China e EUA prolongaram a trégua comercial até janeiro de 2027, mas um ato chinês mantém 10 de novembro nas regras sobre terras raras. Entenda o prazo, os riscos para indústrias e o impacto no Brasil.
A China e os Estados Unidos anunciaram uma trégua comercial mais longa, mas empresas que compram ímãs, terras raras e materiais para baterias encontraram duas datas diferentes nos documentos oficiais: o entendimento político foi estendido até 10 de janeiro de 2027, enquanto uma decisão do Ministério do Comércio chinês ainda registra 10 de novembro de 2026 para o fim da suspensão de um pacote de controles de exportação.
A diferença surgiu depois das negociações bilaterais de setembro. Pequim confirmou a prorrogação do acordo acertado em Kuala Lumpur, mas o Anúncio nº 70, publicado em novembro de 2025 e consultado em 4 de novembro de 2026, continuava com o prazo original. Faltam poucos dias para a data escrita na norma, e fabricantes precisam acompanhar os atos formais que estabelecerão as condições dos próximos embarques.
Um acordo vai até janeiro de 2027; a norma chinesa ainda aponta 10 de novembro
Em 28 de setembro, o Ministério do Comércio da China informou que as equipes negociadoras dos dois países concordaram em prolongar o entendimento econômico de Kuala Lumpur até 10 de janeiro de 2027. O comunicado também anunciou a continuidade das conversas para buscar soluções duradouras em temas comerciais.
-
Argentina inaugura duas gigantes do lítio após investimento de US$ 1,4 bilhão, prepara mais 25 mil toneladas anuais e expansão de minas no país vizinho desafia a indústria brasileira
-
Até o ouro pode deixar uma impressão digital: PF inaugura laboratório que compara barras apreendidas com jazidas brasileiras e leva a ciência ao combate ao garimpo ilegal na Amazônia
-
Mineral descoberto em Minas Gerais tem nome de professor da UFMG e cristais quase invisíveis
-
Polícia Federal combate garimpo ilegal no Amazonas e inutiliza oito dragas e sete estruturas usadas na extração de minerais durante operação no Alto Rio Solimões
Na esfera regulatória, porém, o Anúncio nº 70, assinado pelo Ministério do Comércio e pela Administração Geral das Alfândegas em 7 de novembro de 2025, suspendeu seis atos de controle até 10 de novembro de 2026. O texto permanece publicado no portal oficial chinês com essa data. Sua eventual alteração depende de novas providências formais, que devem ser acompanhadas pelos exportadores e compradores.
Uma análise da publicação especializada Environment + Energy Leader, divulgada em 30 de outubro, identificou a diferença entre o prazo do acordo anunciado e o dos instrumentos legais. A lacuna exige atenção sobretudo dos fornecedores que precisam planejar licenças, contratos e remessas depois da primeira quinzena de novembro.
Seis medidas suspensas alcançam minerais, equipamentos e componentes industriais
A suspensão de 2025 abrange os anúncios de números 55, 56, 57 e 58, emitidos conjuntamente pelos órgãos chineses de comércio e alfândega, além dos anúncios 61 e 62 do Ministério do Comércio. O conjunto envolve materiais de terras raras, máquinas e insumos usados no processamento, produtos relacionados a baterias de lítio, grafite sintético e tecnologia vinculada à cadeia mineral.

Entre os elementos citados nas regras de 2025 estão hólmio, érbio, túlio, európio e itérbio, utilizados em aplicações industriais e tecnológicas específicas. Outro grupo de restrições afeta equipamentos e conhecimentos técnicos que participam da transformação de minérios em produtos com alto valor agregado.
O comércio desses produtos depende de enquadramentos técnicos e regras específicas para cada mercadoria. Fabricantes de ímãs, montadoras, empresas de energia e fornecedores de componentes precisam verificar o alcance de cada ato e as licenças exigidas quando negociam com empresas chinesas.
Nos Estados Unidos, outro relógio regulatório marca 9 de novembro
A diferença de datas aparece também no lado norte-americano. Uma regra publicada pelo Bureau of Industry and Security, órgão do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, suspendeu até 9 de novembro de 2026 a ampliação de controles sobre empresas ligadas a entidades já incluídas em listas de restrição.
Essa medida ficou conhecida como regra das afiliadas: seu alcance envolve companhias que pertençam, em determinadas proporções, a grupos submetidos a restrições comerciais. O documento oficial dos Estados Unidos prevê a retomada das exigências a partir de 10 de novembro, caso não haja novo ato que modifique o calendário.
A negociação entre Washington e Pequim busca estabilizar a relação econômica, enquanto fornecedores precisam trabalhar com o calendário documentado e os prazos anunciados nas negociações. Para uma empresa que importa peças ou vende produtos sob regras de controle de exportação, a diferença pode alterar exigências documentais e a programação de entregas.
China concentra 91% do refino de terras raras usadas em ímãs
A disputa alcança um mercado dominado por etapas industriais complexas. Segundo relatório de 2026 da Agência Internacional de Energia, a China respondia, em 2024, por 60% da extração mundial de terras raras utilizadas em ímãs, mas sua participação subia para 91% no refino e para 94% na fabricação de ímãs permanentes sinterizados.

O metal extraído de uma mina ainda precisa passar por separação química, transformação em óxidos, refino, produção de ligas e fabricação dos ímãs. Esses componentes aparecem em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos industriais, sistemas médicos e tecnologias de defesa.
A concentração industrial explica por que uma mudança em regras de exportação chinesas pode ter repercussão muito além da mineração. O efeito sobre preços e prazos dependerá dos controles efetivamente aplicados, das licenças disponíveis e da capacidade de os compradores encontrarem fornecedores alternativos.
Brasil tem reservas, mas ainda vende pouco material transformado
O Brasil participa dessa corrida com recursos minerais importantes e uma cadeia de beneficiamento ainda em desenvolvimento. Em outubro, a Agência Nacional de Mineração informou que a produção brasileira de 2025 foi de 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras. O levantamento registrou US$ 14,9 milhões em exportações do concentrado e US$ 30,6 milhões em importações de óxidos e ímãs.
A ANM contabilizou quatro áreas com lavra ativa, todas em Goiás, e 78 áreas com etapas avançadas de pesquisa ou pedidos de concessão com potencial de desenvolvimento. Entre 2021 e 2025, o número de autorizações de pesquisa para terras raras cresceu 485,4%, segundo a agência.
Em setembro, o Brasil sancionou uma política nacional para minerais críticos e estratégicos, com o objetivo de estimular pesquisa, extração, beneficiamento e fabricação de produtos de maior valor agregado no território nacional. Para competir nesse mercado, o país terá de avançar também no refino e em componentes industriais, e não apenas na abertura de novas minas.
Os próximos dias serão decisivos para quem depende de novos contratos e embarques
A data de 10 de novembro registrada pela China, o vencimento da suspensão norte-americana em 9 de novembro e a prorrogação negociada até janeiro de 2027 fazem parte de instrumentos diferentes. Empresas que dependem da cadeia de terras raras precisam acompanhar as publicações oficiais e confirmar quais exigências estarão vigentes quando suas mercadorias forem embarcadas.
A próxima mudança poderá aparecer em um novo comunicado ou ato regulatório, e seu conteúdo determinará o alcance das medidas para fornecedores e compradores. Até lá, o contraste entre os calendários continua no centro das atenções de uma indústria que movimenta desde minas de minerais estratégicos até motores de carros elétricos. Acompanhe os desdobramentos e conte nos comentários como o Brasil deveria aproveitar essa disputa por tecnologia e matérias-primas.
