalistas e especialistas em arbitragem internacional.
Pelo valor reivindicado, o processo se tornou uma das controvérsias mais relevantes da Europa envolvendo mineração, patrimônio histórico, resistência social e decisões tomadas por um Estado nacional.
Patrimônio da Unesco reforçou proteção internacional
Para o governo romeno, a paralisação do projeto estava ligada à necessidade de evitar danos ambientais e preservar um território de grande valor arqueológico para o país.
Do lado da Gabriel Resources, a derrota representou um forte revés em uma estratégia construída ao longo de décadas, com investimentos, estudos técnicos, licenciamento e tentativa de viabilização política.
Em 27 de julho de 2021, Roșia Montană entrou na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, reconhecimento que reforçou a proteção internacional da área e aumentou o peso cultural do caso.
O título concedido pela organização destacou o valor universal das galerias, do povoamento histórico e da paisagem moldada pela mineração desde a Antiguidade, muito antes do projeto industrial canadense.
Caso virou referência para projetos de mineração
Além da disputa entre uma empresa e um governo, o episódio expôs um dilema recorrente em projetos extrativos de grande escala, sobretudo quando reservas minerais se sobrepõem a áreas sensíveis.
Empresas costumam buscar previsibilidade regulatória antes de comprometer capital, tecnologia e anos de planejamento, mas comunidades e governos precisam avaliar impactos ambientais, sociais e culturais de longo prazo.
Em Roșia Montană, a controvérsia ultrapassou a lógica de um contrato de mineração e passou a representar uma tensão mais ampla entre riqueza mineral, identidade local e preservação histórica.
A companhia ainda tentou manter a discussão aberta por meio de um pedido de anulação da decisão arbitral, procedimento que seguia em tramitação em 2026, segundo registros do ICSID e da própria Gabriel Resources.
Mesmo com esse desdobramento, a sentença de 08 de março de 2024 permanece como o marco central da derrota da mineradora na cobrança bilionária contra o Estado romeno.
A controvérsia mostra que projetos minerais dependem não apenas de reservas comprovadas e interesse econômico, mas também de aceitação social, proteção patrimonial e estabilidade política durante todo o processo.
No caso de Roșia Montană, reuniram-se elementos pouco comuns em uma mesma disputa: empresa estrangeira, megaprojeto mineral, indenização bilionária, protestos nacionais, galerias romanas e um vilarejo cujo valor ultrapassou as fronteiras da Romênia.


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