No laboratório subterrâneo de Bedretto, o projeto FEAR induz terremotos pequenos e monitora cada sinal para descobrir o que desencadeia rupturas e como reduzir riscos em atividades de injeção hidráulica
Estudar terremotos sempre esbarra no mesmo obstáculo: eles não avisam quando vão acontecer. Falhas geológicas podem ficar décadas, às vezes séculos, sem um evento forte, e isso torna quase impossível estar no lugar certo, na hora certa, com instrumentos suficientes para registrar cada detalhe. Para contornar esse problema, pesquisadores decidiram criar terremotos em um ambiente controlado, mas ainda natural, diretamente em uma falha real.
É isso que acontece no Laboratório Subterrâneo de Geociências e Geoenergia de Bedretto, nos Alpes Suíços. A iniciativa, liderada por uma equipe internacional com participação da ETH Zurich, usa injeção hidráulica para induzir terremotos pequenos em uma seção altamente instrumentada de uma falha natural, com o objetivo de observar como um tremor começa, como se propaga e como termina.
Por que é tão difícil estudar terremotos na natureza
Mesmo com redes sísmicas modernas, o estudo de terremotos fortes enfrenta uma limitação básica: não dá para prever com precisão o momento e o local do rompimento. E sem sensores próximos do ponto onde a falha está se movendo, muitos detalhes importantes se perdem.
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Os pesquisadores explicam que, no ambiente natural, você pode passar uma vida inteira sem estar exatamente onde um evento importante ocorre. Por isso, a estratégia de induzir terremotos pequenos permite aproximar instrumentos do fenômeno e coletar dados que raramente seriam obtidos em condições normais.
O que é o projeto FEAR no laboratório subterrâneo de Bedretto
No BedrettoLab, a cerca de 1.500 metros abaixo dos Alpes Suíços, funciona o projeto FEAR, sigla para Fault Activation and Earthquake Rupture. O objetivo é induzir terremotos não destrutivos ao longo de uma seção de falha natural equipada com uma rede densa de sensores.
A ideia é preencher uma lacuna importante: não é um laboratório tradicional de mecânica de rochas, mas também não depende de esperar um grande evento na natureza. É um cenário intermediário, um ambiente real, porém monitorado e com condições de experimento.
Como os pesquisadores induzem terremotos e por que isso se relaciona à injeção hidráulica
A técnica central do FEAR é a injeção hidráulica, um processo semelhante ao que pode gerar terremotos induzidos em atividades como fraturamento hidráulico, mineração e projetos de energia geotérmica em rochas superaquecidas.
A diferença é que, no FEAR, isso acontece com instrumentação pesada e planejamento para medir cada resposta da falha.
O objetivo final é entender o que desencadeia terremotos e, se possível, aplicar esse conhecimento para reduzir riscos em contextos onde a injeção hidráulica é usada fora do laboratório, em operações reais.
O que o experimento FEAR-1 já conseguiu registrar
Segundo o relato do projeto, um experimento chamado FEAR-1, realizado no fim de 2024, fez uma série de 14 injeções e induziu aproximadamente 9.000 eventos sísmicos, localizados dentro e fora da estrutura da falha.
Esses terremotos são tão pequenos que, na prática, só podem ser percebidos por instrumentos muito próximos, a poucos metros. Para isso, há sensores cimentados em furos de sondagem ao redor da falha natural, capazes de registrar sinais que seriam imperceptíveis na superfície.
Segurança e o próximo passo com terremotos de magnitude 1
Mesmo provocando terremotos pequenos, a segurança entra como prioridade, porque ninguém quer que o experimento gere dano real. Por isso, o sistema inclui medidas de segurança para lidar com qualquer atividade inesperada, com monitoramento contínuo dos sinais.
A equipe também planeja elevar a magnitude dos terremotos para cerca de 1. É um valor baixo em termos de impacto, mas suficiente para coletar informações sobre a física dos eventos, com a lógica de que a física do processo é a mesma, mudando principalmente a escala, do microevento ao grande tremor.
O que essas descobertas podem mudar fora do laboratório
Se os pesquisadores conseguirem detalhar como terremotos começam e evoluem, o conhecimento pode ajudar a interpretar sinais precoces, avaliar riscos e calibrar práticas em situações onde a sismicidade induzida é uma preocupação, como certas operações de injeção hidráulica.
Em vez de depender apenas de dados esparsos de eventos raros, o projeto tenta construir uma base de medições repetíveis, em uma falha real, com sensores próximos do ponto onde o processo acontece. É uma forma de estudar terremotos por dentro, no nível de detalhe que a natureza raramente permite.
Você acha que provocar terremotos pequenos em ambiente controlado é um caminho válido para reduzir riscos de grandes tremores no futuro, ou esse tipo de experimento deveria ter limites ainda mais rígidos?
