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Cidade canadense ergueu um edifício de 1,3 km como muralha contra o vento, colocou centenas de moradias dentro dele e protegeu bairros inteiros do inverno subártico

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 14/09/2026 às 16:06
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Cidade canadense ergueu um edifício de 1,3 km como muralha contra o vento, colocou centenas de moradias dentro dele e protegeu bairros inteiros do inverno subártico
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No norte do Canadá, Fermont transformou um edifício de 1,3 km em escudo contra os ventos: a gigantesca construção reúne moradias, escolas, comércio e lazer enquanto protege bairros inteiros do rigoroso inverno subártico.

Quando os ventos de inverno avançam pelo norte de Quebec, eles encontram antes das casas de Fermont uma construção que parece ter sido colocada ali para fechar a cidade. São 1,3 quilômetro de edifício contínuo, posicionado justamente na direção de onde chegam os ventos predominantes. O prédio muda de altura ao longo do percurso, concentra residências e serviços e cria uma enorme zona protegida atrás de sua fachada.

Segundo a Universidade do Québec em Montreal, UQAM, o chamado mur-écran, ou muro-tela, foi concebido para formar um microclima mais favorável à vida cotidiana e abriga mais de 400 unidades habitacionais, além de diferentes funções urbanas.

A história começou no início da década de 1970, quando a mineração de ferro exigiu uma nova cidade próxima à jazida de Mont-Wright. O urbanista e arquiteto Norbert Schoenauer, ao lado de Maurice Desnoyers e de uma equipe multidisciplinar, participou do projeto que transformaria Fermont em uma experiência radical de planejamento para o clima subártico.

O conceito recebeu influência direta do arquiteto anglo-sueco Ralph Erskine. Em vez de tentar simplesmente aquecer edifícios isolados, os projetistas decidiram usar a própria arquitetura para enfrentar o vento.

A cidade começa atrás de uma parede de 1,3 quilômetro

Vista de cima, a lógica de Fermont aparece imediatamente. O enorme edifício ocupa o limite norte e noroeste da área urbana, enquanto boa parte das casas se espalha no lado protegido, em direção ao lago Daviault.

Cidade canadense ergueu um edifício de 1,3 km como muralha contra o vento, colocou centenas de moradias dentro dele e protegeu bairros inteiros do inverno subártico
Imagem: Sébastien St-Jean

Não se trata de uma muralha convencional. O que parece uma barreira é, na realidade, um edifício habitável, com apartamentos, corredores, comércio, espaços públicos e instalações comunitárias distribuídos ao longo de sua extensão.

Sua forma também não é puramente estética. Estudos aerodinâmicos influenciaram o desenho, fazendo com que a parte central fosse mais alta e as extremidades diminuíssem gradualmente.

O inimigo que definiu o desenho urbano foi o vento

O problema enfrentado pelos projetistas não era apenas o frio. Em uma comunidade subártica, ventos fortes aumentam drasticamente a sensação térmica, movimentam neve e tornam deslocamentos aparentemente pequenos muito mais difíceis no inverno.

A solução foi colocar uma grande massa construída exatamente entre a cidade e os ventos predominantes de noroeste. O edifício funciona como um quebra-vento em escala urbana, desviando parte do fluxo de ar antes que ele alcance as residências situadas atrás.

Testes citados pelo estudo da McGill University indicaram que a estrutura poderia proteger de forma efetiva cerca de 300 casas e proporcionar proteção parcial a outras 300. A área beneficiada pelo chamado efeito de sombra do vento correspondia à região onde vivia aproximadamente dois terços da população planejada.

A muralha não ficou vazia e virou o centro da cidade

A decisão mais incomum veio em seguida. Construir apenas uma barreira gigantesca consumiria espaço e recursos sem resolver outras necessidades da comunidade.

Os arquitetos transformaram o quebra-vento no próprio núcleo urbano. Nos diferentes trechos da estrutura passaram a funcionar residências, instalações educacionais, áreas esportivas, comércio e serviços comunitários.

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A pesquisa da UQAM descreve o Mur-écran como uma construção multifuncional que reúne centro comercial, arena e centenas de unidades residenciais. Assim, o elemento criado para enfrentar o clima ganhou uma segunda função: concentrar boa parte da vida diária de Fermont.

Moradores podem atravessar serviços sem enfrentar todo o inverno

Outro princípio fundamental do projeto foi reduzir a necessidade de sair constantemente ao ambiente externo apenas para alcançar serviços básicos.

No térreo, diferentes instalações foram conectadas por corredores e passagens internas climatizadas. Escola, áreas de lazer, comércio e outros equipamentos podiam ser alcançados por uma rede protegida, algo particularmente útil durante períodos de frio e vento intensos.

A intenção, porém, nunca foi criar uma cidade completamente fechada. Adrian Sheppard, professor de arquitetura da McGill University e integrante da equipe envolvida no projeto, explicou em seu estudo que o objetivo era manter o contato dos moradores com o exterior, oferecendo proteção nos deslocamentos mais vulneráveis.

O projeto nasceu porque uma mina precisava de uma cidade

Fermont não cresceu lentamente ao redor de um centro histórico. Sua existência moderna está diretamente ligada às enormes reservas de minério de ferro do norte de Quebec.

No fim dos anos 1960, a Quebec Cartier Mining avançava sobre a jazida de Mont-Wright. A operação exigia não apenas infraestrutura de mineração, mas um lugar onde trabalhadores e suas famílias pudessem viver de maneira permanente.

O projeto abrangia a expansão da ferrovia, instalações para processamento de minério e a construção de uma nova cidade. Fermont foi planejada para receber aproximadamente 5 mil habitantes, com serviços suficientes para evitar que o assentamento funcionasse apenas como um alojamento temporário de trabalhadores.

Os projetistas tentaram corrigir erros de outras cidades mineradoras

Décadas antes, empresas haviam construído diferentes assentamentos no norte canadense usando modelos urbanos semelhantes aos encontrados em regiões de clima muito mais ameno.

Fermont's Inhabitable Wind Break
Fermont’s Inhabitable Wind Break | Amusing Planet

Casas afastadas, infraestrutura espalhada e longas redes viárias aumentavam custos de construção, manutenção e remoção de neve. Em Fermont, os planejadores decidiram seguir na direção oposta.

Três princípios passaram a orientar o projeto: uso compacto do terreno, adoção do edifício quebra-vento e criação de acessos climatizados entre instalações comunitárias. A cidade deixava de tentar ignorar o clima e começava a ser desenhada a partir dele.

A inspiração veio de experiências realizadas na Escandinávia

Parte dessa mudança nasceu das ideias do arquiteto Ralph Erskine, conhecido por desenvolver soluções arquitetônicas para regiões frias.

Erskine havia trabalhado com edifícios capazes de funcionar como quebra-ventos em projetos na Suécia. Em localidades como Kiruna e Svappavaara, grandes construções eram posicionadas de maneira a melhorar as condições do espaço urbano localizado atrás delas.

Fermont levou o princípio a uma escala diferente. Em vez de vários blocos separados desempenhando essa função, o projeto canadense adotou um único edifício contínuo com cerca de 1,3 km.

Até a altura da construção foi calculada para manipular o vento

A extensa fachada não mantém exatamente a mesma altura de uma ponta à outra.

A documentação histórica do projeto descreve uma região central com aproximadamente cinco andares e meio, enquanto as extremidades chegam a cerca de três andares e meio. Essa variação resultou de considerações aerodinâmicas, não apenas arquitetônicas.

A implantação da cidade também trabalha em conjunto com o prédio. A DMA Architectes, ligada ao desenvolvimento do projeto, explica que Fermont foi colocada em um terreno relativamente plano, com o lago ao sul e a proteção do Mur-écran ao norte, estratégia destinada a produzir condições microclimáticas mais favoráveis.

Fazer a cidade menor também reduziu quilômetros de infraestrutura

A proteção contra o vento era apenas uma parte da equação. Compactar Fermont significava diminuir distâncias entre casas, serviços e equipamentos públicos.

Segundo o estudo publicado pela McGill University, o planejamento compacto reduzia a quantidade de vias e de infraestrutura necessária por morador quando comparado a um modelo urbano mais espalhado. Menos extensão significava menos pavimento, iluminação, redes de água e esgoto e áreas que precisavam de manutenção.

No inverno, essa diferença se torna ainda mais importante. Ruas menores e distâncias reduzidas significam menos superfície para remover neve e deslocamentos mais curtos entre residência, escola, comércio e lazer.

O mesmo muro que protege também cria problemas

Uma estrutura dessa escala não produz apenas vantagens. O próprio funcionamento aerodinâmico de um quebra-vento altera a maneira como a neve se deposita no terreno.

A documentação histórica de Fermont reconhece que a acumulação de neve aumenta no lado protegido da barreira. A orientação do setor para o sul foi utilizada como parte da resposta, permitindo maior exposição solar nas áreas onde esse acúmulo ocorre.

Há ainda uma questão urbana mais profunda. Concentrar tantos serviços dentro de uma única estrutura pode enfraquecer o desenvolvimento de áreas comerciais e espaços públicos do lado de fora. Documentos regionais já identificaram justamente essa concentração como um dos desafios do modelo de Fermont.

Mais de 50 anos depois, Fermont ainda tenta reinventar seu centro

O Mur-écran não ficou congelado como uma experiência arquitetônica dos anos 1970. Ele continua sendo o núcleo cotidiano da comunidade.

Em abril de 2026, a MRC de Caniapiscau iniciou uma nova etapa de discussão sobre a revitalização do centro de Fermont. Moradores, autoridades, organizações e empresas participaram de encontros destinados a identificar como o espaço poderia responder melhor às necessidades atuais.

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O debate mostra o paradoxo criado pelo sucesso do próprio projeto. A barreira que permitiu concentrar a cidade e protegê-la do clima também concentrou atividades durante décadas em uma estrutura que agora precisa se adaptar a uma comunidade diferente daquela imaginada nos anos 1970.

A antiga solução climática virou também patrimônio urbano

Em maio de 2026, a região inaugurou o percurso turístico “Marcher le mur”, criado para apresentar a história e as particularidades da construção aos visitantes.

O trajeto acompanha justamente o edifício de 1.300 metros que continua reunindo residências, comércio, instalações esportivas e serviços. Meio século depois de sua construção, uma infraestrutura concebida por necessidade climática tornou-se também parte da identidade local.

Fermont acabou produzindo algo raro: não apenas um prédio gigantesco, mas uma cidade cuja forma pode ser entendida olhando para a direção do vento.

A posição das casas, a concentração dos serviços, as passagens internas e até a altura variável da construção respondem ao mesmo problema que os arquitetos encontraram quando chegaram ao norte de Quebec.

Uma cidade que decidiu enfrentar o inverno com arquitetura

Em grande parte das cidades, edifícios são construídos depois que ruas, bairros e espaços públicos já estabeleceram o desenho urbano. Fermont inverteu essa lógica. Ali, um único edifício ajudou a determinar como a cidade inteira deveria funcionar.

O Mur-écran não elimina o rigor do inverno canadense. Ele manipula uma variável específica, o vento, para tornar uma parcela maior do território habitável e facilitar a rotina dos moradores.

É por isso que, mais de cinco décadas depois, a enorme construção continua relevante. Fermont mostra que, quando o ambiente impõe limites extremos, uma cidade não precisa necessariamente lutar contra a geografia. Ela pode mudar sua própria forma para funcionar dentro dela.

Se uma construção de 1,3 km conseguiu mudar a maneira como uma cidade inteira enfrenta o inverno, quantas outras regiões de clima extremo poderiam adaptar suas cidades ao ambiente em vez de simplesmente tentar resistir a ele?

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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