Com mutação rara no gene FAAH-OUT, mulher de 65 anos vive sem dor, não sente ansiedade e cicatriza rápido, em descoberta inédita da University College London.
Em 2019, pesquisadores da University College London (UCL) e da University of Oxford revelaram um dos achados mais intrigantes da genética moderna: o caso de Jo Cameron, uma mulher escocesa que viveu mais de 65 anos sem sentir dor física ou emocional, sem ansiedade, sem medo e com capacidade de cicatrização acelerada, graças a uma mutação inédita no gene FAAH-OUT.
A descoberta, publicada no British Journal of Anaesthesia e repercutida por veículos como BBC, The Guardian e National Geographic, abriu um novo capítulo na ciência da dor ao demonstrar que uma pequena alteração em um gene pouco estudado pode reescrever completamente o modo como o cérebro interpreta sofrimento, estresse e perigo.
A vida inteira sem perceber que era diferente
Jo Cameron passou a infância e a vida adulta acreditando que “sentir pouca dor” era algo comum. Ela só buscou ajuda médica aos 65 anos, quando percebeu que:
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- não sentia dor mesmo após cirurgias;
- nunca havia usado analgésicos;
- queimaduras, cortes e fraturas não causavam desconforto;
- raramente sentia medo ou preocupação;
- nunca experimentou ansiedade;
- sua pele cicatrizava mais rápido que o normal.
O alerta surgiu quando, após uma cirurgia na mão, os médicos ficaram perplexos com sua ausência completa de dor, mesmo após procedimentos invasivos. Foi esse episódio que a levou a pesquisas genéticas aprofundadas.
Os genes que mudam tudo: FAAH e FAAH-OUT
O estudo revelou duas alterações simultâneas:
- Uma mutação no gene FAAH-OUT, até então considerado “não funcional”.
- Uma variação no gene FAAH, responsável pelo metabolismo de endocanabinoides — substâncias envolvidas na sensação de dor, humor e memória emocional.
A mutação diminuiu drasticamente a atividade da enzima FAAH, provocando níveis elevados de moléculas naturais relacionadas ao prazer e ao alívio do estresse, como a anandamida, conhecida como “molécula da felicidade”.
Resultado: um organismo que não interpreta dor, não desenvolve ansiedade e não forma memórias traumáticas da mesma maneira que a maioria das pessoas.
Por que isso é tão raro?
Geneticistas explicam que o FAAH-OUT é um gene “regulador silencioso”, o que significa que pequenas falhas nele podem alterar processos profundos sem produzir mutações visíveis. A raridade do caso é tamanha que:
- nenhuma outra pessoa com mutações idênticas foi encontrada;
- o FAAH-OUT passou a ser reestudado em diversos laboratórios;
- o caso se tornou referência mundial em genética da dor.

O estudo mudou inclusive o foco de pesquisas farmacêuticas para desenvolvimento de novos analgésicos e tratamentos para ansiedade.
Cicatrização acelerada: o outro mistério
Outro ponto que chamou a atenção dos médicos foi a capacidade de cicatrização incomum de Jo Cameron. Cortes profundos, feridas cirúrgicas e queimaduras fechavam rapidamente e deixavam marcas mínimas. Os cientistas associaram isso a:
- aumento de endocanabinoides no sangue;
- redução de inflamação local;
- respostas imunes moduladas;
- hiperregeneração de tecidos epiteliais.
Hoje, pesquisadores estudam como a mutação poderia inspirar tratamentos para acelerar recuperação pós-cirúrgica.
A vida emocional de alguém que não sente medo nem ansiedade
A ausência de dor física é só metade da história. Estudos indicam que Jo vive em estado emocional raríssimo:
- não sente medo em situações de risco;
- quase nunca experimenta estresse;
- relata felicidade constante;
- sua memória emocional não registra traumas;
- níveis de ansiedade são praticamente inexistentes.
Para psiquiatras, isso é especialmente relevante porque o gene FAAH também está ligado à regulação de neurotransmissores associados a transtornos como depressão e ansiedade generalizada.
O caso reacendeu debates sobre limites éticos da modificação genética e possíveis terapias futuras para distúrbios emocionais.
O que a medicina aprendeu com Jo Cameron
Desde a publicação do estudo, cientistas ao redor do mundo passaram a investigar:
- novos analgésicos baseados no bloqueio do FAAH;
- terapias genéticas para pessoas com dor crônica;
- medicamentos para ansiedade ligados ao FAAH-OUT;
- mecanismos de cicatrização acelerada;
- modulação natural de estresse.
Apesar dos avanços, pesquisadores ressaltam que reproduzir artificialmente um fenômeno tão complexo é extremamente difícil e envolve riscos.
O impacto social e científico do caso
A história de Jo Cameron não é apenas uma curiosidade genética e ela abriu portas para:
- pesquisas de neurociência sobre memória emocional;
- uso de endocanabinoides em medicamentos;
- novos estudos sobre dor neuropática;
- avanços em tratamentos pós-operatórios;
- revisões em protocolos de controle de dor.
O que antes parecia um episódio isolado se tornou uma base científica que influencia laboratórios no Reino Unido, EUA e Europa.
Um fenômeno que continua em estudo
Mesmo com anos de pesquisas, os cientistas ainda não compreendem totalmente como uma única mutação pode alterar tantos aspectos do comportamento humano.
O caso continua sendo estudado e provavelmente servirá como ponto de partida para novas descobertas na medicina regenerativa e nos tratamentos para ansiedade.
Um corpo que reescreveu a ciência da dor
A história de Jo Cameron é um divisor de águas. Não apenas por revelar uma mulher que vive sem dor, mas porque sua genética oferece pistas sobre tratamentos futuros capazes de aliviar sofrimento de milhões de pessoas.
A pesquisa mostrou que o corpo humano possui mecanismos desconhecidos — e que uma única mutação pode redefinir tudo o que a medicina acreditava saber sobre dor, medo, ansiedade e cicatrização.

