Estudos confirmam que gigantesca cratera no Piauí foi criada por impacto de meteorito há milhões de anos, colocando o Brasil entre os locais com formações geológicas mais raras e impressionantes do planeta
Uma imensa estrutura geológica localizada no município de São Miguel do Tapuio, no interior do Piauí, acaba de ganhar reconhecimento internacional após cientistas confirmarem oficialmente sua origem extraterrestre. A informação foi publicada em 21 de maio de 2026 no periódico científico The Meteoritical Society, responsável pela revista especializada Meteoritics & Planetary Science. Segundo informações divulgadas pela Universidade Estadual de Campinas, a gigantesca depressão de 21 quilômetros de diâmetro foi causada pelo impacto de um meteorito há milhões de anos.
A descoberta colocou a formação entre as estruturas mais impressionantes já identificadas na América do Sul. Atualmente, ela é considerada a segunda maior cratera de impacto meteorítico do continente, a nona reconhecida oficialmente no Brasil e a 37ª maior do mundo.
O estudo foi liderado pelo professor emérito Álvaro Crósta, do Instituto de Geociências da Unicamp, com participação de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade de São Paulo, além de instituições de Brasília e São Carlos. Os resultados também serão apresentados em agosto de 2026 durante o congresso anual da The Meteoritical Society, em Frankfurt.
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Rochas revelaram marcas que só aparecem após impactos extremos vindos do espaço

REPRODUÇÃO IMAGENS DE SATÉLITE/ UNICAMP
Para comprovar que a cratera realmente surgiu após a colisão de um corpo celeste com a Terra, os pesquisadores analisaram amostras de arenito coletadas na região. O material revelou deformações microscópicas em grãos de quartzo, conhecidas como “feições de choque”.
Essas marcas são consideradas provas definitivas de impacto meteorítico, pois surgem apenas quando as rochas são submetidas a pressões extremamente elevadas, algo impossível de ocorrer em processos geológicos comuns da superfície terrestre.
Além disso, os cientistas utilizaram dados topográficos obtidos pelos satélites TanDEM-X, da Alemanha, e Sentinel-2, da Europa. As análises indicaram que a estrutura pode ter entre 159 milhões e 267 milhões de anos.
As amostras também passaram por estudos microscópicos avançados realizados na Universidade de Viena, reforçando ainda mais a confirmação científica da origem espacial da formação.
Segundo Álvaro Crósta, grandes estruturas circulares podem surgir tanto por processos internos da Terra quanto por colisões vindas do espaço. No entanto, as deformações encontradas nas rochas praticamente eliminam qualquer dúvida sobre o impacto meteorítico.
“Essas feições só se formam em regimes de pressão muito altos e ficam registradas permanentemente nas rochas”, explicou o pesquisador.
Região isolada dificultou pesquisas durante quase cinco décadas
Apesar de ter sido identificada ainda na década de 1980, a confirmação científica da cratera demorou décadas devido às enormes dificuldades de acesso à região.
A estrutura foi inicialmente observada em imagens de radar do Projeto Radambrasil, mas alcançar a parte central da cratera sempre foi um desafio para os pesquisadores.
Localizada cerca de 215 quilômetros a leste de Teresina, a área possui relevo acidentado, vegetação espinhosa típica da Caatinga e praticamente nenhuma infraestrutura de acesso.
Ao longo de quase 50 anos, Crósta liderou três expedições ao local sem conseguir atingir completamente a região central — justamente o ponto onde as evidências do impacto seriam mais fortes.
A situação só mudou em 2017, quando o pesquisador, acompanhado por Marcos Alberto Rodrigues Vasconcelos, da Universidade Federal da Bahia, conseguiu avançar mais profundamente na área com ajuda de um guia local conhecedor do terreno.
Foi nessa expedição que as amostras decisivas de arenito foram coletadas.
Cratera do Piauí entra para lista das maiores estruturas de impacto do planeta
Atualmente, cientistas conhecem cerca de 200 crateras de impacto meteorítico espalhadas pelo mundo. No Brasil, a maior delas continua sendo o Domo do Araguainha, localizado entre Mato Grosso e Goiás, com aproximadamente 40 quilômetros de diâmetro.
Especialistas acreditam que o Domo do Araguainha tenha sido criado após o impacto de um asteroide de cerca de 4 quilômetros de diâmetro há aproximadamente 250 milhões de anos.
Agora, a confirmação da estrutura de São Miguel do Tapuio reforça a importância geológica do território brasileiro e amplia o interesse científico internacional sobre o semiárido nordestino.
Além do valor acadêmico, a descoberta também pode impulsionar o turismo científico e geológico na região, atraindo pesquisadores, estudantes e curiosos interessados em fenômenos raros ligados à história do planeta e do universo.

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