Rover chinês revela que Marte pode ter tido água até 750 milhões de anos atrás, desafiando modelos climáticos e reabrindo debates sobre habitabilidade.
Em janeiro de 2026, um estudo publicado na revista científica National Science Review e divulgado pela Academia Chinesa de Ciências (CAS) revelou um dado que mexe com a cronologia oficial de Marte: análises do rover Zhurong, que pousou no planeta em 15 de maio de 2021 na região de Utopia Planitia, mostram que a água pode ter deixado marcas e moldado o subsolo marciano até cerca de 750 milhões de anos atrás, muito mais tarde do que o consenso científico tradicional, que estimava o fim da atividade hídrica significativa entre 3 e 3,5 bilhões de anos atrás.
China e a nova cronologia hídrica de Marte
A narrativa clássica da ciência dizia que Marte foi úmido no passado remoto, mas secou “definitivamente” ao longo do tempo, tornando-se um deserto gelado incapaz de manter água líquida há bilhões de anos. O que o rover Zhurong encontrou coloca essa linha do tempo em xeque.
Os cientistas identificaram camadas sedimentares e estruturas geológicas no subsolo de Utopia Planitia que, segundo o estudo, são consistentes com processos de congelamento, degelo, infiltração e reprecipitação associados à presença de água em estado líquido ou semilíquido durante o chamado período Amazônico tardio.
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Esse período vai de cerca de 3 bilhões de anos atrás até 700 milhões de anos atrás, o que significa que o planeta pode ter mantido ciclos de água muito mais recentemente do que se imaginava.
Onde o rover trabalhou e como o achado foi feito
O Zhurong pousou em Utopia Planitia, uma bacia gigante no hemisfério norte marciano. Depois de pousar, o veículo percorreu 1.921 metros entre 2021 e 2022 até entrar em modo offline.
Durante esse período, ele usou um radar de penetração de solo para “enxergar” o que estava escondido a vários metros de profundidade.
Esse radar detectou camadas horizontais e depósitos estratificados que lembram padrões deixados por movimentos de água congelada, especialmente quando gelo derrete e volta a congelar, alterando a estrutura dos grãos e formando sequências sedimentares compactadas.
Segundo o estudo, as camadas aparecem a dezenas de metros de profundidade e possuem espessuras e padrões que seriam difíceis de explicar apenas com vento ou fluxos de lava, fatores que também moldam Marte.
Por que isso importa cientificamente
Se Marte manteve água disponível até 750 milhões de anos atrás, três grandes implicações surgem para a comunidade científica:
A primeira é climática: ou Marte teve ciclos de aquecimento capazes de derreter gelo superficial e subterrâneo, ou manteve fluxos brines (misturas salinas) por longos períodos.
A segunda é geológica: a dinâmica sedimentar do período Amazônico pode estar incompleta, já que o planeta não seria apenas um deserto estático, mas um corpo com interações periódicas entre temperatura, gelo e sais.
A terceira é astrobiológica: ambientes com salinidade elevada e degelo periódico são candidatos bem conhecidos na Terra para abrigar formas microbianas resilientes. Isso não significa que Marte teve vida, mas abre mais janelas temporais para a possibilidade.
“A água é mais recente do que pensávamos” — o novo consenso emergente
A presença de estruturas sedimentares amazônicas já havia sido sugerida em órbitas anteriores feitas por satélites americanos e europeus. Mas o diferencial da China é que agora há dados de solo, coletados ali, no terreno, e medidos por um rover que fez tomografia geológica do subsolo marciano.
Esse movimento coloca Zhurong dentro do seleto grupo de instrumentos que já mudaram a cronologia de Marte. Antes dele, missões como Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) já haviam mostrado depósitos de sais hidratados e canais erosivos relativamente jovens. Agora, com o rover chinês, o debate ganha evidência de campo.
E o futuro da pesquisa?
Zhurong não está mais ativo no momento, o rover entrou em modo silencioso em 2022 e ainda não retomou comunicações. Porém, os dados coletados seguem sendo analisados por anos.
A tendência é que futuras missões, tanto chinesas quanto americanas e europeias, priorizem regiões jovens, onde marcas de água podem estar congeladas, preservadas ou fossilizadas no subsolo.
Se a data de 750 milhões de anos for confirmada por mais amostras e mais instrumentos, o modelo climático de Marte precisará ser reescrito.
O achado reforça uma mensagem simples, mas poderosa: Marte não foi um planeta morto tão cedo quanto se imaginava. A água pode ter circulado, congelado e derretido em ciclos tardios, criando oportunidades para química complexa e, quem sabe, algo mais.

