Maior hidrelétrica do mundo, obra da China no Tibete levanta alertas na Índia, Bangladesh e entre tribos afetadas pelo represamento do rio
A China deu início à construção de um dos projetos mais ambiciosos de sua história recente: a maior usina hidrelétrica do mundo, localizada no Rio Yarlung Tsangpo, em território tibetano. A obra, chamada oficialmente de Estação Hidrelétrica de Motuo, foi inaugurada no sábado (19) em uma cerimônia presidida pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
O projeto, segundo autoridades chinesas, tem como objetivo impulsionar o desenvolvimento local e gerar energia limpa.
Com um custo estimado de 1,2 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de R$ 928 bilhões, a barragem vai superar em tamanho e capacidade a atual maior usina do mundo, a de Três Gargantas.
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Quando estiver em operação, a nova hidrelétrica poderá produzir três vezes mais energia do que sua antecessora.
Preocupações com países vizinhos
Apesar dos discursos oficiais destacarem os benefícios da obra, o projeto tem causado grande preocupação em países localizados a jusante do rio, como Índia e Bangladesh.
Isso porque o Yarlung Tsangpo atravessa o Planalto Tibetano e segue em direção ao sul, alimentando importantes rios que abastecem milhões de pessoas nesses países.
Em janeiro deste ano, o Ministério das Relações Exteriores da Índia afirmou que o governo indiano expressou diretamente à China sua preocupação com o impacto das megabarragens.
A Índia também ressaltou a necessidade de transparência e diálogo com os países afetados. Em resposta, o governo chinês reafirmou que tem o “direito legítimo” de represar o rio e disse que os impactos já haviam sido considerados.
“Bomba de água” e risco para tribos
O ministro-chefe do Estado de Arunachal Pradesh, na Índia, Pema Khandu, disse em entrevista que os efeitos da barragem poderão ser devastadores para as tribos locais.
Segundo ele, os rios Siang e Brahmaputra podem “secar consideravelmente” quando a represa estiver pronta.
Khandu afirmou que o projeto representa uma “ameaça existencial” para os povos indígenas da região, como a tribo Adi.
Ele alertou para o risco de a China usar a barragem como uma “bomba de água”, liberando grandes volumes de forma repentina e inundando comunidades inteiras. “Todo o nosso cinturão de Siang vai ser destruído”, disse.
Bangladesh também questiona
Bangladesh, outro país impactado pelo curso do rio, também expressou sua preocupação. Em fevereiro, autoridades do país enviaram uma carta oficial à China solicitando mais detalhes sobre a construção e os efeitos previstos da barragem.
A construção de grandes hidrelétricas no Tibete tem sido um tema delicado na região. O local onde será instalada a nova barragem fica em um dos cânions mais profundos e extensos do planeta.
Ali, o Rio Yarlung Tsangpo faz uma curva em “U” ao redor da montanha Namcha Barwa, em uma queda abrupta de altitude, criando um cenário propício para a geração de energia.
Túneis e cinco usinas em cascata
Reportagens anteriores já indicavam que o governo chinês planejava perfurar túneis de até 20 quilômetros através da montanha, desviando parte do rio.
Agora, segundo a agência de notícias Xinhua, o plano é construir cinco estações de energia em cascata, conectadas por obras de “realinhamento” do curso da água.
A eletricidade gerada será utilizada tanto para abastecer o Tibete quanto para ser enviada a outras regiões do país.
Isso faz parte da política do presidente Xi Jinping conhecida como “xidiandongsong”, que significa “envio de eletricidade do oeste para o leste”, priorizando as grandes cidades chinesas.
Apesar da retórica oficial sobre prosperidade local, ativistas tibetanos denunciam que os grandes projetos energéticos servem para explorar a terra e os recursos da região, sem considerar os impactos sociais e ambientais. Em episódios anteriores, protestos contra barragens resultaram em prisões e agressões.
No ano passado, centenas de tibetanos foram detidos após manifestações contra outra usina hidrelétrica. Segundo apuração da BBC, houve pessoas feridas durante as operações policiais. As manifestações foram duramente reprimidas, com uso da força.
Maior hidrelétrica do mundo: questões ambientais
Além das tensões políticas e sociais, especialistas alertam para os riscos ambientais da obra. Os vales do Tibete, onde a barragem será construída, são reconhecidos por sua biodiversidade.
Há preocupação com a inundação de áreas naturais e com a estabilidade geológica do terreno, que possui várias falhas sísmicas.
A construção de represas nessa região pode aumentar o risco de terremotos, alertam ambientalistas.
A barragem de Motuo segue sendo apresentada pela China como um símbolo de desenvolvimento e energia limpa.
No entanto, as vozes contrárias continuam a ecoar na Índia, em Bangladesh e entre os tibetanos, que veem no projeto uma ameaça direta à sobrevivência de seus rios, culturas e modos de vida.
Com informações de BBC.
