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Cientistas finalmente revelam o que causou os raros coágulos sanguíneos associados a algumas vacinas contra a COVID-19 e explicam como esse risco pode ser eliminado no futuro

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 20/02/2026 às 20:13
Atualizado em 20/02/2026 às 20:14
Ilustração científica de adenovírus e células do sangue explicando a origem de coágulos raros associados a vacinas contra a COVID-19
Ilustração científica representa a interação entre adenovírus e componentes do sangue associada a coágulos raros observados em algumas vacinas contra a COVID-19
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Estudo internacional publicado em uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo desvenda o mecanismo molecular por trás de um efeito adverso raro e aponta caminhos para vacinas mais seguras no futuro

Durante os primeiros meses da pandemia de COVID-19, o mundo assistiu a uma corrida científica sem precedentes para o desenvolvimento de vacinas eficazes. Em tempo recorde, diferentes tecnologias foram testadas, aprovadas e distribuídas em escala global. No entanto, à medida que milhões de pessoas começaram a ser imunizadas, surgiram também relatos de efeitos adversos extremamente raros, mas graves, associados a um tipo específico de vacina. Agora, após anos de investigação, cientistas afirmam finalmente ter desvendado a causa desses eventos e, mais importante, como evitá-los no futuro.

A informação foi divulgada por reportagens científicas especializadas, com base em um estudo conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores liderados pela Universidade de Flinders, na Austrália, e publicado no New England Journal of Medicine. Segundo os autores, a descoberta representa o capítulo final de uma longa investigação sobre os mecanismos biológicos responsáveis por um distúrbio raro de coagulação observado em uma pequena parcela da população vacinada.

Ao contrário da maioria das vacinas contra a COVID-19 ainda utilizadas atualmente — baseadas na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) — algumas das primeiras vacinas aplicadas durante a pandemia usavam uma abordagem diferente. É o caso das vacinas desenvolvidas pela Oxford/AstraZeneca, no Reino Unido, e pela Johnson & Johnson, nos Estados Unidos, que utilizavam vetores de adenovírus para induzir a resposta imunológica.

Essas vacinas empregavam um adenovírus inofensivo aos seres humanos como “veículo” para transportar informações genéticas do SARS-CoV-2 ao organismo. Embora essa tecnologia tenha sido amplamente testada antes da pandemia, inclusive em estudos sobre a MERS, outro coronavírus, sua aplicação em larga escala revelou um efeito adverso extremamente raro, mas potencialmente fatal, que chamou a atenção da comunidade médica mundial.

O que é a trombose induzida por vacina e por que ela assustou médicos

Pouco tempo após o início da vacinação em massa, médicos começaram a identificar casos incomuns de um distúrbio chamado trombose com trombocitopenia induzida por vacina, conhecido pela sigla VITT (vaccine-induced immune thrombocytopenia and thrombosis). A condição combinava dois fatores perigosos: a formação de coágulos sanguíneos e uma queda abrupta no número de plaquetas, células essenciais para a coagulação normal do sangue.

Inicialmente, o fenômeno intrigou especialistas, já que os quadros clínicos não se encaixavam nos padrões tradicionais de trombose. Com o avanço das investigações, descobriu-se que os pacientes afetados produziam autoanticorpos contra uma proteína humana chamada fator plaquetário 4 (PF4). Esses autoanticorpos ativavam o sistema imunológico de forma descontrolada, desencadeando a formação de coágulos.

Apesar da gravidade do quadro, os casos de VITT foram extremamente raros quando comparados ao número total de doses aplicadas. Ainda assim, o impacto foi suficiente para levar autoridades sanitárias de diversos países a revisar protocolos de vacinação e restringir o uso dessas vacinas em determinados grupos de risco.

Como os cientistas ligaram o adenovírus ao problema

A investigação avançou em etapas. Em 2022, o professor Tom Gordon e a pesquisadora Jing Jing Wang lideraram um estudo que identificou fatores genéticos associados à produção dos autoanticorpos contra o PF4. No ano seguinte, outro trabalho revelou que os mesmos fatores genéticos poderiam provocar uma condição semelhante à VITT após a exposição a adenovírus naturais, como os responsáveis por alguns resfriados comuns.

Esses achados levantaram uma hipótese crucial: o problema não estaria em outros componentes da vacina, mas sim no próprio adenovírus utilizado como vetor. Para confirmar essa suspeita, pesquisadores de diferentes países uniram esforços e compararam casos de VITT induzida por vacina com distúrbios semelhantes causados por infecções naturais por adenovírus.

Os resultados mostraram que, do ponto de vista imunológico e clínico, as duas condições eram praticamente idênticas. Isso reforçou a conclusão de que o adenovírus desempenhava um papel central no desencadeamento da resposta autoimune observada em um número muito pequeno de pessoas.

A descoberta final que pode tornar futuras vacinas mais seguras

Na etapa final da pesquisa, os cientistas recorreram a análises moleculares avançadas para entender exatamente por que o sistema imunológico de alguns indivíduos reagia dessa forma ao adenovírus. A resposta revelou um mecanismo de “confusão molecular”: uma proteína presente no adenovírus possui uma estrutura semelhante à do fator plaquetário 4 humano.

Em pessoas geneticamente predispostas, essa semelhança faz com que o sistema imunológico confunda a proteína viral com o PF4, ativando os autoanticorpos já existentes e desencadeando a cascata de coagulação anormal. Segundo os autores do estudo, esse processo explica de forma clara e definitiva a origem da VITT.

De acordo com a pesquisadora Jing Jing Wang, a descoberta abre caminho para soluções práticas. Ao modificar ou remover essa proteína específica do adenovírus, futuras vacinas poderão manter alta eficácia contra doenças infecciosas sem carregar o risco, ainda que mínimo, desse efeito adverso raro.

O trabalho também foi elogiado por outros especialistas envolvidos na pesquisa. Para o professor James McCluskey, o estudo representa “um brilhante trabalho de investigação molecular”, capaz de demonstrar como uma resposta imunológica normal pode, em circunstâncias muito específicas, evoluir para um quadro de autoimunidade patológica.

Além disso, o caso é apontado como um exemplo de funcionamento eficaz da ciência e da regulação sanitária. Assim que o risco foi identificado, estratégias de vacinação foram ajustadas para proteger os grupos mais vulneráveis, enquanto pesquisadores continuavam, nos bastidores, a buscar respostas definitivas.

Com informações de: IFL Science

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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