Cientistas propõem que uma explosão solar do tipo S represente um salto acima da classe X no Sol, com potencial de empurrar a Terra para episódios extremos de clima espacial.
Cientistas publicaram essa proposta no Journal of Geophysical Research: Space Physics ao tentar responder uma pergunta que há anos desafia a física solar: quando o Sol pode voltar a produzir uma erupção realmente fora da escala usual. O estudo afirma que essas supererupções do tipo S não seriam meras hipóteses teóricas, mas eventos já registrados no passado recente e concentrados em janelas de maior probabilidade durante o atual Ciclo Solar 25.
Segundo o portal Olhar Digital, o detalhe que muda o peso da história é que a categoria S ainda não faz parte da classificação operacional padrão usada por NASA e NOAA, que vai de A a X, mas nasce justamente para tentar descrever explosões acima do que a letra X consegue comunicar de forma intuitiva. Em vez de sugerir um apocalipse iminente, o estudo aponta janelas temporais de maior risco, incluindo um intervalo que atravessa 2025.7 a 2026.6 e outro entre 2027.2 e 2027.9.
O detalhe mais forte está no tamanho da amostra e no salto para uma nova classe de erupção

O trabalho parte de uma base difícil de ignorar. Segundo os autores, a análise reuniu 95.627 erupções solares com dados de ano, mês, dia, latitude e classe em raios X, incluindo 37 eventos do tipo S reportados entre 1978 e 2025. A escala desse levantamento é o que dá força à tentativa de transformar um comportamento raro do Sol em algo estatisticamente tratável.
-
Esqueça a varredeira lenta: China cria caminhão-aspirador que limpa rodovias a até 80 km/h, suga pedras, poeira e metais do asfalto e promete reduzir bloqueios sem parar o trânsito
-
Por que o derretimento do gelo na Groenlândia e na Antártida pode forçar uma mudança inédita nos relógios do mundo e alterar o UTC pela primeira vez na história, adiando uma correção que desafia sistemas digitais globais?
-
Elon Musk pode comprometer observação do céu noturno com plano de US$ 2,4 trilhões que prevê mais de 1 milhão de satélites; simulação indica até 14.072 objetos visíveis em São Paulo e astrônomos fazem alerta preocupante
-
Aviões serão ‘feitos’ por robôs: Airbus lança máquina de apenas 4 kg que reduz de 150 para 30 minutos a instalação de assentos, alcança precisão milimétrica e já tem estreia marcada na produção do A321 XLR
Essa proposta ganha ainda mais impacto quando comparada ao sistema tradicional. A NASA explica que as erupções solares são classificadas em A, B, C, M e X, com aumento de energia em fator 10 a cada letra. A classe X já é a mais intensa, mas não tem limite superior, e o maior evento já medido foi registrado em 2003 como X28, depois que sensores ficaram saturados. É exatamente nesse território acima de X10 que os autores querem encaixar a nova designação S.
A virada curiosa é que a explosão mais extrema já pode ter aparecido sem a etiqueta que os cientistas agora querem criar
O estudo não diz apenas que supererupções podem acontecer. Ele argumenta que elas já aconteceram e que faltava uma forma mais clara de tratá-las. Ao reunir a literatura e os registros históricos, os autores enquadram 37 eventos como S-class, o que tira essas explosões do campo da especulação e as coloca no campo da reclassificação científica.
Essa releitura conversa com observações recentes. Em maio de 2024, a ESA informou que a Solar Orbiter viu no lado oculto do Sol uma flare estimada em X12, então a mais forte do ciclo atual e uma das dez mais intensas desde 1996. O estudo também menciona duas erupções acima de X10 detectadas no lado oculto em maio de 2024. Ou seja, o Sol já deu sinais concretos de que ainda consegue produzir eventos acima do limiar proposto para a nova categoria.
O contexto ampliado mostra que o risco não está na superfície da Terra, mas no tamanho do estrago tecnológico possível
A NASA descreve as flares solares como explosões intensas de radiação no Sol. A energia chega à Terra em cerca de oito minutos e, embora a atmosfera e o campo magnético nos protejam no solo, erupções fortes podem atrapalhar comunicações por rádio, afetar satélites e prejudicar espaçonaves. Partículas energéticas e ejeções de massa coronal associadas a esses eventos também podem degradar circuitos, danificar painéis solares e aumentar riscos para astronautas.
É aí que a hipótese do tipo S ganha dimensão real. O estudo fala em supererupções com potencial de produzir condições de clima espacial extremo, e a ESA já mostrou como uma flare poderosa em 2024 elevou erros de memória em missões como Mars Express e BepiColombo. Em outras palavras, a questão não é imaginar fogo caindo sobre cidades, mas entender até onde uma erupção muito acima da classe X pode pressionar sistemas que dependem de satélites, comunicação e infraestrutura elétrica.
Por que isso pode mudar a forma como os cientistas tentam prever o Sol
O estudo aposta menos em acertar o minuto exato de uma erupção e mais em identificar janelas temporais e faixas heliográficas em que o risco aumenta. Os autores dizem ter encontrado dois padrões recorrentes, um de cerca de 1,7 ano e outro de aproximadamente 7 anos, ligados a interações de ondas magneto-Rossby com a dinâmica magnética solar. A proposta é usar esses padrões para construir previsões probabilísticas de médio prazo.
Se isso se sustentar, a mudança é importante. Hoje, a previsão operacional costuma se concentrar na atividade visível das manchas solares e em probabilidades de curto prazo para flares C, M e X. Um modelo que destaque janelas mais longas para supererupções daria às agências espaciais e aos operadores de infraestrutura um tipo diferente de preparação, mais próxima de planejamento estratégico do que de simples alerta de última hora. Essa é uma inferência apoiada pelo método descrito pelos autores e pelas limitações do monitoramento atual.
O que ainda falta confirmar antes de tratar a categoria S como um novo padrão oficial
Há um ponto decisivo aqui: a classe S é uma proposta científica, não uma categoria oficial já adotada pelas agências de monitoramento. NASA e NOAA continuam usando a escala tradicional que culmina em X, e o próprio estudo busca oferecer um novo enquadramento para os eventos acima de X10. Isso significa que a ideia pode ganhar influência acadêmica e prática sem que, necessariamente, vire padrão operacional de imediato.
Também falta testar o desempenho preditivo desse modelo ao longo do tempo. Os autores identificam 2025.7–2026.6 e 2027.2–2027.9 como janelas principais de alta probabilidade no Ciclo 25, mas a força real da proposta dependerá de como o Sol vai se comportar nos próximos anos. É justamente esse confronto entre previsão e observação que decidirá se estamos diante de uma nova chave de leitura do clima espacial ou apenas de uma hipótese ousada sobre os eventos mais violentos da nossa estrela.
No fim, o que mais impressiona não é só a ideia de uma explosão solar acima da classe X. É o fato de que cientistas agora enxergam padrões suficientes em quase meio século de dados para dizer que essas supererupções podem ser tratadas como uma categoria própria, com janelas preferenciais e riscos tecnológicos reais. Se estiverem certos, a Terra talvez não esteja à espera de um evento impossível, mas de algo raro, extremo e já inscrito no repertório do Sol.

Seja o primeiro a reagir!