Com taxa de natalidade recorde de baixa, China enfrenta crise demográfica, envelhecimento populacional e impactos da política do filho único.
A China enfrenta uma crise demográfica sem precedentes, marcada pela queda histórica da taxa de natalidade, aumento do envelhecimento populacional e impactos duradouros da política do filho único.
Os dados foram divulgados em janeiro pelo Escritório Nacional de Estatísticas e acenderam um alerta em Pequim.
O fenômeno ocorre em todo o território chinês e reflete mudanças sociais, econômicas e culturais acumuladas nas últimas décadas.
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Em 2025, o país registrou apenas 7,92 milhões de nascimentos.
A taxa caiu para 5,63 nascimentos por mil habitantes, o nível mais baixo desde 1949.
Além disso, as mortes superaram os nascimentos pelo quarto ano consecutivo, reduzindo a população em cerca de 3,4 milhões de pessoas no último ano.
Especialistas das Nações Unidas projetam que a população chinesa poderá encolher pela metade até o fim do século.
O cenário contrasta com previsões feitas há duas décadas, quando se estimava crescimento contínuo até 2033.
Taxa de natalidade em queda e o erro nas projeções
Durante anos, planejadores chineses acreditaram que a baixa taxa de natalidade seria temporária.
A expectativa era que, após o relaxamento das restrições, as famílias voltassem a ter mais filhos.
Um relatório estratégico publicado em 2007 defendia que a natalidade tinha forte “potencial de recuperação”.
Por isso, recomendava cautela na flexibilização das regras, mesmo diante da redução dos nascimentos.
No entanto, a realidade foi diferente.
A liberação para dois filhos, em 2016, e depois para três, em 2021, não provocou o esperado “baby boom”. Pelo contrário, a crise demográfica se aprofundou.
Política do filho único e seus efeitos duradouros
Criada em 1979, durante o governo de Deng Xiaoping, a política do filho único tinha como objetivo conter o crescimento populacional e impulsionar o desenvolvimento econômico.
A medida oferecia incentivos para quem obedecesse às regras e punições para quem descumprisse.
Segundo estimativas oficiais, cerca de 400 milhões de nascimentos teriam sido evitados.
Embora o número seja contestado, é inegável que a política alterou profundamente a estrutura etária do país.
Com o passar do tempo, surgiu outro desafio: o envelhecimento populacional.
Menos jovens passaram a sustentar uma população idosa crescente, pressionando o sistema previdenciário e o mercado de trabalho.
“Declínio constante”: mudança social além da política do filho único
Para o professor Kerry Brown, diretor do Instituto Lau China do King’s College de Londres, o declínio começou antes mesmo da política restritiva.
“A taxa de fertilidade da China vinha caindo por razões naturais desde o início dos anos 1970”, declarou ele à BBC. “O pico do crescimento populacional, em termos de filhos por família, ocorreu nos anos 1950 e 1960.”
Segundo Brown, fatores econômicos pesaram mais que as regras governamentais.
“Acho que o partido pode não ter realmente entendido as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias para criar seus filhos e como é prioritário para elas decidir se conseguirão fazer isso bem ou se não terão filhos.”
Ele acrescenta: “Temos observado essas mudanças em todo o mundo, mas, na China, aconteceu com muita rapidez.”
Desequilíbrio de gênero e a “crise de solteiros”
Outro legado marcante da política do filho único foi o desequilíbrio de gênero.
Durante décadas, muitas famílias priorizaram filhos homens, o que distorceu a proporção entre homens e mulheres.
O resultado foi uma chamada “crise de solteiros”, com milhões de homens enfrentando dificuldades para encontrar parceiras. Brown descreve o fenômeno: “Isso gerou um fenômeno chamado de ‘homens dos galhos vazios’, uma metáfora para designar homens incapazes de encontrar parceiras.”
Ele explica que a expressão remete à ideia de galhos que não dão frutos — ou seja, não geram filhos.
Ao mesmo tempo, mulheres com ensino superior passaram a adiar ou evitar o casamento.
A imprensa estatal chegou a usar o termo pejorativo shèngnǚ, que significa “solteirona”. “É uma expressão muito pejorativa, uma referência a mulheres discriminadas devido à sua idade, que não se casaram porque deram mais importância à carreira do que ao casamento e sua estabilização”, afirma o professor.
Em 2023, 43% das chinesas entre 25 e 29 anos estavam solteiras, o que também contribui para a queda da taxa de natalidade.
Incentivos financeiros não freiam a crise demográfica
Diante da crise demográfica, o governo lançou incentivos financeiros.
Um deles oferece 3,6 mil yuans por ano para cada criança com menos de três anos.
Ainda assim, muitos jovens afirmam que o custo de vida é alto demais.
Creches caras, moradia elevada e pressão profissional dificultam a decisão de ter mais filhos.
Millie, controladora de tráfego aéreo em Pequim, relatou à BBC: “Definitivamente, não terei outro filho. Não é bom para o meu corpo, será difícil conseguir creche e ninguém irá me ajudar.”
Já Li Hongfei, empresário em Chongqing, resume o dilema financeiro: “Meu trabalho vem diminuindo, mas o custo de manutenção da empresa permanece o mesmo. As mensalidades da minha filha estão subindo e minhas economias estão acabando.”
Envelhecimento populacional e impactos globais
Com cerca de um filho por mulher, a China está muito abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1.
Isso acelera o envelhecimento populacional e reduz a força de trabalho.
A consequência vai além das fronteiras chinesas.
A diminuição da população pode afetar cadeias produtivas globais e pressionar preços internacionais.
“Em quase toda a região, a população está caindo e envelhecendo”, explica Brown.
“O fenômeno é mais crítico em locais como o Japão e Taiwan, mas a escala da mudança na China certamente é a maior.”
Ele alerta ainda: “Em relação à assistência social e outras formas de enfrentar o envelhecimento populacional e oferecer assistência aos idosos, a China ainda não atingiu os níveis de riqueza necessários.”
Apesar do cenário desafiador, Brown demonstra cautela. “Eles provavelmente tentarão usar a tecnologia e detêm todo tipo de alavancas políticas para enfrentar estas questões”, afirma.
“Acho que as pessoas costumam ter ideias pessimistas sobre a capacidade da China de fazer as coisas. Mas, no fim, eles acabam encontrando uma solução.”
Assim, a crise demográfica chinesa não é apenas um problema estatístico.
Trata-se de uma transformação estrutural que redefine o futuro do país — e pode redesenhar o equilíbrio econômico global nas próximas décadas.
Veja mais em: China: o ‘baby boom’ que nunca veio e a contínua queda da natalidade no país – BBC News Brasil

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