1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Cogumelo alucinógeno consumido na China causa alucinações liliputianas raras
Tempo de leitura 4 min de leitura Comentários 0 comentários

Cogumelo alucinógeno consumido na China causa alucinações liliputianas raras

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 23/01/2026 às 19:00
Estudos em micologia investigam como o Lanmaoa asiatica causa visões recorrentes e efeitos neurológicos incomuns.
Foto: IA
  • Reação
2 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Estudos em micologia investigam como o Lanmaoa asiatica causa visões recorrentes e efeitos neurológicos incomuns.

Médicos, cientistas e pesquisadores de diferentes países investigam um cogumelo alucinógeno consumido como alimento na província de Yunnan, na China, após centenas de pessoas procurarem hospitais todos os anos relatando visões incomuns.

O responsável é o Lanmaoa asiatica, espécie popular na culinária local que, quando malcozida, provoca alucinações liliputianas — a percepção vívida de figuras humanas minúsculas.

O fenômeno ocorre durante a temporada de cogumelos, entre junho e agosto, e desperta o interesse crescente da micologia e da pesquisa científica sobre fungos, especialmente por seus possíveis impactos no cérebro humano. 

Logo nos primeiros atendimentos, os profissionais de saúde perceberam um padrão curioso.

Pacientes descrevem pequenas figuras que caminham pelo chão, sobem paredes e se penduram em móveis.

Assim, apesar do caráter estranho dos relatos, os sintomas se repetem ano após ano, sempre associados ao consumo do mesmo cogumelo. 

Lanmaoa asiatica: iguaria local com efeitos inesperados 

Lanmaoa asiatica cresce em simbiose com pinheiros nas florestas de Yunnan.

Além disso, é valorizado pelo sabor intenso e pelo alto teor de umami, um dos cinco gostos básicos do paladar humano. 

Por esse motivo, o cogumelo aparece com frequência em feiras, restaurantes e refeições caseiras.

No entanto, moradores locais sabem que o preparo inadequado transforma a iguaria em um potente cogumelo alucinógeno

“Em um restaurante de hot pot de cogumelos de lá, o atendente acionou um cronômetro de 15 minutos e nos alertou:

‘Não comam antes de o tempo acabar ou vocês podem ver pessoinhas’”, relata Colin Domnauer, doutorando em Biologia na Universidade de Utah e pesquisador da espécie.

“Parece ser um conhecimento bastante difundido na cultura local.” 

Alucinações liliputianas chamam atenção da medicina 

As chamadas alucinações liliputianas não são comuns na prática clínica.

O termo descreve visões de seres humanos, animais ou figuras fantásticas em tamanho reduzido e foi usado pela primeira vez em estudos psiquiátricos no início do século 20. 

Em 1991, pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências já haviam documentado casos semelhantes em Yunnan.

Segundo os relatos, os pacientes viam mais de dez figuras ao mesmo tempo, inclusive sobre roupas e pratos de comida.

Assim, as imagens eram ainda mais intensas quando os olhos estavam fechados. 

Então esses registros reforçaram a ligação direta entre o consumo do Lanmaoa asiatica e os efeitos neurológicos observados. 

Pesquisa científica sobre fungos busca o composto desconhecido 

Intrigado pelos relatos, Domnauer decidiu aprofundar a pesquisa científica sobre fungos pouco estudados.

Então em 2023, ele percorreu mercados de Yunnan perguntando aos vendedores quais cogumelos “fazem você ver gente pequena”. 

Os exemplares indicados foram levados para análises genéticas, que confirmaram a identidade do Lanmaoa asiatica.

Então em testes laboratoriais, extratos do cogumelo provocaram alterações comportamentais em camundongos, como hiperatividade seguida de um longo período de torpor. 

Além da China, o pesquisador encontrou relatos semelhantes nas Filipinas.

Apesar das diferenças visuais, testes genéticos mostraram que se tratava da mesma espécie. 

Mistério global desafia a micologia moderna 

Relatos históricos indicam fenômenos parecidos na Papua Nova Guiné desde a década de 1960.

À época, cientistas atribuíram as histórias a construções culturais, sem base farmacológica. 

Hoje, no entanto, a micologia reconsidera essas conclusões.

Para Domnauer, existe a possibilidade de que os mesmos efeitos tenham surgido de forma independente em espécies diferentes, o que seria altamente relevante do ponto de vista evolutivo. 

“Não é a psilocibina que provoca esse efeito”, afirma o pesquisador.

“A substância responsável parece ser algo completamente novo.” 

Efeitos prolongados explicam ausência de uso recreativo 

Outro ponto que chama atenção é a duração das experiências.

As alucinações liliputianas podem durar de 12 a 24 horas e, em casos mais graves, levar a internações hospitalares por até uma semana. 

Cogumelo alucinógeno pode ajudar a entender o cérebro humano 

Apesar dos riscos, o estudo do cogumelo alucinógeno pode abrir novas fronteiras na neurologia.

“Agora, talvez possamos entender onde essas alucinações se originam no cérebro”, afirma Dennis McKenna, etnofarmacologista e diretor da McKenna Academy of Natural Philosophy.

Segundo ele, ainda é cedo para falar em aplicações terapêuticas, mas o potencial é real. 

Mundo dos fungos ainda guarda inúmeras descobertas 

Pesquisadores estimam que menos de 5% das espécies de fungos do planeta tenham sido descritas.

Para Giuliana Furci, micologista e fundadora da Fungi Foundation, o caso reforça o enorme potencial escondido nos ecossistemas. 

“Os fungos abrigam uma biblioteca bioquímica e farmacológica muito ampla, que estamos apenas começando a acessar”, afirma.

Nesse cenário, o Lanmaoa asiatica deixa de ser apenas uma curiosidade regional e passa a ocupar um lugar central na pesquisa científica sobre fungos e na compreensão da mente humana. 

Veja mais em: O misterioso cogumelo que faz as pessoas verem humanos minúsculos – BBC News Brasil

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x