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China planta uma “muralha verde” de mais de 500 mil km² para frear o maior deserto do país, faz o Gobi recuar quase 2 mil km² por ano depois de avançar 10 mil, e transforma a areia em floresta, usina solar e rodovia de carbono zero

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 07/07/2026 às 14:12 Atualizado em 07/07/2026 às 14:16
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China planta uma muralha verde de mais de 500 mil km² e faz o deserto de Gobi recuar 2 mil km² por ano, transformando areia em floresta e usina solar; veja
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O documentário da Area Inventiva percorre o programa florestal dos Três Nortes, o cinturão verde ao redor do Taklamakan e as usinas solares no deserto, mostrando como a China desacelerou a desertificação e começou a recuperar terra onde antes só havia areia

Ver um dos maiores desertos do mundo recuar em vez de avançar é o tipo de virada que impressiona até especialistas. Segundo o canal Area Inventiva, em documentário publicado em dezembro de 2024, a China ergue uma verdadeira muralha verde no norte do país e desde o fim dos anos 1970 planta florestas em escala colossal para conter o deserto e reverter a desertificação.

Os números do programa são de arrepiar. A muralha verde do programa florestal dos Três Nortes já plantou mais de 500 mil km² de florestas, a maior área verde criada pelo ser humano, e ajudou a frear o deserto de Gobi, que avançava quase 10 mil km² por ano nos anos 1980 e hoje recua cerca de 2 mil km² por ano, conforme a Area Inventiva mostra. Não é só paisagem: a mudança absorve carbono e transforma a vida de comunidades inteiras.

O programa dos Três Nortes e os 500 mil km² de floresta

O plano nasceu inspirado na Grande Muralha. Segundo a Area Inventiva, desde o fim da década de 1970 a China toca o programa florestal de abrigo dos Três Nortes, uma barreira verde pensada para frear o avanço do deserto e revitalizar áreas degradadas, hoje a maior floresta plantada pelo homem no planeta e a espinha dorsal da muralha verde chinesa.

A mobilização popular é parte do segredo. Um exemplo é o de uma moradora que, com o marido, dedicou quatro décadas ao plantio em meio à areia e revitalizou 300 km², inspirando comunidades locais a se unirem ao esforço, peça central de um programa que mira transformar mais 350 mil km² até 2050, conforme a Area Inventiva relata. A ciência entra com técnicas para fazer árvore crescer em solo árido e monitorar o clima para garantir a floresta no longo prazo.

De 10 mil km² de avanço a 2 mil de recuo por ano

Uma máquina de plantio trabalha na recuperação do solo, no combate à desertificação.
Uma máquina de plantio trabalha na recuperação do solo, no combate à desertificação.

A inversão da tendência é o dado mais forte. Segundo a Area Inventiva, o Gobi, sexto maior deserto do planeta, chegou a engolir quase 10 mil km² por ano nos anos 1980, e dados recentes mostram que a desertificação não só desacelerou como parte do deserto começou a recuar, com uma redução anual de cerca de 2 mil km².

Esse recuo tem efeito em cadeia. Ao segurar a areia, a muralha verde devolve espaço para a flora e a fauna, com espécies antes ameaçadas voltando às áreas recuperadas, e abre novas formas de renda para agricultores por meio de cultivo sustentável e agrofloresta, conforme a Area Inventiva registra. É a prova de que conter a desertificação vai muito além do impacto visual, mexendo com biodiversidade e economia ao mesmo tempo.

O cinturão verde ao redor do Taklamakan e o saxaul

O outro gigante de areia recebeu um cerco próprio. Segundo a Area Inventiva, o deserto de Taklamakan, com dunas móveis de até 300 metros de altura e apelidado de mar da morte, ganhou um cinturão verde de mais de 3 mil km ao redor, erguido ao longo de quatro décadas com o trabalho de mais de 600 mil pessoas.

As árvores foram escolhidas a dedo para o extremo. Espécies resistentes como o choupo do deserto, o salgueiro vermelho e o saxaul foram plantadas por aguentarem a aridez, e o saxaul ainda rende recursos medicinais e melhora o solo, transformando a paisagem desolada em áreas verdes que já dão sinais de clima mais ameno e agricultura possível, conforme a Area Inventiva detalha. Essa muralha verde ao redor do Taklamakan é um dos maiores projetos de reflorestamento da história recente.

Areia que vira energia solar e rodovia de carbono zero

O desenvolvimento urbano que pressiona rios e lagos, como no caso do Poyang.
O desenvolvimento urbano que pressiona rios e lagos, como no caso do Poyang.

O deserto virou também uma central de energia limpa. Segundo a Area Inventiva, no deserto de Dunhuang uma usina solar térmica de 12 mil espelhos usa sal fundido para armazenar calor e gerar energia dia e noite, com capacidade de 390 milhões de kWh por ano, enquanto no deserto de Kubuqi 196 mil painéis solares formam a maior instalação fotovoltaica da região, no formato de um cavalo galopante.

O impacto ambiental acompanha a estética. A usina de Kubuqi já economizou 760 mil toneladas de carvão e evitou quase 2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, e a energia solar ainda ajuda no reflorestamento, com jatos de alta pressão para plantio rápido cobrindo hoje cerca de um terço daquele deserto de vegetação, conforme o canal Area Inventiva no YouTube aponta. A energia solar no deserto vira, assim, aliada da muralha verde. Há até uma rodovia de carbono zero cortando o Taklamakan, com poços de irrigação e usinas solares que substituíram o diesel.

A ferrovia de 700 km e os 10 mil que limpam os trilhos

Cruzar o mar de areia exigiu engenharia de guerra. Segundo a Area Inventiva, uma linha férrea de cerca de 700 km foi construída onde quase nenhuma via terrestre seria viável, com 180 pontes e mais de mil túneis, operando carga desde 2009 e passageiros no ano seguinte.

Manter os trilhos livres é uma batalha diária. Tempestades de areia cobrem a via e dunas se movem sem parar, o que mobilizou cerca de 10 mil pessoas para retirar toneladas de areia dos trilhos com pás sob calor extremo, além de barreiras de areia, redes e plantio de árvores ao longo do trajeto para segurar as dunas, conforme a Area Inventiva descreve. A ferrovia integra regiões isoladas e escoa carvão essencial para a economia local.

O contraponto honesto: a areia que suga o lago Poyang

Nem toda a relação da China com a areia é virtuosa. Segundo a Area Inventiva, enquanto o deserto é reflorestado, a construção civil retira areia em quantidades colossais de rios e lagos, e o lago Poyang, maior reservatório de água doce do país, teve o nível rebaixado pela extração contínua, prejudicando a biodiversidade e a renda dos pescadores.

O paradoxo é revelador. A areia do deserto tem grão inadequado para construção, então a indústria segue tirando areia de rios e lagos em vez de usar a do deserto ou material reciclado, e a mineração no Poyang comprometeu até o papel do lago de conter as cheias do rio Yangtze, conforme a Area Inventiva pondera. É o lembrete de que reverter a desertificação num lado não apaga o custo ambiental do desenvolvimento no outro.

O que a batalha da China ensina ao Brasil

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O tema tem endereço no Brasil também. O país convive com a arenização no sudoeste do Rio Grande do Sul, com focos de degradação no semiárido nordestino e com o avanço da desertificação em áreas da caatinga, problemas que pedem exatamente o tipo de reflorestamento e manejo de solo que a muralha verde chinesa aplica.

A lição chinesa serve de espelho e de alerta. A experiência mostra que conter a desertificação com plantio em massa, escolha de espécies resistentes e mobilização de comunidades é possível, mas também que sacrificar rios e lagos por areia de construção gera danos difíceis de reverter, um equilíbrio que o Brasil enfrenta na caatinga e nos areais gaúchos, um contexto ambiental consolidado. Do Gobi ao semiárido, a conta é a mesma: recuperar terra degradada é obra de décadas, e destruir o que sobra é questão de anos.

O vídeo percorre a muralha verde dos Três Nortes, o cinturão do Taklamakan, as usinas solares do deserto, a ferrovia de 700 km e o contraponto do lago Poyang.

A batalha da China contra a areia prova que dá para fazer o deserto recuar, desde que o esforço não vire desculpa para destruir rios e lagos. Conta pra gente nos comentários: tu acreditavas que um deserto do tamanho do Gobi pudesse recuar?

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Bruno Teles

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