O bloco de gelo encontrado no Alasca resistiu a pelo menos três períodos interglaciais em que temperaturas globais foram mais altas que as atuais mas o aquecimento acelerado do Ártico está destruindo em décadas o que a natureza preservou por 350 mil anos e cientistas correm contra o tempo para extrair informações
Segundo o estudo da Revista Science, Cientistas identificaram no Alasca um bloco de gelo subterrâneo com aproximadamente 350 mil anos de idade uma estrutura que sobreviveu a pelo menos três períodos de aquecimento global natural ao longo de centenas de milhares de anos. Mas esse mesmo gelo, que resistiu a eras inteiras em que as temperaturas do planeta foram mais altas que as atuais, agora está derretendo a um ritmo que pode fazê-lo desaparecer em poucas décadas. O Alasca está aquecendo duas a três vezes mais rápido que a média global, e o permafrost que protegia esse bloco está cedendo.
A descoberta coloca os pesquisadores numa corrida contra o tempo. O gelo do Alasca contém bolhas de ar, microrganismos, pólen e isótopos químicos que funcionam como cápsulas do tempo registros diretos de como era a atmosfera e o clima da Terra há centenas de milhares de anos. Cada camada que derrete é informação que se perde para sempre. Os cientistas sabem que o bloco existe, sabem que ele contém dados insubstituíveis, mas não sabem se terão tempo suficiente para extrair tudo antes que o aquecimento no Alasca destrua o que a natureza levou 350 mil anos para preservar.
Como um bloco de gelo sobreviveu 350 mil anos no Alasca

A sobrevivência desse gelo por tantos milênios não é acidental é resultado de condições geológicas e climáticas muito específicas.
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O bloco está enterrado no permafrost do Alasca, a camada de solo permanentemente congelada que cobre vastas áreas do Ártico. Em profundidades onde a temperatura se manteve abaixo de zero mesmo durante períodos interglaciais fases naturais de aquecimento que ocorrem a cada 100 mil anos aproximadamente, o gelo conseguiu sobreviver enquanto geleiras na superfície derretiam e se reformavam.
O que torna essa resistência extraordinária é a escala temporal. Nos últimos 350 mil anos, a Terra passou por pelo menos três períodos interglaciais em que temperaturas globais subiram acima dos níveis pré-industriais.
Geleiras inteiras avançaram e recuaram, oceanos subiram e desceram metros, ecossistemas se transformaram completamente e esse bloco de gelo no Alasca permaneceu intacto no subsolo, isolado do calor pela espessura do permafrost acima dele. Até agora.
O que o gelo do Alasca guarda e por que é insubstituível

imagem: Ben Jones e Phillip Wilson
Gelo antigo é um dos registros mais valiosos que a ciência tem sobre o passado climático do planeta. As bolhas de ar aprisionadas no gelo do Alasca contêm amostras diretas da atmosfera de 350 mil anos atrás concentrações de CO2, metano, oxigênio e outros gases que revelam como era o clima da Terra em períodos muito anteriores a qualquer registro humano.
Núcleos de gelo da Antártida e da Groenlândia já forneceram informações semelhantes, mas gelo do Ártico continental como o do Alasca é excepcionalmente raro.
Além dos gases, o bloco pode conter pólen fossilizado, microrganismos preservados e isótopos que indicam temperaturas e padrões de precipitação de eras passadas.
Para os cientistas, é como ter acesso a uma biblioteca cujos livros estão escritos em linguagem molecular cada camada de gelo do Alasca é um capítulo que conta como o planeta respondeu a mudanças climáticas anteriores.
Essa informação é crucial para projetar o que pode acontecer num futuro com aquecimento acelerado. Mas bibliotecas que derretem não podem ser relidas.
Por que o Alasca está aquecendo mais rápido que o resto do planeta
O Ártico sofre o que cientistas chamam de amplificação polar um fenômeno em que as regiões polares aquecem significativamente mais rápido que as latitudes médias e tropicais.
O Alasca está na linha de frente desse processo: enquanto a temperatura média global subiu cerca de 1,2°C desde a era pré-industrial, o Ártico aqueceu entre 2 e 4 vezes mais rápido. As consequências são visíveis em toda parte: permafrost desmoronando, costas erodindo, florestas boreais avançando para o norte e gelo que existia há milênios desaparecendo.
O permafrost que protegia o bloco de 350 mil anos está entre as vítimas. À medida que o solo permanentemente congelado do Alasca descongela em profundidades cada vez maiores, o isolamento térmico que mantinha o gelo intacto se degrada.
O calor penetra mais fundo a cada ano, e estruturas de gelo subterrâneo que sobreviveram a eras inteiras de aquecimento natural agora enfrentam um inimigo que atua mais rápido e de forma mais persistente: o aquecimento causado pela atividade humana.
A corrida dos cientistas para extrair os segredos antes que o gelo do Alasca desapareça
A pesquisa com gelo antigo é um trabalho meticuloso que exige tempo exatamente o recurso que está acabando. Extrair núcleos de gelo sem contaminá-los, transportá-los para laboratórios refrigerados e analisar camada por camada são processos que podem levar anos.
O problema é que o gelo do Alasca não vai esperar. Se o ritmo atual de aquecimento no Ártico se mantiver, estruturas de permafrost que levaram centenas de milhares de anos para se formar podem colapsar em poucas décadas.
Para os cientistas, o bloco de 350 mil anos é tanto uma oportunidade quanto um lembrete. É a prova de que a Terra já enfrentou aquecimentos severos antes e de que certas estruturas conseguiram sobreviver a eles.
Mas também é a prova de que o aquecimento atual está ultrapassando limites que nem 350 mil anos de história geológica no Alasca foram capazes de suportar.
Se esse gelo derreter antes de ser completamente estudado, a humanidade terá perdido um registro que nenhuma tecnologia consegue recriar um pedaço literal do passado que estava ali, esperando para ser lido, e que desapareceu antes que tivéssemos tempo de terminar a leitura.
Você sabia que existia gelo de 350 mil anos no Alasca? Acha que a ciência vai conseguir extrair os dados antes que derreta?

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