Rota dos Sertões terá 502 km sob concessão, 108 km de duplicações e R$ 8,5 bilhões entre obras, operação e manutenção por 30 anos.
Um corredor rodoviário de 502 quilômetros entre Feira de Santana, na Bahia, e Salgueiro, em Pernambuco, entrou em uma nova etapa em 29 de setembro de 2026, quando foi assinado o contrato de concessão da chamada Rota dos Sertões. O sistema reúne trechos das BR-116/BA, BR-116/PE e BR-324/BA e terá contrato de 30 anos, com aproximadamente R$ 4,3 bilhões em investimentos de capital e R$ 4,4 bilhões em custos previstos de operação, totalizando cerca de R$ 8,5 bilhões ao longo do período.
A transformação física prevista é extensa. O programa contratual inclui 108,2 quilômetros de duplicações, 44,52 quilômetros de vias marginais, 107,06 quilômetros de acostamentos, 5,16 quilômetros de faixas adicionais, 12 passarelas para pedestres e 24 paradas de ônibus. Também está previsto um novo contorno rodoviário em Serrinha, na Bahia, retirando parte do tráfego de longa distância da travessia urbana.
A Rota dos Sertões começa em Feira de Santana e chega até Salgueiro
Os 502 quilômetros concedidos formam uma sequência rodoviária que começa na região de Feira de Santana, um dos principais entroncamentos do interior baiano, e segue pela BR-116 em direção ao norte até alcançar Salgueiro, no sertão pernambucano.
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Do total, aproximadamente 429 quilômetros ficam na Bahia, outros 66 quilômetros pertencem à BR-116 em Pernambuco e cerca de 7,2 quilômetros correspondem à BR-324 no anel de Feira de Santana.

Pelo caminho, a rodovia atravessa municípios como Serrinha, Tucano, Euclides da Cunha e áreas do sertão baiano antes de chegar à divisa com Pernambuco.
Em Salgueiro, o corredor encontra outras rotas rodoviárias importantes, criando conexões com fluxos que seguem para diferentes partes do Nordeste.
É justamente essa sequência que dá à BR-116 uma função logística que vai muito além dos deslocamentos locais.
Caminhões dividem a estrada com tráfego urbano em vários trechos
A BR-116 recebe caminhões de longa distância, ônibus, carros e veículos que realizam deslocamentos entre cidades vizinhas. Em algumas áreas, esse tráfego atravessa perímetros urbanos.
O resultado é uma mistura de movimentos muito diferentes dentro da mesma rodovia. Um caminhão carregado que cruza vários estados pode dividir espaço com motocicletas, pedestres, veículos locais e ônibus que entram e saem constantemente da pista.
Parte das obras previstas tenta separar essas funções. Vias marginais, novos acessos, dispositivos de retorno e passarelas são usados para organizar deslocamentos locais sem obrigar todo o fluxo a permanecer na pista principal.
Mais de 108 quilômetros deverão receber duplicação
A intervenção de maior escala será a duplicação de 108,2 quilômetros do corredor.
Duplicar significa criar uma segunda pista, separando os sentidos de circulação.
Em uma rodovia simples, veículos que seguem em direções opostas ficam separados apenas pela sinalização central. Ultrapassagens também dependem da utilização temporária da faixa contrária.
Com pistas separadas, cada sentido passa a operar de maneira independente.
Para o transporte de cargas, isso também reduz parte dos conflitos provocados por diferenças de velocidade entre caminhões pesados e veículos leves. O número final do projeto publicado pela ANTT é de 108,2 quilômetros de duplicação.
Outros 107 quilômetros ganharão acostamentos
Nem todo o trecho será transformado em pista dupla. Em diversos pontos, a concessão prevê a implantação ou adequação de 107,06 quilômetros de acostamentos.
O acostamento cria uma faixa lateral que pode receber veículos em situações de pane ou emergência e também acrescenta uma área de segurança fora da faixa principal de circulação.
Em corredores utilizados por caminhões, esse espaço é especialmente relevante quando veículos pesados precisam parar por problemas mecânicos.
Sem acostamento adequado, uma carreta parada pode ocupar parcialmente a faixa de tráfego e reduzir a capacidade da rodovia.
O programa também prevê 5,16 quilômetros de faixas adicionais, usadas principalmente em locais onde a diferença de velocidade entre veículos tende a gerar retenções.
Mais de 44 quilômetros de vias marginais vão separar parte do tráfego local
Outra intervenção pouco visível no número total, mas importante na operação diária, será a implantação de 44,52 quilômetros de vias marginais.
Essas pistas ficam ao lado da rodovia principal. Elas servem para absorver veículos que precisam acessar bairros, comércios, empresas, postos de combustível e propriedades próximas, evitando que todas essas entradas e saídas aconteçam diretamente nas faixas usadas pelo tráfego de longa distância.
A separação tende a ser especialmente relevante nas travessias urbanas. Em vez de um motorista entrar na BR-116 para percorrer apenas alguns quilômetros dentro de uma cidade, parte desse deslocamento pode ser realizada pelas marginais.
O projeto prevê ainda novos dispositivos de interseção, retornos e adequações de acessos ao longo do corredor.
Serrinha terá um novo contorno rodoviário
Uma das obras específicas previstas é o contorno de Serrinha, na Bahia. Hoje, o fluxo regional e de longa distância precisa interagir com áreas urbanizadas da cidade.
O novo traçado permitirá que parte desses veículos contorne o município sem atravessar diretamente a região mais ocupada.
A solução é comum em corredores logísticos que cresceram junto com as cidades. Quando uma rodovia originalmente construída nos arredores passa a ser cercada pela expansão urbana, cruzamentos, acessos e movimentos locais começam a interferir no tráfego de longa distância.
Criar um contorno significa deslocar os caminhões e parte dos veículos que não têm Serrinha como destino para uma rota externa.
Doze passarelas serão construídas sobre a rodovia
A convivência entre rodovia e áreas urbanizadas aparece também no número de travessias para pedestres.
A ANTT registra a previsão de 12 novas passarelas, além de 24 paradas de ônibus ao longo da concessão.
As estruturas permitem que pedestres atravessem as pistas sem entrar diretamente na área de circulação dos veículos.
Isso se torna mais relevante quando trechos recebem duplicação, porque a largura total que precisa ser atravessada aumenta.
As novas paradas de ônibus também fazem parte da reorganização das travessias urbanas, criando pontos definidos para embarque e desembarque fora das faixas principais.
Contrato terá duração de 30 anos
A concessão foi estruturada para 30 anos. Nesse período, a concessionária ficará responsável não apenas pelas grandes obras iniciais, mas também pela recuperação, conservação, manutenção, monitoramento e operação diária dos 502 quilômetros.

Isso envolve pavimento, sinalização, drenagem, vegetação da faixa de domínio, estruturas, atendimento aos usuários e sistemas de controle.
Por esse motivo, o valor total associado ao projeto não deve ser confundido apenas com dinheiro destinado a construir novas pistas.
A ficha oficial da ANTT separa aproximadamente R$ 4,3 bilhões em Capex, os investimentos em infraestrutura, de R$ 4,4 bilhões em Opex, as despesas previstas para manter e operar o sistema durante a concessão.
Somados, os dois componentes ficam próximos dos R$ 8,5 bilhões divulgados no momento da assinatura.
Consórcio venceu leilão com desconto de 19,60% na tarifa básica
A concessão foi leiloada em 28 de maio de 2026, na B3, em São Paulo. O vencedor foi o Consórcio 116 Sertões, posteriormente estruturado como Concessionária 116 Sertões S.A.
A proposta apresentou desconto de 19,60% sobre a tarifa básica de pedágio prevista no edital. O resultado foi homologado pela ANTT em julho e, depois da análise das garantias e demais documentos exigidos, a agência autorizou a assinatura do contrato no fim de setembro. O contrato foi efetivamente assinado em Brasília no dia 29 de setembro.
Free Flow está previsto na operação da rodovia
A nova concessão também prevê utilização de Free Flow, sistema eletrônico que identifica veículos sem exigir a parada em uma praça física tradicional.
Nesse modelo, equipamentos instalados sobre a pista identificam placas ou tags eletrônicas enquanto o veículo continua em movimento. A ANTT confirmou a previsão dessa tecnologia no projeto durante a assinatura do contrato.
A forma de cobrança, localização dos pontos e demais regras devem seguir o contrato e a regulamentação aplicável à concessão.
Para veículos de carga que percorrem longas distâncias, eliminar paradas físicas sucessivas altera a dinâmica do percurso, principalmente em trechos com grande circulação.
Dez bases de atendimento estão previstas para os usuários
Além das obras físicas, a modelagem divulgada pela ANTT prevê 10 bases de Serviço de Atendimento ao Usuário, conhecidas como SAUs.
Essas unidades são utilizadas para apoiar a operação da rodovia e responder a ocorrências. A concessão também estabelece obrigações relacionadas ao monitoramento do tráfego e atendimento ao usuário.
Na prática, uma rodovia concedida passa a funcionar como um sistema permanentemente operado, em vez de receber apenas intervenções periódicas de conservação.
Acidentes, veículos quebrados, objetos na pista ou problemas de infraestrutura precisam entrar em uma cadeia de detecção e resposta.
Feira de Santana funciona como porta de entrada para diferentes corredores
Na extremidade baiana, a rota chega a Feira de Santana, ponto onde diferentes rodovias se encontram.
A localização coloca o corredor perto dos fluxos que seguem em direção a Salvador, Recôncavo Baiano e outras áreas do estado. Ao norte, a BR-116 avança pelo sertão e chega a Pernambuco.
O próprio BNDES descreve o trecho como parte de um eixo de integração rodoviária entre o Nordeste e o Sudeste, o que ajuda a explicar a presença de transporte de longa distância na estrada.
A rodovia também atende cargas produzidas dentro da própria região, além de mercadorias que apenas atravessam o corredor em direção a outros destinos.
Salgueiro conecta a rota a outros caminhos do Nordeste
Na outra extremidade está Salgueiro.
A cidade pernambucana ocupa uma posição logística particular porque diferentes corredores de transporte passam pela região.
A BR-116 encontra ligações que permitem seguir em direção a outros estados nordestinos, enquanto o município também está associado à malha ferroviária da Transnordestina.
Isso significa que a Rota dos Sertões não funciona isoladamente. Ela é uma peça dentro de uma rede de rodovias, ferrovias, centros de distribuição e portos que movimenta cargas entre o interior e o litoral.
A melhoria de um trecho pode alterar tempos de viagem e rotas escolhidas pelas transportadoras, mas o efeito final depende também das condições dos demais corredores conectados a ele.
Obras deverão ocorrer ao longo de vários anos
A assinatura do contrato não significa que os 108 quilômetros de duplicação aparecerão imediatamente. Projetos dessa escala são divididos em fases.
A concessionária precisa assumir a operação, executar levantamentos, projetos de engenharia e intervenções iniciais, além de cumprir o cronograma de ampliação de capacidade definido contratualmente.
A ANTT informa que os prazos de cada conjunto de obras estão previstos nos anexos do contrato e deverão ser acompanhados pela agência reguladora.
Isso também significa que diferentes partes dos 502 quilômetros poderão estar em fases distintas de execução ao mesmo tempo.
Enquanto um trecho recebe recuperação de pavimento, outro poderá estar em obras de duplicação e um terceiro em implantação de marginais ou dispositivos de acesso.
Rota dos Sertões entra agora na fase de execução do contrato
A sequência iniciada com estudos e audiência pública passou pelo edital, pelo leilão de maio, homologação do resultado em julho e análise documental durante os meses seguintes.
Em 28 de setembro, a Diretoria da ANTT autorizou formalmente a assinatura depois de considerar atendidas as exigências do edital. No dia seguinte, o contrato foi assinado.
A partir dessa etapa, os 502 quilômetros das BR-116 e BR-324 passam para um ciclo contratual de 30 anos que combina operação permanente com um programa amplo de ampliação da infraestrutura.
Se o cronograma previsto for executado, o corredor terá mais de 108 quilômetros duplicados, 44 quilômetros de marginais, 107 quilômetros de acostamentos, um novo contorno em Serrinha e dezenas de novas estruturas de acesso e travessia.
Para uma rota utilizada diariamente por caminhões, ônibus, carros e tráfego urbano, a dimensão da transformação estará menos em uma única grande obra e mais na soma de intervenções distribuídas por mais de 500 quilômetros entre Bahia e Pernambuco.

