Enquanto a China comemora o reverdecimento entre 2001 e 2020, cientistas revelam que o reflorestamento alterou o ciclo da água, secou regiões que somam 74 por cento do território, levou chuva extra ao Planalto Tibetano e criou um possível desastre hídrico silencioso para milhões de moradores no norte e noroeste.
Durante décadas, a China apostou em programas massivos de reflorestamento para conter a desertificação, recuperar áreas degradadas e enfrentar o aquecimento global. Um estudo publicado na revista científica Earth’s Future, com dados coletados entre 2001 e 2020, mostra agora que esse reverdecimento mudou a forma como a água circula pelo país.
Os pesquisadores concluíram que as novas florestas intensificaram a evapotranspiração, alteraram o regime de chuvas e reduziram a disponibilidade de água em grande parte do território chinês. Regiões secas do leste e do noroeste perderam água enquanto o Planalto Tibetano passou a receber mais precipitação, abrindo um cenário de desastre hídrico silencioso para milhões de pessoas e para a agricultura da China.
Reverdecimento em escala inédita

Imagem: An et al. (2025) O Futuro da Terra, Creative Commons CC BY-NC 4.0 FONTE: UOL
O trabalho liderado pelo pesquisador Arie Staal, da Universidade de Utrecht, analisou como as mudanças na cobertura do solo entre 2001 e 2020 alteraram o ciclo hidrológico da China.
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Segundo ele, o país promoveu um reverdecimento em escala massiva, com destaque para áreas como o Planalto de Loess, onde o plantio de árvores e a recuperação de vegetação natural reativaram o ciclo da água em regiões antes extremamente degradadas.
Esse processo faz parte de um movimento global de aumento de áreas verdes desde o início dos anos 2000.
De acordo com o estudo, a China responde por cerca de 25 por cento do aumento mundial da área verde registrado entre 2000 e 2017, resultado de políticas agressivas de reflorestamento e recuperação de pastagens. Em vez de apenas estabilizar o solo, essas mudanças passaram a interferir diretamente em onde e quando a chuva cai.
Os autores apontam que a reciclagem de umidade atmosférica se tornou mais intensa.
Ou seja, mais água evapora da superfície, viaja pela atmosfera e volta em forma de chuva, muitas vezes em regiões diferentes daquelas onde foi originalmente retirada do solo.
É essa redistribuição silenciosa que está redesenhando o mapa da água dentro da China.
Evapotranspiração: quando a floresta bebe mais água
A chave para entender o fenômeno está na evapotranspiração, o processo em que plantas retiram água do solo e a liberam na forma de vapor para a atmosfera.
Tanto pastagens quanto florestas aumentam a evapotranspiração, mas as árvores consomem bem mais água, sobretudo durante as fases de crescimento, graças a raízes profundas que alcançam reservas subterrâneas mesmo em períodos de seca.
O estudo mostra que, entre 2001 e 2020, a evapotranspiração média na China aumentou 1,71 milímetro por ano.
Nesse mesmo período, a precipitação também cresceu, porém em ritmo menor, insuficiente para compensar o consumo extra de água pelas novas florestas e áreas de vegetação restaurada. O resultado é uma redução líquida da disponibilidade de água em escala nacional.
Arie Staal resume o paradoxo: o reverdecimento intensifica o ciclo da água, mas, em muitas localidades, mais água deixa o sistema terrestre do que retorna como chuva no mesmo lugar. Em outras palavras, a superfície fica mais verde, porém o solo mais seco, especialmente em regiões que já sofriam com a escassez hídrica na China.
74 por cento da China com menos água disponível
Os mapas apresentados no estudo revelam que o impacto do reflorestamento não foi homogêneo. Regiões do leste e do noroeste da China, muitas delas densamente povoadas ou com forte presença de agricultura, registraram queda consistente na disponibilidade de água. Juntas, essas áreas representam aproximadamente 74 por cento do território chinês, configurando uma mudança gigantesca na geografia hídrica do país.
A situação mais crítica foi observada na chamada Região Árida do Noroeste. Segundo os autores, essa área registrou a maior queda na disponibilidade de água, com redução média de 1,14 milímetro por ano, justamente em uma das zonas mais vulneráveis à seca.
Enquanto isso, florestas plantadas na região de monções do leste e a recuperação de pastagens no noroeste elevaram fortemente o consumo de água local.
Parte da umidade gerada nesses novos ecossistemas foi transportada pelos ventos e acabou precipitando sobre o Planalto Tibetano, área conhecida como a “torre de água” da Ásia, por abrigar nascentes de grandes rios.
Assim, a China está transferindo água de regiões já pressionadas para uma região de altitude, alterando a balança hídrica interna sem qualquer obra de engenharia visível.
Pressão extra sobre a agricultura e os grandes projetos de água
O alerta é ainda mais grave porque a distribuição natural de água na China já é historicamente desigual. O norte do país concentra cerca de 46 por cento da população, 60 por cento das terras agrícolas e apenas 20 por cento dos recursos hídricos nacionais.
É justamente essa região que vem sendo afetada por perdas de água associadas ao reverdecimento e às mudanças na cobertura do solo.
Para reduzir esse desequilíbrio, o governo chinês investiu em megaprojetos de transferência de água, como canais e sistemas que levam recursos hídricos do sul úmido para o norte mais seco.
Os autores do estudo alertam que essas iniciativas podem falhar ou se tornar insuficientes se não considerarem o efeito das novas florestas sobre o ciclo hidrológico, já que parte da água que antes seria captada por rios locais agora é desviada pela evapotranspiração das árvores.
Arie Staal defende que, do ponto de vista dos recursos hídricos, cada mudança na cobertura do solo precisa ser analisada caso a caso, levando em conta quanto de água volta à superfície na forma de chuva e em que região essa precipitação ocorre.
Sem esse ajuste fino, programas bem-intencionados de reflorestamento têm o potencial de agravar a escassez em áreas agrícolas estratégicas da China.
China verde, planeta em alerta
O caso da China mostra que grandes programas de reflorestamento não podem ser avaliados apenas pela ampliação da área verde ou pela captura de carbono.
Há benefícios climáticos importantes, mas existe um custo hídrico que pode recair justamente sobre comunidades rurais, cidades médias e cinturões agrícolas já vulneráveis.
O “verde” visto do espaço esconde solos mais secos em vastas porções do território.
Para os cientistas, a experiência chinesa é um aviso para outros países que planejam projetos de reflorestamento em larga escala.
Políticas de clima, uso do solo e gestão da água precisam ser integradas, considerando desde o comportamento das raízes das árvores até o caminho das nuvens que transportam a umidade.
Diante desse cenário, você acha que a China deveria repensar onde planta suas florestas para evitar transformar um projeto ambiental em um novo tipo de crise hídrica silenciosa?
