Com mais de 50 milhões de apartamentos vazios, cidades como Ordos e Tianjin revelam como a superconstrução criou bairros inteiros quase sem moradores na China.
A estimativa de mais de 50 milhões de apartamentos vazios na China não surge de especulação ou suposição informal. Ela aparece de forma recorrente em análises de veículos como Bloomberg, The Economist, Reuters e em estudos baseados na China Household Finance Survey (CHFS), uma das maiores pesquisas domiciliares independentes do país. Esses números também são corroborados por avaliações de bancos internacionais, como o Nomura e o Goldman Sachs, que analisam estoques imobiliários, taxas de ocupação urbana e dados censitários chineses.
Na prática, isso significa que a China possui hoje um volume de habitações prontas, conectadas a redes de energia, água, transporte e serviços públicos, suficiente para abrigar populações inteiras de países médios, mas que permanecem parcial ou totalmente desocupadas. Esse fenômeno não está restrito a uma única cidade ou região isolada: ele se repete em dezenas de novos distritos urbanos construídos ao longo das últimas duas décadas.
O que realmente define uma “cidade fantasma” na China
Ao contrário do imaginário popular, cidades fantasmas chinesas não são ruínas abandonadas ou vilas desertas. São áreas urbanas modernas, muitas vezes com arquitetura futurista, largas avenidas, parques, hospitais, escolas e estações ferroviárias de alta velocidade. O que as diferencia é a discrepância entre a capacidade planejada e a população efetivamente residente.
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Em muitos desses distritos, a taxa de ocupação inicial ficou abaixo de 20% a 30% da capacidade projetada, segundo reportagens da BBC, Reuters e Financial Times. Isso gera paisagens urbanas visualmente impactantes: prédios residenciais quase vazios, comércio subutilizado e transporte público operando muito abaixo do volume esperado.
Kangbashi, em Ordos: a cidade símbolo do excesso
Kangbashi, distrito de Ordos, na Mongólia Interior, tornou-se o exemplo mais citado desse fenômeno. Concebida no auge do boom do carvão e das commodities, a cidade foi projetada para abrigar até 1 milhão de pessoas, com teatros monumentais, museus, prédios administrativos e vastos conjuntos residenciais.
No início da década de 2010, quando a cidade passou a ser retratada pela mídia internacional, estimativas indicavam uma população real inferior a 100 mil habitantes, ocupando apenas uma fração mínima da infraestrutura existente. Fotografias de avenidas vazias e edifícios residenciais com poucas luzes acesas rodaram o mundo.
Embora Kangbashi tenha crescido nos anos seguintes — hoje abriga algumas centenas de milhares de moradores — o ritmo de ocupação jamais acompanhou o planejamento original, mantendo o distrito como símbolo do descompasso entre investimento urbano e demanda populacional real.
Yujiapu, em Tianjin: o “Manhattan que não aconteceu”
Outro caso emblemático é Yujiapu, distrito financeiro construído em Tianjin com o objetivo explícito de se tornar um polo global de serviços financeiros. Inspirado em Manhattan, o projeto previa arranha-céus corporativos, sedes bancárias e bairros residenciais de alto padrão.
A infraestrutura foi entregue rapidamente, mas a demanda por escritórios e residências não acompanhou a oferta. Relatórios da Reuters e do Wall Street Journal mostraram edifícios corporativos praticamente vazios por anos, mesmo em uma das regiões economicamente mais dinâmicas do país.
Yujiapu tornou-se um exemplo clássico de planejamento urbano baseado em expectativas financeiras, e não em fluxos reais de população e emprego.
Guiyang e os novos distritos do interior
Fenômenos semelhantes ocorreram em cidades do interior, como Guiyang, capital da província de Guizhou. Nos últimos 15 anos, a cidade expandiu agressivamente seus limites urbanos, criando novos distritos com dezenas de milhares de apartamentos, avenidas modernas e prédios públicos monumentais.
Apesar de Guiyang ter crescido demograficamente, a velocidade da construção superou a capacidade de absorção populacional. Como resultado, bairros inteiros permaneceram subocupados por longos períodos, reforçando a estatística nacional de milhões de unidades residenciais vazias.
De onde veio tanto investimento
O fenômeno das cidades fantasmas está diretamente ligado a três pilares centrais do modelo econômico chinês nas últimas décadas.
O primeiro é a urbanização acelerada. Entre 2000 e 2020, mais de 400 milhões de chineses migraram do campo para áreas urbanas, um movimento sem precedentes históricos. Para absorver essa migração, governos locais apostaram em construção em larga escala.
O segundo pilar foi o papel do setor imobiliário como motor de crescimento. Durante anos, imóveis representaram entre 25% e 30% do PIB chinês, direta ou indiretamente. Construir cidades inteiras tornou-se uma forma de gerar emprego, arrecadação e crescimento econômico.
O terceiro fator foi o financiamento baseado em dívida e venda de terrenos. Governos locais dependiam fortemente da venda de terras para incorporadoras como fonte de receita, incentivando projetos cada vez maiores, mesmo quando a demanda real não estava garantida.
O significado real dos “50 milhões de apartamentos vazios”
O número frequentemente citado de mais de 50 milhões de unidades vazias não significa que todas estejam abandonadas ou em completo desuso. Ele representa o estoque excedente em relação à demanda efetiva, segundo análises do CHFS, da Bloomberg e de bancos internacionais.
Parte dessas unidades está em regiões onde a ocupação ocorre lentamente, outras são mantidas como ativos de investimento, e algumas pertencem a famílias que já possuem mais de um imóvel. Ainda assim, o volume é suficientemente grande para indicar um desequilíbrio estrutural no mercado imobiliário.
Manter cidades subocupadas gera custos reais. Infraestrutura urbana exige manutenção constante, independentemente do número de moradores. Sistemas de água, esgoto, iluminação, transporte e segurança precisam funcionar, pressionando orçamentos municipais.
Além disso, o excesso de imóveis contribuiu para a crise imobiliária chinesa, que se tornou evidente a partir de 2021, com dificuldades financeiras de grandes incorporadoras e retração do mercado.
Um fenômeno em transformação, não estático
Importante ressaltar que muitas dessas cidades não permaneceram vazias para sempre. Em alguns casos, a ocupação aumentou com o tempo, impulsionada por novas políticas públicas, realocação de indústrias e expansão de linhas ferroviárias.
Mesmo assim, o legado das cidades fantasmas permanece como um dos maiores experimentos urbanos da história humana, tanto em escala quanto em impacto econômico.
O que a experiência chinesa ensina ao mundo
O caso das cidades fantasmas da China serve como alerta global. Ele mostra que:
- planejamento urbano em larga escala precisa estar alinhado à demografia real,
- crescimento econômico baseado exclusivamente em construção tem limites claros,
- infraestrutura sem pessoas gera custos elevados e retorno incerto.
Mais do que curiosidade, trata-se de uma lição concreta sobre os riscos de superplanejamento desconectado da realidade social e econômica.
A pergunta que permanece é direta: quantas dessas cidades serão plenamente ocupadas e quantas permanecerão como monumentos de concreto a uma era de crescimento acelerado demais para a própria população?


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