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Em 2028, a Terra cruzará detritos que o cometa Swift-Tuttle deixou no espaço em 1479, e a chuva de meteoros mais famosa do mundo poderá se transformar em uma tempestade de centenas de estrelas cadentes por hora, um fenômeno que não se repete desde antes de Colombo chegar à América

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 27/03/2026 às 19:11
Assista o vídeoEm 2028, a Terra cruzará detritos que o cometa Swift-Tuttle deixou no espaço em 1479, e a chuva de meteoros mais famosa do mundo poderá se transformar em uma tempestade de centenas de estrelas cadentes por hora, um fenômeno que não se repete desde antes de Colombo chegar à América
Em 2028, a Terra cruzará detritos do cometa Swift-Tuttle e a chuva de meteoros pode virar uma tempestade com centenas de estrelas cadentes por hora.
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Em 2028, a Terra cruzará detritos do cometa Swift-Tuttle e a chuva de meteoros pode virar uma tempestade com centenas de estrelas cadentes por hora.

Todo agosto, a Terra cruza uma nuvem de detritos espalhada ao longo da órbita do cometa Swift-Tuttle e o resultado é o espetáculo mais confiável do calendário astronômico: as Perseidas, observadas há mais de 2.000 anos e registradas em documentos históricos desde o ano 714 da nossa era. Em condições normais, o pico da chuva produz entre 60 e 100 meteoros por hora, visíveis a olho nu no céu escuro do Hemisfério Norte.

Em 12 de agosto de 2028, as condições não serão normais. Naquela noite, a Terra vai passar dentro de 60.000 quilômetros de um filamento de detritos densos que o Swift-Tuttle expeliu em 1479 — material que estava viajando pelo espaço há quase 550 anos sem nunca ter cruzado a órbita do nosso planeta antes. O astrônomo finlandês Esko Lyytinen calculou que o resultado pode ser uma tempestade de meteoros com mais de 1.000 estrelas cadentes por hora.

O cometa que fabrica meteoros

O cometa Swift-Tuttle foi descoberto em julho de 1862, de forma independente, por dois astrônomos americanos: Lewis Swift e Horace Tuttle, cujos nomes ele carrega. Mas a sua história é muito mais antiga que isso.

O Swift-Tuttle leva 133 anos para completar uma órbita ao redor do Sol. A cada passagem pelo Sistema Solar interno, o calor da estrela aquece o núcleo de gelo e rocha do cometa e provoca a ejeção de partículas — fragmentos de poeira, pedra e gelo que se dispersam ao longo de toda a sua trajetória orbital.

Foto: NASA/Preston Dyches

Segundo a NASA, o núcleo do Swift-Tuttle tem 26 quilômetros de diâmetro. Para ter referência: o asteroide que eliminou os dinossauros há 66 milhões de anos é estimado em 10 a 15 quilômetros. O Swift-Tuttle é mais que o dobro desse tamanho — e passa repetidamente perto da órbita da Terra.

A trajetória do cometa intersecta a órbita terrestre precisamente no trecho onde a Terra estará todo mês de agosto. O resultado é que, ano após ano, o planeta atravessa a trilha de resíduos que o cometa foi deixando ao longo de centenas de passagens. O astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli identificou essa relação em 1865, estabelecendo a primeira correlação direta já confirmada entre um cometa e uma chuva de meteoros.

O filamento de 1479

O que acontece em agosto de cada ano é o encontro da Terra com o corpo principal da nuvem de detritos do Swift-Tuttle, material depositado em múltiplas passagens ao longo de séculos. Mas a órbita do cometa não é uniforme — cada passagem produz um filamento ligeiramente distinto, com sua própria concentração de partículas e posição no espaço.

Em 1479, o Swift-Tuttle passou pelo Sol e ejetou um filamento de poeira e rocha que foi gradualmente se espalhando ao longo de sua órbita. Desde então, esse material viajou pelo Sistema Solar sem jamais cruzar a órbita da Terra no ponto exato em que ela estaria em agosto.

Em 2028, isso muda. Cálculos do astrônomo finlandês Esko Lyytinen, confirmados por outros pesquisadores, mostram que a Terra vai passar a apenas 60.000 quilômetros do centro desse filamento na madrugada de 12 de agosto de 2028, com o pico previsto para aproximadamente 5h30 no horário UTC. Para efeito de comparação, a Lua está a 384.000 quilômetros da Terra. O filamento de 1479 vai passar seis vezes mais perto do que isso.

O que os pesquisadores dizem sobre o que pode acontecer

Não há unanimidade sobre a intensidade do fenômeno — e isso é importante ser dito com clareza. Os modelos concordam que algo incomum vai acontecer. O quanto é excepcional, depende de quem calcula.

Lyytinen previu que o encontro com o filamento de 1479 pode produzir uma tempestade real de meteoros, com mais de 1.000 estrelas cadentes por hora visíveis do Hemisfério Norte. Escreveu isso em 2000, quando fez os cálculos. A previsão foi publicada e referenciada em múltiplos estudos subsequentes.

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O cientista francês Jérémie Vaubaillon, do Instituto de Mecânica Celeste e Cálculo de Efemérides de Paris, usou modelos computacionais para mapear a formação e evolução da nuvem de detritos do Swift-Tuttle. Seus resultados confirmam que a Terra vai cruzar um agrupamento pequeno e denso de poeira proveniente de 1479 nos primeiros minutos de 12 de agosto de 2028.

O meteorologista russo Mikhail Maslov fez cálculos independentes que confirmam a interação com o filamento de 1479, mas chegou a uma estimativa mais conservadora: entre 250 e 300 meteoros por hora — muito acima de uma chuva normal, mas abaixo do limiar técnico de uma tempestade. A faixa de previsões, portanto, vai de 250 a mais de 1.000 meteoros por hora. Num ano normal, as Perseidas produzem entre 60 e 100.

Por que 1479 faz diferença

O material mais antigo de um cometa tem uma propriedade específica: foi comprimido e reorganizado por forças gravitacionais durante séculos. Os fragmentos tendem a ser mais densos e mais agrupados do que o material jovem, que se dispersa mais rapidamente. É por isso que filamentos velhos — quando a Terra os encontra — podem produzir eventos mais intensos do que a nuvem difusa anual.

A interação do Swift-Tuttle com Júpiter em 2028 vai intensificar ainda mais o fenômeno. O planeta gigante, cuja gravidade constantemente reorganiza as trajetórias dos corpos do Sistema Solar, vai estar em posição que empurra detritos das Perseidas cerca de 160.000 quilômetros mais próximos do Sol do que o normal — deslocando a nuvem principal em direção à órbita terrestre.

Esse efeito adicional de Júpiter já foi observado antes. Em 2016, a gravitação do planeta deslocou uma faixa de detritos das Perseidas de forma que a Terra passou por uma região mais densa, elevando o pico daquele ano para cerca de 200 meteoros por hora — o dobro do normal. Em 2028, o efeito será simultâneo ao encontro com o filamento de 1479.

O precedente de 1992

A única vez em que algo comparável foi registrado ocorreu quando o próprio cometa Swift-Tuttle voltou ao Sistema Solar interno, em dezembro de 1992, após 130 anos de ausência.

Nos anos que antecederam e sucederam a passagem do cometa — 1991, 1992 e 1993 — as Perseidas produziram picos breves e extraordinários com centenas de meteoros por hora, muito acima do normal. A explicação era direta: o cometa estava presente, recém-ejetando material, e as nuvens de resíduos ao redor da sua trajetória estavam mais densas e concentradas.

O Swift-Tuttle não voltará ao Sistema Solar interno até 2125. O encontro de 2028 com o filamento de 1479 é a melhor oportunidade de reproduzir algo parecido com o que aconteceu nos anos 1990 — sem que o cometa precise estar presente.

O que o observador vai ver

Um meteoro das Perseidas entra na atmosfera a cerca de 210.000 quilômetros por hora. É esse impacto — e não a combustão, como o nome popular “estrela cadente” sugere — que gera o rastro luminoso. O atrito com o ar aquece o meteoroide e a coluna de gás ao seu redor a temperaturas que produzem luz visível por frações de segundo.

Nos picos mais intensos, as Perseidas produzem também fireballs — meteoros mais brilhantes que -3 de magnitude, visíveis mesmo em céus com alguma interferência de luz. Em tempestades, a frequência de fireballs aumenta junto com o número total de meteoros.

Em 2028, a Terra cruzará detritos que o cometa Swift-Tuttle deixou no espaço em 1479, e a chuva de meteoros mais famosa do mundo poderá se transformar em uma tempestade de centenas de estrelas cadentes por hora, um fenômeno que não se repete desde antes de Colombo chegar à América

O problema de 2028 é a Lua. Lyytinen notou desde suas previsões originais que a Lua estará próxima do quarto minguante naquela noite — o que significa luz suficiente para apagar os meteoros mais fracos durante as horas próximas ao pico. Os meteoros mais intensos ainda serão visíveis, mas a observação ideal vai exigir os horários de madrugada mais próximos ao pico e um local com horizonte amplo e mínima poluição luminosa.

A janela de observação do Brasil

As Perseidas têm seu radiante — o ponto aparente de onde os meteoros parecem vir — na constelação de Perseu, no Hemisfério Norte da esfera celeste. Isso as torna, estruturalmente, um fenômeno mais favorável para observadores no Hemisfério Norte.

No Brasil, a constelação de Perseu fica baixa no horizonte norte durante agosto, o que limita o número de meteoros visíveis em relação ao que um observador na Europa ou América do Norte consegue ver. Mesmo assim, nos eventos de maior intensidade, parte dos meteoros das Perseidas é visível a partir do território brasileiro, especialmente nas horas próximas à meia-noite quando a radiante sobe o suficiente para que os meteoros cruzem mais do céu visível.

Em 2028, o pico está previsto para por volta das 5h30 UTC do dia 12 de agosto — o que corresponde a 2h30 no horário de Brasília. Nas regiões Norte e Nordeste do país, com menor poluição luminosa e horizonte norte desobstruído, a janela entre meia-noite e 3h da manhã é a mais promissora para tentativas de observação.

O que o fenômeno ainda não é

Tempestades de meteoros são classificadas tecnicamente quando o índice zenital horário — o número de meteoros visíveis por hora a partir de condições ideais — ultrapassa 1.000. A última ocorrida nas Leonídas, em 2001, produziu mais de 3.000 meteoros por hora no pico.

O filamento de 1479 pode ou não produzir uma tempestade no sentido técnico. Os modelos divergem. O que nenhum pesquisador contesta é que o encontro vai acontecer, que a Terra vai passar mais perto desse filamento do que em qualquer momento dos últimos 549 anos, e que o pico de 2028 vai ser substancialmente mais intenso que uma Perseida comum.

A diferença entre 250 e 1.000 meteoros por hora ainda é, para quem vai estar olhando para o céu em agosto de 2028, extraordinária em qualquer cenário.

O material que viajou 549 anos esperando

Em 1479, quando o Swift-Tuttle passou pelo Sol e lançou esse filamento de poeira e rocha no espaço, Cristóvão Colombo tinha 28 anos e ainda não havia cruzado o Atlântico. A imprensa de Gutenberg tinha menos de três décadas. O Império Otomano acabava de conquistar Constantinopla 26 anos antes.

Esse material viajou por todo esse tempo em órbita ao redor do Sol, invisible e inerte, sem nunca encontrar a Terra no ponto certo. Em 12 de agosto de 2028, às 5h30 UTC, a órbita vai alinhar pela primeira vez desde que foi ejetado.

O encontro vai durar alguns minutos. As estrelas cadentes que ele vai produzir vão durar frações de segundo cada uma. Quem estiver acordado, olhando para o norte, vai ver.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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