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Com bico cheio de “dentes” de osso e envergadura de cerca de 6,4 metros, a Pelagornis sandersi entrou para a história como uma das maiores aves voadoras já registradas

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 27/12/2025 às 14:56
Atualizado em 27/12/2025 às 17:26
Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência.
Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência.
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Envergadura estimada em 6,4 metros e bico com “pseudodentes” tornam a Pelagornis sandersi uma das aves extintas mais impressionantes já descritas, com fósseis nos Estados Unidos e estudo publicado em 2014 apontando limites raros de voo planado.

Uma ave marinha extinta, com envergadura estimada em cerca de 6,4 metros e um bico marcado por estruturas ósseas que parecem dentes, passou a figurar entre os maiores voadores já descritos pela ciência.

Trata-se da Pelagornis sandersi, espécie identificada a partir de fósseis encontrados na região costeira de Charleston, no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, e descrita em estudo publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, conhecida pela sigla PNAS.

A dimensão atribuída à espécie a coloca em um patamar que ultrapassa, com folga, o tamanho das maiores aves voadoras atuais, como grandes albatrozes.

Envergadura da Pelagornis sandersi e o que o estudo aponta

Os dados mais citados na literatura de divulgação vêm do que os pesquisadores classificaram como uma estimativa conservadora de envergadura, em torno de 6,4 metros.

No mesmo trabalho, os autores relatam que a espécie é representada por um crânio e material pós-craniano substancial, o que permitiu testar, com modelagens, quais perfis de voo seriam compatíveis com um animal desse porte.

( Superior ) Reconstrução de P. sandersi (elementos preservados no holótipo são mostrados em branco) com D. exulans (albatroz-real; envergadura média de 3 m) para comparação de escala. ( Inferior ) Crânio do holótipo de P. sandersi (ChM PV4768) em (a) vista dorsal, (b) vista ventral, (c) vista lateral esquerda (mandíbula em vista medial) e (d) vista lateral direita (mandíbula em vista lateral). Úmero direito em (e) vista caudal e (f) vista cranial. Escápula em (g) vista lateral e (h) vista medial. (i) Fúrcula parcial do fêmur em (j) vista cranial e (k) vista caudal. Tíbiotarso em (l) vista cranial e (m) vista caudal. Fíbula em (n) vista lateral. Tarsometatarso em (o) vista dorsal (porção distal exposta na vista medial devido à deformação) e (p) rotacionado para mostrar a porção distal em vista dorsal. (q) Falange do pé. cc, Crista cnemial lateral; fac, fossa aditus canalis neurovascularis; fc, faceta; haf, faceta articular umeral; ie, eminência intercotilar; j, jugal; lf, sulco lateral; mtII, tróclea metatarsal II; nfh, dobradiça nasofrontal; pf, forame pneumático; pp, processo paroccipital; sf, fossa subcondilar; sup, supra-angular; sw, inchaço na crista deltopeitoral; syn, articulação sinovial; tb, tubérculo; trf, sulco transverso.
Superior ) Reconstrução de P. sandersi (elementos preservados no holótipo são mostrados em branco) com D. exulans (albatroz-real; envergadura média de 3 m) para comparação de escala. ( Inferior ) Crânio do holótipo de P. sandersi (ChM PV4768) em (a) vista dorsal, (b) vista ventral, (c) vista lateral esquerda (mandíbula em vista medial) e (d) vista lateral direita (mandíbula em vista lateral). Úmero direito em (e) vista caudal e (f) vista cranial. Escápula em (g) vista lateral e (h) vista medial. (i) Fúrcula parcial do fêmur em (j) vista cranial e (k) vista caudal. Tíbiotarso em (l) vista cranial e (m) vista caudal. Fíbula em (n) vista lateral. Tarsometatarso em (o) vista dorsal (porção distal exposta na vista medial devido à deformação) e (p) rotacionado para mostrar a porção distal em vista dorsal. (q) Falange do pé. cc, Crista cnemial lateral; fac, fossa aditus canalis neurovascularis; fc, faceta; haf, faceta articular umeral; ie, eminência intercotilar; j, jugal; lf, sulco lateral; mtII, tróclea metatarsal II; nfh, dobradiça nasofrontal; pf, forame pneumático; pp, processo paroccipital; sf, fossa subcondilar; sup, supra-angular; sw, inchaço na crista deltopeitoral; syn, articulação sinovial; tb, tubérculo; trf, sulco transverso.

O artigo também destaca que, ao menos nesses cálculos, a Pelagornis sandersi excede limites teóricos propostos anteriormente para aves planadoras modernas, o que reforçou o interesse em entender como um animal assim se mantinha no ar.

Fósseis em Charleston e o caminho até a descrição científica

A história do fóssil passa por um detalhe incomum: os ossos que sustentariam a descrição formal da espécie foram encontrados décadas antes da publicação científica.

Relatos sobre a descoberta apontam que o material foi recuperado em 1983, durante escavações associadas a obras nas proximidades do aeroporto de Charleston.

O conjunto teria permanecido sob guarda institucional por anos até receber análise detalhada, período em que diferentes especialistas tiveram contato com as peças antes da descrição formal.

“Pseudodentes” no bico e por que a ave não tinha dentes verdadeiros

O “sorriso” da Pelagornis sandersi, frequentemente destacado em reconstruções, não corresponde a dentes verdadeiros como os de mamíferos.

O grupo ao qual a espécie pertence é conhecido como Pelagornithidae, frequentemente chamado de aves “pseudo-dentadas” ou “de dentes falsos”.

Nesse caso, as projeções ao longo do bico são extensões ósseas do próprio maxilar e da mandíbula, com aparência de dentes e função associada à captura e retenção de presas escorregadias no ambiente marinho.

Essa diferença é relevante porque, segundo descrições de museus e materiais explicativos, a perda de uma dessas estruturas equivaleria a quebrar uma parte do osso do bico, e não a soltar um dente substituível.

Voo planado, desempenho aerodinâmico e limites do tamanho

Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência. (Arte/ Alisson Ficher)
Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência. (Arte/ Alisson Ficher)

O estudo que descreveu a espécie explorou justamente um ponto sensível na biologia do voo: como conciliar tamanho extremo com desempenho aerodinâmico.

A pesquisa analisou parâmetros que, em aves atuais, ajudam a prever eficiência de planagem e gasto energético, como proporções da asa e estimativas de massa corporal.

A própria publicação registra que os resultados modelados indicam razões de sustentação e arrasto e desempenho de planagem próximos do limite superior observado em aves vivas, sugerindo alta eficiência para deslocamentos longos, com uso intenso de voo planado.

Em termos práticos, isso reforça a ideia de um animal adaptado a percorrer grandes distâncias sobre o oceano com economia de energia, padrão que se aproxima do que se observa em grandes aves marinhas modernas, ainda que em escalas menores.

Comparação com albatrozes e o impacto do “número impossível”

A comparação com espécies atuais é um dos elementos que tornam o caso mais compreensível para o público leigo.

Grandes albatrozes são frequentemente usados como referência por serem especialistas em planar e por apresentarem envergaduras de alguns metros, mas, no caso da Pelagornis sandersi, a estimativa de cerca de 6,4 metros coloca a espécie em uma faixa aproximadamente duas vezes superior às maiores envergaduras normalmente citadas para aves vivas.

Em reconstruções populares, essa diferença costuma ser mostrada com silhuetas lado a lado, recurso visual que ajuda a dimensionar o impacto do achado.

Pelagornithidae no registro paleontológico e o período Oligoceno

O registro paleontológico do grupo Pelagornithidae não se restringe a um local específico, e pesquisadores já documentaram representantes em diferentes regiões do planeta e em intervalos amplos do tempo geológico.

No caso particular da Pelagornis sandersi, o trabalho científico a classifica no Oligoceno, período que abrange dezenas de milhões de anos atrás e coincide com a idade aproximada de 25 milhões de anos frequentemente associada ao achado em materiais de divulgação.

( A ) Polares de planeio e ( B ) razões de sustentação:arrasto para P. sandersi modeladas no Flight 1.25 (2). Resultados de 24 análises usando diferentes combinações de estimativas de massa (21,9–40,1 kg), envergadura (6,06–7,38 m) e razão de aspecto (13,0–15,0) em azul; valores modelados para uma fragata ( Fregata magnificens ; vermelho), albatroz ( Diomedea chrysostoma ; preto) e abutre ( Coragyps atratus ; verde) do banco de dados Wings no Flight 1.25 são mostrados para comparação. As análises individuais são apresentadas emApêndice SI.
A ) Polares de planeio e ( B ) razões de sustentação:arrasto para P. sandersi modeladas no Flight 1.25 (2). Resultados de 24 análises usando diferentes combinações de estimativas de massa (21,9–40,1 kg), envergadura (6,06–7,38 m) e razão de aspecto (13,0–15,0) em azul; valores modelados para uma fragata ( Fregata magnificens ; vermelho), albatroz ( Diomedea chrysostoma ; preto) e abutre ( Coragyps atratus ; verde) do banco de dados Wings no Flight 1.25 são mostrados para comparação. As análises individuais são apresentadas emApêndice SI.

Ao contextualizar a idade do fóssil, a literatura também ressalta que esses grandes planadores coexistiram com oceanos e climas diferentes dos atuais, o que influencia o tipo de ambiente em que poderiam se alimentar e voar.

Ossos ocos, resistência e o desafio de estimar massa e proporções

Além do tamanho, a anatomia dos ossos é parte do motivo pelo qual a espécie ganhou destaque.

Em aves voadoras, ossos ocos e estruturas internas que combinam leveza e resistência são características esperadas, e museus que exibem ou discutem o espécime costumam enfatizar a fragilidade relativa dessas peças em comparação com ossos sólidos de animais terrestres.

Para a pesquisa científica, isso se conecta a um desafio prático: cada elemento preservado precisa ser interpretado com cuidado para sustentar estimativas de massa e de proporções corporais, já que pequenas variações nesses números podem alterar o resultado das simulações de voo.

O que ainda falta esclarecer sobre a Pelagornis sandersi

As próprias fontes institucionais associadas ao material deixam claro que ainda existem lacunas sobre a biologia da espécie.

Há descrições apontando que a pesquisa sobre Pelagornis sandersi continua, em parte porque novos fósseis de pelagornitídeos podem exigir revisões sobre relações evolutivas internas do grupo e também porque a compreensão do esqueleto além do crânio, incluindo detalhes obtidos por técnicas como tomografia, pode refinar o que se sabe sobre locomoção e adaptações.

Esse ponto é importante para separar o que é conhecido do que permanece em investigação: a existência, a idade aproximada, a presença de “pseudodentes” e a envergadura estimada são informações divulgadas em trabalhos e instituições, mas detalhes finos de comportamento e ecologia, quando não aparecem explicitamente nas fontes, não podem ser apresentados como fatos.

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Eduardo Kanan Marques
Eduardo Kanan Marques
28/12/2025 09:59

Além do erro no gráfico do pelagornis, o do albatrós também não bate. Pelo gráfico a envergadura dele seria de cerca de 2,4m.

Mauro Carriço
Mauro Carriço
27/12/2025 21:05

A envergadura real do gráfico é muito maior do que os 6,4m. Ela chega aos 8m. A conta não está fechando

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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