Redescoberta de espécie rara na Mata Atlântica reforça importância de áreas protegidas e revela lacunas no conhecimento científico sobre flora brasileira em regiões de difícil acesso.
Após mais de um século sem registros conhecidos no estado do Rio de Janeiro, a espécie Justicia dasyclados, da família Acanthaceae, voltou a ser encontrada na Reserva Biológica Estadual de Araras, em Petrópolis, na Região Serrana.
O registro foi feito em fevereiro de 2026 durante o monitoramento de uma trilha em área de floresta densa, acima de 1.200 metros de altitude, e recoloca a unidade de conservação no centro das pesquisas sobre a flora da Mata Atlântica.
A localização da planta foi realizada pela guarda-parque do Instituto Estadual do Ambiente, o Inea, e pesquisadora vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, Vanessa Cabral.
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Segundo o relato divulgado após a confirmação do achado, a redescoberta ocorreu em uma área preservada da reserva, reforçando o papel do monitoramento de campo para o avanço do conhecimento científico sobre espécies raras da vegetação brasileira.
Durante a expedição, os pesquisadores coletaram três indivíduos da espécie, que foram encaminhados ao Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A identificação foi confirmada pelo pesquisador Marcus Nadruz, em colaboração com a especialista em Acanthaceae Denise Braz, doutora pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
De acordo com os envolvidos, o último registro e identificação conhecidos dessa planta no território fluminense haviam ocorrido cerca de cem anos antes.

Redescoberta amplia o mapa da flora no estado
A ocorrência é tratada como a segunda conhecida da espécie no Rio de Janeiro, o que amplia o entendimento sobre a distribuição da Justicia dasyclados no país.
A espécie é endêmica do Brasil e aparece em bases botânicas associada a registros em outros estados do Sudeste, enquanto a presença fluminense ainda não figurava na base da Flora e Funga do Brasil quando a descoberta foi divulgada.
Esse descompasso ajuda a dimensionar a relevância científica do reencontro em Araras.
A volta da espécie ao noticiário científico não decorre de uma expansão recente conhecida da planta, mas de um novo registro em campo após um longo intervalo sem observações documentadas no estado.
Em áreas de Mata Atlântica de difícil acesso, lacunas desse tipo não são incomuns, especialmente em regiões serranas com relevo acidentado e alta diversidade biológica, onde a presença de populações muito pequenas pode dificultar a localização mesmo em levantamentos sucessivos.
Vanessa Cabral afirmou que o reencontro evidencia a relevância das áreas protegidas para a produção de conhecimento científico.
Em declaração divulgada após a confirmação da espécie, ela destacou que a descoberta também demonstra o papel estratégico das unidades de conservação na ampliação do conhecimento sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados e mais estudados do país.
Área protegida ajuda a explicar o achado
A Reserva Biológica Estadual de Araras foi criada em 1977 e abrange áreas de Petrópolis e Miguel Pereira.
Dados oficiais do governo do Rio indicam que a unidade possui 3.862 hectares de Mata Atlântica, com proteção de nascentes, cursos d’água, trechos de floresta ombrófila e ambientes de altitude.
Por se tratar de uma reserva biológica, a visitação é restrita, com acesso voltado essencialmente para pesquisa científica e atividades educacionais autorizadas.

Esse perfil mais restritivo ajuda a preservar condições ecológicas importantes para espécies raras ou pouco conhecidas.
Em unidades com esse grau de proteção, o trabalho contínuo de vigilância, inventário e acompanhamento de trilhas costuma produzir registros que não aparecem em áreas mais pressionadas pela ocupação humana.
No caso de Araras, o ambiente montanhoso e a vegetação densa criam um mosaico favorável à manutenção de espécies de ocorrência limitada e de difícil detecção.
O diretor de Biodiversidade, Ecossistemas e Áreas Protegidas do Inea, Cleber Ferreira, afirmou que descobertas desse tipo ajudam a avançar o conhecimento sobre os ecossistemas fluminenses e reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à conservação da Mata Atlântica.
A avaliação segue a linha de que registros científicos não apenas ampliam o inventário da biodiversidade, mas também servem de base para planejamento ambiental, manejo de áreas protegidas e definição de prioridades de conservação.
Na mesma direção, a gestora da reserva, Thallita Muralha, destacou que a unidade tem papel essencial na proteção de espécies raras e na manutenção dos ecossistemas do bioma.
Segundo ela, o monitoramento permanente e as pesquisas desenvolvidas na área vêm permitindo descobertas que ampliam o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e mostram a importância de manter equipes técnicas atuando dentro das unidades de conservação.
A redescoberta da Justicia dasyclados também chama atenção por ocorrer em um momento em que bases públicas de biodiversidade seguem sendo atualizadas a partir de novos registros de campo e revisão de coleções botânicas.
Em situações assim, a confirmação por especialistas e o depósito do material em instituição científica são etapas decisivas para consolidar a ocorrência de uma espécie em determinado território, especialmente quando se trata de um táxon raro e com histórico escasso de coleta.
Além do valor científico, o caso mostra como a produção de conhecimento depende da articulação entre agentes de conservação e centros de pesquisa.
A guarda-parque responsável pela localização estava vinculada a uma universidade, o material foi enviado ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro e a validação contou com colaboração especializada.
Esse fluxo entre campo, acervo e análise taxonômica é o que permite transformar uma observação isolada em informação confiável para a ciência e para a gestão ambiental.
Embora a descoberta tenha sido divulgada como um reencontro após cerca de cem anos, os dados públicos acessíveis não sustentam classificar a espécie como oficialmente extinta.
O que se confirmou foi a ausência prolongada de registros conhecidos no estado e a posterior redescoberta em uma área protegida da serra fluminense.
Ainda assim, o achado tem peso expressivo por revelar que fragmentos bem conservados da Mata Atlântica continuam abrigando espécies raras e pouco documentadas, algumas delas fora do radar das bases públicas até a realização de novos levantamentos.

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