Pesquisadores descobriram que nanoplaquetas extraídas de cenoura e beterraba podem reforçar concreto, reduzir cimento e superar aditivos avançados.
Em 2018, pesquisadores da Lancaster University, no Reino Unido, apresentaram uma descoberta que parecia improvável até mesmo para especialistas em materiais de construção. Utilizando nanoplaquetas extraídas de fibras vegetais presentes em cenouras e beterrabas, a equipe demonstrou que resíduos agrícolas poderiam aumentar significativamente o desempenho do concreto e, ao mesmo tempo, reduzir a quantidade de cimento necessária nas obras.
A pesquisa chamou atenção porque desafia uma das tendências mais caras da engenharia moderna. Enquanto boa parte da indústria busca reforçar concretos com materiais avançados como grafeno, nanotubos de carbono e nanofibras sintéticas, os cientistas britânicos descobriram que estruturas microscópicas derivadas de vegetais comuns podem gerar resultados comparáveis ou até superiores em determinadas aplicações, utilizando uma matéria-prima abundante e de baixo custo.
Como cenouras e beterrabas entraram na engenharia do concreto
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Lancaster University em parceria com a empresa CelluComp, especializada em nanomateriais derivados de fibras vegetais. A equipe utilizou nanoplaquetas extraídas de resíduos de cenoura e de beterraba açucareira para serem incorporadas às misturas cimentícias durante a produção do concreto.
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Essas nanoplaquetas possuem dimensões extremamente pequenas e apresentam elevada área superficial. Quando dispersas na mistura, elas influenciam o processo de hidratação do cimento, ajudando a organizar a microestrutura interna do material. O resultado é um concreto mais denso e com menor quantidade de vazios microscópicos.

Segundo os pesquisadores, o comportamento observado é diferente da simples adição de fibras convencionais.
As nanoplaquetas atuam em escala nanométrica, interferindo diretamente nas reações químicas responsáveis pela formação da matriz cimentícia. Isso permite melhorar propriedades mecânicas sem aumentar significativamente o peso ou o volume da mistura.
Por que o cimento se tornou um dos maiores desafios ambientais da construção civil
O cimento é o principal componente do concreto moderno e também uma das maiores fontes industriais de emissões de dióxido de carbono.
A produção do clínquer, material básico utilizado na fabricação do cimento Portland, exige altas temperaturas e grande consumo energético. Por isso, qualquer tecnologia capaz de reduzir o uso de cimento desperta enorme interesse da indústria global da construção.
Foi justamente nesse ponto que a pesquisa britânica chamou atenção. De acordo com a Lancaster University, a utilização das nanoplaquetas vegetais permitiu manter ou melhorar o desempenho do concreto utilizando menos cimento na mistura.
Os pesquisadores estimaram uma economia de aproximadamente 40 quilogramas de cimento Portland por metro cúbico de concreto em determinadas formulações.
Embora pareça um valor pequeno em uma obra isolada, a redução ganha outra dimensão quando aplicada em larga escala. Pontes, edifícios, túneis, barragens e grandes estruturas consomem milhares de metros cúbicos de concreto, o que poderia representar uma redução significativa no consumo de cimento e nas emissões associadas à construção.
Nanoplaquetas vegetais superaram materiais considerados mais avançados
Um dos aspectos mais surpreendentes do estudo foi a comparação com outros aditivos modernos utilizados na engenharia de materiais. Segundo os pesquisadores, as nanoplaquetas derivadas de cenoura e beterraba apresentaram desempenho superior ao observado em diversos aditivos nanométricos testados anteriormente, incluindo alguns materiais de alto custo frequentemente associados à nanotecnologia avançada.

A vantagem não está apenas na resistência obtida. Como a matéria-prima é proveniente de resíduos agrícolas, o custo potencial de produção pode ser significativamente menor do que o de materiais como grafeno e nanotubos de carbono, cuja fabricação envolve processos industriais muito mais complexos.
Outro benefício apontado pela equipe é o aproveitamento de resíduos que normalmente teriam baixo valor econômico. Em vez de serem descartados, esses materiais podem ser transformados em componentes de alto valor agregado para a indústria da construção.
O que essa tecnologia pode significar para o futuro das obras
A utilização de materiais vegetais em concretos estruturais ainda depende de etapas adicionais de desenvolvimento e validação industrial.
Entretanto, os resultados obtidos pela equipe britânica demonstraram que resíduos agrícolas podem desempenhar um papel relevante na próxima geração de materiais de construção de baixo carbono.
A busca por concretos mais sustentáveis tornou-se uma prioridade global à medida que governos, construtoras e fabricantes tentam reduzir a pegada ambiental da infraestrutura moderna. Tecnologias capazes de diminuir o consumo de cimento sem comprometer resistência e durabilidade são vistas como uma das rotas mais promissoras para atingir esse objetivo.
Se os resultados laboratoriais continuarem sendo confirmados em aplicações de maior escala, materiais aparentemente simples como cenouras e beterrabas poderão ocupar um espaço inesperado na engenharia do século XXI.
O que hoje parece uma curiosidade científica pode acabar ajudando a construir pontes, edifícios e obras de infraestrutura com menor impacto ambiental e maior eficiência estrutural.

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