Grupo chinês com faturamento anual de US$ 10 bilhões aposta no Brasil como plataforma estratégica para expansão no agronegócio latino-americano, com planos de iniciar montagem local e construir uma fábrica no país dentro de quatro anos para fortalecer presença junto aos produtores rurais brasileiros.
A Zoomlion, conglomerado chinês com faturamento global de US$ 10 bilhões e capital aberto na bolsa de valores da China, avança com uma estratégia ambiciosa de expansão no mercado brasileiro de máquinas agrícolas, incluindo planos concretos para iniciar operações de montagem local e construir uma fábrica no Brasil dentro de um prazo estimado de quatro anos.
A empresa está presente no Brasil há uma década por meio de sua linha de máquinas para construção civil, com fábrica já instalada em Indaiatuba (SP), mas o ingresso no mercado agrícola nacional ocorreu em 2025, com a apresentação de sua linha de tratores e colheitadeiras para produtores rurais em eventos como o Show Rural Coopavel, no Paraná.
Na Agrishow 2025, realizada em Ribeirão Preto (SP), a Zoomlion participou pela primeira vez como expositora no segmento agrícola, apresentando uma linha variada de tratores com potências que vão de 75 a 350 cavalos, incluindo o que a empresa classifica como o primeiro trator híbrido dessa categoria no Brasil e o maior híbrido do tipo no mundo.
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O modelo híbrido de destaque apresentado em Ribeirão Preto tem 350 cavalos de potência e pode operar tanto com diesel quanto com eletricidade, mas a fabricante afirma já ter em seu portfólio global híbridos de até 700 cavalos, demonstrando uma capacidade tecnológica que vai além do que está sendo apresentado inicialmente ao mercado brasileiro.
Sherry Bao, diretora de máquinas agrícolas para a América Latina, e Huang Wei Zhe, head de máquinas agrícolas para o Brasil com base em Indaiatuba, reconhecem que o primeiro ano de operação agrícola no país foi desafiador, com uma receita de R$ 100 milhões em 2025, abaixo das expectativas iniciais da companhia para esse período de entrada no mercado nacional.
“O primeiro ano sempre é difícil, porque existem muitos concorrentes já consolidados há muitos anos, mas já encontramos parceiros muito bons e em várias regiões já temos distribuidores que estão ajudando a levar nossas máquinas aos produtores”, disse Sherry Bao, destacando que o aprendizado do período inicial foi fundamental para ajustar a estratégia comercial da empresa no país.
Tropicalização e ajustes técnicos para o campo brasileiro

Um dos principais aprendizados da Zoomlion em seu primeiro ano no mercado agrícola brasileiro foi a necessidade de adaptar suas máquinas às condições específicas do campo nacional, processo que a companhia denomina internamente de tropicalização, envolvendo ajustes como calibração de rodas e adaptação de plataformas de colheita às culturas e terrenos do Brasil.
“Trouxemos alguns modelos, testamos em várias regiões e cidades do Brasil justamente para entender como adaptar as máquinas ao mercado brasileiro; por exemplo, a colheitadeira que está aqui hoje já é diferente da primeira unidade que trouxemos ao Brasil, com ajustes feitos a partir de testes em diferentes regiões produtoras”, revelou o head brasileiro da empresa durante a entrevista exclusiva concedida ao AgFeed.
Apesar das dificuldades do primeiro ano, o cenário começa a melhorar em 2026, com um faturamento que já alcançou R$ 300 milhões no período analisado e perspectiva de fechar o ano com pelo menos R$ 500 milhões em vendas, um salto expressivo em relação aos R$ 100 milhões obtidos no exercício anterior, demonstrando aceleração na aceitação da marca entre os produtores rurais.
Para combater o principal argumento dos concorrentes tradicionais — a preocupação com dificuldades de manutenção e reposição de peças de máquinas de origem chinesa —, a Zoomlion está construindo um grande centro de distribuição de peças em Indaiatuba e negocia o início de uma operação CKD, que envolve a montagem local de equipamentos a partir de kits importados da China.
“Esse é o maior receio de quem compra produtos importados: ficar sem peça e esperar 60 dias; isso não vai acontecer”, garantiu Huang Wei Zhe, ao destacar que o investimento da Zoomlion em infraestrutura de pós-venda é um diferencial competitivo central para conquistar a confiança dos produtores rurais brasileiros, especialmente em um segmento onde a disponibilidade de suporte técnico é determinante na decisão de compra.
Fábrica no Brasil e expansão da rede de distribuição

O passo mais ambicioso da Zoomlion no Brasil é a construção de uma fábrica destinada ao segmento agrícola, prevista para ser instalada dentro de até quatro anos em um dos três estados que já receberam representantes da empresa para conversas preliminares: Goiás, Minas Gerais ou Santa Catarina, embora ainda não tenha sido tomada uma decisão final sobre a localização da unidade.
“Nosso planejamento é ter uma fábrica localizada em até quatro anos; ainda não podemos divulgar valores de investimento, mas vamos investir bastante porque sabemos que o Brasil é um mercado enorme e, para atuar aqui no longo prazo, a produção local é essencial”, sinalizou a diretora Sherry Bao, ao detalhar a estratégia de longo prazo da companhia para o agronegócio brasileiro.
A nova unidade será estruturada em três fases, com a primeira etapa prevendo a produção de aproximadamente 1.000 unidades por ano, número que tende a crescer conforme a consolidação da marca no mercado e a ampliação da capacidade instalada nas fases seguintes, de acordo com o planejamento apresentado pelos executivos durante a entrevista exclusiva concedida ao AgFeed na Agrishow.
Atualmente, a Zoomlion conta com 10 grupos econômicos parceiros no Brasil, cada um operando com duas ou mais lojas, e tem como meta atingir uma rede de 50 distribuidores ao final de 2026, ampliando sua capilaridade comercial e capacidade de atender produtores rurais em diferentes regiões do país com produtos e suporte técnico adequados às demandas do campo.
A empresa também afirma ter capacidade de atender desde pequenos produtores até grandes operações agrícolas, citando como exemplo um cliente em potencial que cultiva cerca de 120 mil hectares, além de mencionar um produtor que já testou seus equipamentos em fazendas de aproximadamente 28 mil hectares na região de Unaí e no Oeste da Bahia, evidenciando a versatilidade do portfólio para diferentes escalas de operação.
Sobre o cenário geopolítico e seus efeitos, a executiva Sherry Bao afirmou que a empresa foi menos afetada do que se poderia esperar, com impactos concentrados principalmente nos custos logísticos internacionais, enquanto as fábricas da companhia na China continuam operando normalmente, pois a maior parte das matérias-primas e componentes utilizados na produção é obtida dentro do próprio país.

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