Em áreas áridas de Ningxia, um projeto chinês une energia solar, cultivo agrícola e recuperação de solo para testar uma forma de conter o avanço da areia sem ocupar terras férteis.
A China passou a usar grandes usinas solares também como ferramenta de contenção da desertificação em áreas áridas do norte e do oeste do país.
Em Ningxia, região autônoma no noroeste chinês, painéis fotovoltaicos instalados sobre o solo reduzem a incidência direta do sol, ajudam a conter a ação do vento e protegem plantações de goji cultivadas sob as estruturas.
A estratégia faz parte de um plano nacional que prevê instalar 253 GW de energia solar entre 2025 e 2030 para recuperar cerca de 7 mil km² de terras degradadas, segundo informações da Reuters e de publicações especializadas em energia.
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A iniciativa foi relatada em uma instalação de 1 gigawatt operada pela Ningxia Baofeng Energy Group nos arredores de Yinchuan, capital de Ningxia.
No local, trabalhadores cuidam de arbustos de goji sob milhares de módulos solares, em uma área onde as estruturas reduzem a exposição do solo ao calor e diminuem a perda de umidade.
A empresa, que atua no setor químico ligado ao carvão, informou que pretende construir 30 GW de geração solar, parte deles com uso associado ao combate à desertificação.
De acordo com Liu Yuanguan, vice-presidente da companhia, um projeto semelhante, também de 1 GW, já está em operação em Majiatan, na mesma região.
Durante visita organizada pelo governo chinês à instalação, ele afirmou que os painéis ajudam a criar sombra sobre as plantas e o solo.
“Todos os painéis acima são como pequenos guarda-chuvas”, disse Liu.
Segundo o executivo, essa cobertura reduz a evaporação da umidade em uma área marcada por clima seco.
Energia solar no deserto ajuda a proteger plantações de goji
O uso dos painéis solares no deserto combina geração de eletricidade com técnicas de restauração de áreas degradadas.
As estruturas diminuem a incidência direta de radiação solar, reduzem a velocidade do vento próximo ao solo e criam condições menos agressivas para sementes, arbustos e culturas resistentes à seca.
Além da sombra, os projetos costumam incluir barreiras ao redor das áreas ocupadas pelas usinas para conter o deslocamento da areia.
A vegetação introduzida sob os painéis contribui para fixar o solo, enquanto a própria estrutura fotovoltaica diminui a exposição da superfície à erosão causada pelo vento.
Segundo o governo de Ningxia, esse tipo de intervenção pode levar até cinco anos para apresentar resultados visíveis.
A técnica não substitui métodos tradicionais, como o plantio de árvores e arbustos, mas passou a ser usada junto a ações de recuperação ambiental já adotadas pelo governo chinês.
Desde a década de 1970, o país executa campanhas para conter desertos e recuperar áreas afetadas por tempestades de areia, perda de cobertura vegetal e avanço de dunas sobre zonas produtivas.
Programa dos Três Nortes orienta combate à desertificação na China
A iniciativa está ligada ao programa conhecido como Three-North Shelterbelt, ou Programa de Cinturões Florestais dos Três Nortes, criado em 1978 e planejado para seguir até 2050.
O projeto abrange o norte, o nordeste e o noroeste da China, regiões que concentram desertos, áreas semiáridas e zonas sujeitas a tempestades de areia.
Em setembro de 2025, a energia solar foi incorporada de forma mais explícita à revisão do programa chinês de combate à desertificação, segundo a Reuters.
A presença dos projetos fotovoltaicos já aparecia em documentos de planejamento anteriores, mas passou a ter papel mais definido nas metas de recuperação de terras degradadas.
O plano citado por publicações especializadas foi elaborado pela Administração Nacional de Florestas e Pastagens, pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e pela Administração Nacional de Energia.
A meta é instalar 253 GW de capacidade solar e recuperar aproximadamente 673.670 hectares até 2030, o equivalente a cerca de 6.700 km².
A Reuters arredondou a área para aproximadamente 7 mil km², em comparação feita com cerca de quatro vezes o tamanho da Grande Londres.
Usinas solares em áreas áridas reduzem pressão sobre terras agrícolas
A instalação de painéis em áreas desérticas também está relacionada à disputa pelo uso da terra.
Em 2023, a China editou regras para impedir a instalação de painéis solares em terras agricultáveis, enquanto a imprensa estatal chinesa criticou o uso de áreas férteis para grandes projetos fotovoltaicos.
A construção de parte desses empreendimentos em regiões áridas reduz a pressão sobre áreas destinadas à produção de alimentos.
A disponibilidade de radiação solar também pesa na escolha desses locais.
Desertos e regiões semiáridas costumam registrar alta incidência de luz e menor concorrência por espaço do que áreas urbanas ou rurais produtivas.
Em contrapartida, projetos em áreas remotas podem exigir obras de conexão à rede elétrica, planejamento de transmissão e medidas de controle ambiental para evitar novos impactos sobre ecossistemas frágeis.
Publicações especializadas apontam que o plano chinês divide as áreas prioritárias por zonas climáticas e prevê regras para escolha de locais, construção e operação das usinas.
A diretriz oficial é combinar restauração ecológica e desenvolvimento energético, com critérios para impedir que a expansão solar amplie a degradação do solo.
Desertificação ainda ocupa parte significativa do território chinês
Apesar de décadas de reflorestamento e recuperação de solo, a desertificação ainda ocupa parcela significativa do território chinês.
Dados oficiais citados pela Reuters indicam que terras classificadas como desertificadas representavam 26,8% da área da China em 2024, ante 27,2% uma década antes.
A variação mostra que a reversão da degradação ocorre de forma gradual em ambientes de baixa disponibilidade hídrica.
No deserto de Taklamakan, em Xinjiang, a China concluiu em novembro de 2024 um cinturão verde de cerca de 3 mil quilômetros ao redor da área, depois de uma campanha iniciada há 46 anos.
Segundo a Reuters, mais de 30 milhões de hectares de árvores foram plantados desde o início do programa dos Três Nortes.
Ainda assim, especialistas ouvidos em reportagens sobre o tema apontam limitações, como baixa taxa de sobrevivência de algumas espécies e efeitos incertos sobre tempestades de areia em cidades distantes, como Pequim.
Em Baijitan, reserva natural localizada a algumas horas da instalação da Baofeng, décadas de trabalho recuperaram cerca de 800 km².
Para Wang Xiaoling, diretor da área, a meta não é eliminar os desertos, mas reduzir os danos provocados por sua expansão.
“É uma guerra prolongada para controlar o deserto”, afirmou. “Não podemos dizer que vamos eliminá-lo completamente.”
Capacidade renovável chinesa avança junto com projetos ambientais
O avanço dos projetos solares em áreas áridas ocorre em meio à ampliação da capacidade renovável chinesa.
Dados divulgados pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma indicam que a capacidade instalada combinada de geração eólica e fotovoltaica do país chegou a 1,67 bilhão de quilowatts até o fim de junho de 2025, superando a geração térmica.
Esse crescimento ajuda a explicar por que Pequim passou a associar grandes obras solares a outros objetivos, como recuperação ambiental e uso de áreas com baixa aptidão agrícola.
No caso de Ningxia, os painéis não têm apenas a função de gerar eletricidade, mas também integram um sistema de proteção do solo, cultivo de goji e contenção da areia.
A experiência conduzida pela Ningxia Baofeng Energy Group ainda representa uma parte pequena diante do volume anual de instalações solares na China.
Mesmo assim, o projeto mostra como o país vem testando modelos que combinam produção de energia, controle da desertificação e uso agrícola em regiões secas.
