Comércio internacional de pele de jumento pressiona uma espécie símbolo do semiárido, expõe falhas de rastreabilidade no Brasil e levou Senado e Justiça Federal a avançarem em medidas contra o abate, em meio à queda acelerada da população desses animais no país.
O comércio de jumentos para abastecer a indústria chinesa de pele e colágeno passou a incidir sobre uma espécie associada historicamente ao semiárido nordestino, em um cenário marcado por abandono de animais, baixa rastreabilidade e redução acelerada do rebanho no Brasil.
No Ceará, animais negociados informalmente por valores que podem variar de R$ 1 a R$ 10 entram em uma cadeia internacional na qual a pele, após processamento, pode alcançar cerca de R$ 1.500 no mercado asiático, segundo informações atribuídas a especialistas ouvidos sobre o tema.
A pressão sobre a espécie levou a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado a aprovar, no último dia 20, a transformação da SUG 9/2025 em projeto de lei para proibir o abate de jumentos em todo o território nacional.
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Apresentada pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a sugestão legislativa passou a tramitar como proposta após ser acolhida pela comissão, conforme registros do Senado sobre a matéria e o andamento da discussão no colegiado.
Entre os argumentos apresentados no debate estão a proteção animal, o risco de redução extrema da espécie e preocupações sanitárias relacionadas à origem e ao transporte dos animais destinados ao abate.
O relatório da comissão aponta que a forma de transporte e comercialização dos jumentos abatidos pode afetar a biossegurança e prejudicar a imagem do agronegócio brasileiro, setor que depende de padrões sanitários reconhecidos em mercados internacionais.
Comércio de pele de jumento expõe falhas de rastreabilidade
Embora a pele do jumento abasteça uma atividade associada ao ejiao, produto feito com colágeno e usado na China, especialistas afirmam que essa cadeia não apresenta bases sustentáveis para se consolidar como oportunidade ao agronegócio local.
A baixa capacidade reprodutiva da espécie, somada à falta de controle sobre a origem dos animais e aos impactos do transporte prolongado, é apontada por pesquisadores e entidades de proteção animal como obstáculo a um modelo de criação em escala.
Patrícia Tatemoto, coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary, afirma que a gestação das jumentas dura entre 12 e 13 meses e, em condições normais, costuma resultar em apenas um filhote.
De acordo com a especialista, a maturidade reprodutiva e o desenvolvimento físico completo costumam ocorrer entre três e cinco anos, ritmo considerado distante daquele observado na pecuária bovina comercial.
“Na pecuária comercial, muitas fêmeas bovinas já entram em reprodução entre 14 e 24 meses, e a gestação das vacas dura cerca de 9 meses”, compara a especialista.
Outro ponto citado por Tatemoto é a sensibilidade dos jumentos ao estresse, à superlotação e às longas viagens, fatores que podem elevar riscos de aborto, adoecimento e morte dos animais durante a cadeia de transporte.

Essa avaliação é reforçada por estudos mencionados pela The Donkey Sanctuary em relatórios sobre o comércio internacional de peles de jumento e seus efeitos sobre populações locais.
Um trabalho da Universidade de Reading estimou que um rebanho de 200 mil fêmeas, mantido em condições altamente favoráveis, levaria 15 anos ou mais para produzir 1,2 milhão de peles.
A demanda anual da indústria do ejiao, segundo a organização, é estimada em pelo menos 5,9 milhões de animais abatidos no mundo, número superior à capacidade de reposição apontada pelos estudos citados.
Jumento nordestino perdeu função econômica tradicional
No Brasil, a função tradicional do jumento esteve ligada principalmente ao trabalho rural, e não à produção industrial em escala, conforme explicam pesquisadores que estudam a relação da espécie com comunidades do semiárido.
Durante décadas, o animal foi usado no transporte de água, carga e pessoas no semiárido, sobretudo em áreas onde estradas precárias e longas distâncias dificultavam o acesso cotidiano a veículos motorizados.
Com a expansão de motos, tratores e automóveis, parte desses animais deixou de ter a mesma função econômica nas comunidades rurais, o que contribuiu para ampliar situações de abandono e circulação em vias públicas.
Sem mercado formal estruturado e com baixo valor de revenda, muitos jumentos passaram a ser capturados ou negociados por valores reduzidos, alimentando uma cadeia baseada mais na retirada de animais de estradas e propriedades do que em criação planejada.
“É exatamente por essa razão que nenhum grande grupo do agronegócio no Brasil se interessou em desenvolver uma cadeia formal de criação de jumentos até hoje. Em nenhum lugar do mundo a venda de peles de jumentos é economicamente viável diante da atual e crescente demanda do mercado de ejiao”, afirma Tatemoto.
A professora Débora Façanha, da pós-graduação em Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, também aponta dificuldades para a formação de uma cadeia produtiva estruturada.
Na avaliação da pesquisadora, antes de discutir retorno econômico, é necessário reconhecer o valor ecológico, histórico e cultural do jumento nordestino e construir políticas voltadas à conservação da espécie.
População de jumentos caiu mais de 94% no Brasil
A população de jumentos no país registrou forte retração nas últimas décadas, de acordo com dados reunidos pela The Donkey Sanctuary a partir de bases como FAO, IBGE e Agrostat.

Os levantamentos divulgados pela entidade indicam que o rebanho brasileiro caiu de 1,37 milhão de animais em 1999 para cerca de 78 mil em 2025, o que representa uma redução superior a 94%.
No Ceará, os números disponíveis também mostram recuo expressivo no efetivo de asininos, espécie que por muito tempo esteve associada ao cotidiano produtivo e social de áreas rurais do estado.
Entre 1995 e 2017, a quantidade de asininos caiu de 193.176 para 53.233 cabeças, queda superior a 72%, conforme dados mencionados em levantamentos sobre o rebanho cearense.
Ainda em 2017, os estabelecimentos com efetivo de asininos representavam pouco mais de 12% dos quase 299 mil estabelecimentos agropecuários existentes no Ceará.
A Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará informou que não há trabalho comercial voltado ao jumento no estado, o que limita a existência de monitoramento específico sobre a atividade.
Em nota, a pasta afirmou que, sem atividade formal, também não existe registro de empresários interessados em investir no setor, descrito pelo órgão como uma prática historicamente tratada de forma informal.
Animais capturados no Ceará seguem para frigoríficos na Bahia
A comercialização no Ceará ocorre principalmente por meio da captura de jumentos abandonados ou da compra de animais por preços muito baixos, segundo informações de especialistas e entidades que acompanham a cadeia.
Após essa etapa, os animais são reunidos em fazendas de espera e transportados para a Bahia, onde ficam frigoríficos brasileiros associados à exportação de produtos derivados para a China.
As unidades citadas por especialistas e entidades de proteção animal estão localizadas em Amargosa, Itapetinga e Simões Filho, municípios baianos ligados ao processamento de animais destinados ao comércio externo.
Como o foco econômico da atividade está na pele, a carne tende a ocupar papel secundário na cadeia e, conforme relatos de entidades que acompanham o setor, pode ter aproveitamento comercial limitado.
A The Donkey Sanctuary aponta falta de transparência sobre origem, volume abatido, rotas de transporte, condições sanitárias e destino das carcaças como um dos principais problemas do comércio internacional de peles.
A entidade também afirma que a ausência de um código aduaneiro específico para pele de jumento dificulta a medição precisa do comércio e amplia incertezas sobre a dimensão real da atividade no país.
Entre as preocupações sanitárias citadas por especialistas estão doenças que podem circular entre equídeos, como o mormo, zoonose grave que exige controle rigoroso por parte de autoridades agropecuárias.
Para entidades de proteção animal, a falta de rastreabilidade aumenta o risco de disseminação de enfermidades e pode gerar impactos que ultrapassam a discussão sobre bem-estar animal.
Justiça Federal proíbe abate de jumentos na Bahia
Na Bahia, estado associado aos frigoríficos citados no comércio de peles de jumento para exportação, a atividade foi proibida por decisão da 1ª Vara Federal da Seção Judiciária do estado.
A sentença, proferida em abril de 2026, determinou a proibição do abate de jumentos, muares e bardotos ao reconhecer maus-tratos, transporte inadequado e risco à sobrevivência da espécie.
A decisão julgou parcialmente procedente uma ação civil pública movida por entidades de proteção animal contra a União, o Estado da Bahia e a Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia.
Segundo a Justiça Federal, o processo discutia falhas ligadas às condições de manejo, transporte e abate desses animais, além de possíveis impactos sobre a manutenção da população de asininos.
Em âmbito internacional, a discussão sobre o comércio de peles de jumento também avançou em organismos regionais, especialmente em países onde esses animais têm papel econômico e social relevante para comunidades rurais.
Em fevereiro de 2024, a União Africana aprovou uma proibição continental ao abate de jumentos para o comércio de peles, medida adotada para conter os efeitos da demanda externa sobre populações locais desses animais.
Conservação do jumento nordestino entra no debate
Para Débora Façanha, uma das medidas necessárias é ampliar o levantamento populacional, fortalecer ações de conservação do jumento nordestino e discutir estratégias de reinserção social do animal.
A professora também defende estudos voltados ao reconhecimento racial da espécie, iniciativa que, segundo ela, poderia valorizar geneticamente esses animais e orientar políticas específicas de preservação.
“Essa raça ainda não é reconhecida pelo Ministério da Agricultura. Os criadores dão muito valor a animais que têm raça, que têm pedigree. O jumento nordestino é uma das raças, mas nós temos uma outra raça ali em Minas Gerais e em São Paulo, que é o jumento Pêga. Ele tem um valor altíssimo”, afirma Débora.
A comparação com o jumento Pêga é usada por pesquisadores para mostrar como o reconhecimento racial pode influenciar a percepção econômica sobre determinados grupos de animais.
Segundo o livro Biodiversidade dos Equídeos Iberoamericanos, exemplares registrados dessa raça podem variar de R$ 15 mil a mais de R$ 100 mil, conforme genética, linhagem e idade.
Além das discussões sobre conservação, pesquisas também buscam alternativas ao uso de animais abatidos na produção de colágeno destinado a mercados que hoje demandam derivados de jumento.
Patrícia Tatemoto cita estudos da Universidade Federal do Paraná voltados ao desenvolvimento de colágeno de jumento em laboratório, sem depender diretamente do abate de animais.
A pesquisa ainda está em fase inicial, mas entidades que acompanham o tema avaliam que a tecnologia pode abrir um novo mercado associado à produção laboratorial de colágeno.
No Ceará, o Detran informou ter recolhido 549 asininos abandonados às margens de rodovias estaduais entre janeiro e abril de 2026.
Após o recolhimento, os animais seguem para currais de apoio regionais e, quando não são reivindicados pelos tutores em até sete dias, são encaminhados à fazenda do órgão em Santa Quitéria, onde permanecem sob cuidados.


Chineses bando de ****, esse povo só saber destruir tudo oq vê… Deveriam exterminar ele e não os jumentos.
Não seria o caso do Brasil começar a levar a sério essa demanda e criar o **** em larga escala pra comercializar. Está ai uma ótima oportunidade
Engraçado antigamente o **** era uma praga no Nordeste, viviam nas estradas e ruas como vira latas e todo mundo reclamava deles. Agora querem preservar o ****. O brasileiro precisa ser realmente estudado