A nova usina hidrelétrica de Daofu, na província chinesa de Sichuan, foi projetada para armazenar energia renovável em larga escala, reduzir desperdícios na rede e colocar a China ainda mais à frente na corrida global pelo armazenamento.
A usina hidrelétrica que a China está construindo no Planalto Tibetano resume bem o tamanho da ambição energética do país. Com capacidade instalada de 2.100 MW, o projeto de Daofu foi concebido para funcionar como uma enorme bateria natural, armazenando excedentes de energia renovável e liberando eletricidade quando a demanda aumenta ou quando faltam vento e sol.
Mais do que uma obra grandiosa, a iniciativa mira um dos maiores gargalos da transição energética global: o armazenamento. Sem estrutura para guardar a eletricidade produzida em excesso, parte relevante da energia limpa pode ser desperdiçada, o que reduz a eficiência do sistema e pressiona a estabilidade da rede.
A usina hidrelétrica que transforma água em armazenamento de energia
A futura usina hidrelétrica de Daofu foi lançada há dois anos pela estatal Yalong River Hydropower Development Company, na Prefeitura Autônoma Tibetana de Garze, em Sichuan, no sudoeste da China.
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O complexo terá dois reservatórios, uma conduta forçada, uma subestação subterrânea escavada na rocha e uma subestação de superfície.
Na prática, trata se de uma usina hidrelétrica de bombeamento, tecnologia usada para armazenar energia em larga escala. Quando há sobra de eletricidade, a água é bombeada para o reservatório superior.
Depois, quando o sistema precisa dessa energia, a água desce novamente e movimenta as turbinas para gerar eletricidade. É esse mecanismo que faz a montanha funcionar como uma espécie de bateria gigante.
Por que o projeto de Daofu chama tanta atenção
Quando entrar em operação, Daofu será a usina hidrelétrica de bombeamento em maior altitude do mundo, superando em 700 metros a atual recordista, a usina do Lago Yamzho Yumco, na Região Autônoma do Tibete.
Esse detalhe não é apenas simbólico. Construir em altitude extrema exige soluções técnicas mais sofisticadas e amplia o valor estratégico da obra.
O projeto mostra que a China quer dominar não só a geração renovável, mas também a engenharia necessária para sustentar esse avanço em ambientes severos.
O problema que a usina hidrelétrica tenta resolver
A produção de energia solar e eólica cresce rapidamente, mas ainda enfrenta um obstáculo central: a intermitência. Em dias de muito vento ou muito sol, o sistema pode gerar mais eletricidade do que consome. Sem armazenamento, esse excedente se perde.
Já nos momentos de pico de demanda, ou quando as condições climáticas mudam, a rede precisa de reserva para manter o fornecimento.
É aí que a usina hidrelétrica ganha importância. Daofu será integrada ao ecossistema de energia limpa do rio Yalong, que hoje opera com 21.000 MW de capacidade combinando hidrelétrica, solar e eólica, com meta de chegar a 78.000 MW até 2035.
Sem armazenamento em larga escala, uma parte desse avanço poderia simplesmente não ser aproveitada da melhor forma.
Os números impressionantes da mega obra chinesa
Os dados ligados ao projeto ajudam a explicar por que Daofu virou referência internacional. A usina hidrelétrica terá 2.100 MW de capacidade instalada, distribuídos em seis turbinas geradoras reversíveis de 350 MW cada.
Segundo as informações divulgadas, o complexo poderá armazenar 12,6 GWh por dia, volume suficiente para atender o consumo diário de dois milhões de famílias em Sichuan. Além disso, a geração anual prevista é de 3 TWh, considerando os ciclos de carga e descarga.
Outro número que chama atenção é a diferença de altitude entre os reservatórios superior e inferior, de 760,7 metros. O investimento total chega a 15,1 bilhões de yuans. É uma escala que reforça o peso da obra na estratégia energética chinesa.
Construir a 4.300 metros é um desafio fora do comum
A altitude extrema é um dos pontos mais delicados da construção. A cerca de 4.300 metros, o ar rarefeito pode provocar hipóxia, dificultando o trabalho humano e impondo restrições também às máquinas e aos equipamentos.
As temperaturas abaixo de zero e a localização remota aumentam ainda mais a complexidade. Transportar aço, concreto e outros materiais pesados para uma área com infraestrutura limitada exige planejamento rigoroso.
Não se trata apenas de erguer uma usina hidrelétrica, mas de fazê la em um dos ambientes mais desafiadores do planeta.
China acelera a corrida global pelo armazenamento
A obra de Daofu também tem peso geopolítico e industrial. A China já lidera a expansão da energia renovável e busca consolidar a dianteira no armazenamento.
O país encerrou 2024 com 58 GW de capacidade instalada de armazenamento por bombeamento e pretende ultrapassar 120 GW até 2030.
Esse avanço indica que Pequim enxerga o armazenamento como peça central da transição energética. As baterias crescem rapidamente, mas o bombeamento hidrelétrico ainda é a tecnologia com maior capacidade instalada no mundo para guardar grandes volumes de energia por períodos mais longos. Daofu entra nesse cenário como um projeto que une escala, inovação e valor estratégico.
O que Daofu pode representar para o futuro da energia
A nova usina hidrelétrica do Tibete não é apenas mais uma obra monumental da China. Ela aponta para um caminho que pode se tornar cada vez mais necessário em um mundo que depende de fontes renováveis: construir infraestrutura capaz de armazenar energia em grande escala, reduzir perdas e dar mais estabilidade à rede elétrica.
Ao mesmo tempo, o projeto serve como laboratório tecnológico. Os avanços obtidos em Daofu podem acelerar outras iniciativas semelhantes no país.
Se der certo como planejado, o impacto vai além da montanha chinesa e pode influenciar o futuro do armazenamento energético global.
Você acha que obras gigantes como essa são a melhor saída para resolver o desafio do armazenamento de energia no mundo?


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