Uma barra de ouro apreendida pode revelar pistas sobre a jazida de onde saiu. Novo laboratório da Polícia Federal, inaugurado em Brasília, compara amostras minerais e ajuda a investigar o garimpo ilegal na Amazônia.
Ouro retirado de uma área clandestina pode carregar pistas que sobrevivem ao transporte e à tentativa de escondê-lo entre mercadorias de origem regular. A Polícia Federal inaugurou na terça-feira, 3 de novembro, em Brasília, um laboratório dedicado a investigar essas marcas geológicas. A aposta é usar ciência para responder a uma pergunta difícil para quem combate o garimpo ilegal: de onde veio o metal apreendido?
Instalada no Instituto Nacional de Criminalística, a nova estrutura vai comparar amostras de ouro com referências de jazidas brasileiras. A iniciativa integra o Programa Ouro Alvo e recebeu apoio do Fundo Amazônia. Segundo a PF, R$ 49,7 milhões foram destinados à agenda de modernização tecnológica e ao laboratório, dentro de um plano ambiental e de segurança mais amplo que reúne R$ 318,5 milhões.
Ouro de duas regiões pode parecer igual, mas as pistas aparecem na análise das amostras
À primeira vista, duas barras douradas podem ser praticamente indistinguíveis. No laboratório, a investigação procura características da composição química e das relações entre determinados isótopos, que funcionam como indicadores da história geológica do material. Os resultados poderão ser comparados com perfis obtidos em diferentes áreas produtoras.
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A PF planeja construir e ampliar uma base de referências científicas de jazidas brasileiras. Esse acervo é decisivo: quanto mais representativas forem as amostras registradas, mais elementos os peritos terão para avaliar a compatibilidade entre o ouro apreendido e as áreas de origem investigadas.
O procedimento começa com a caracterização da amostra. Depois, os especialistas confrontam os resultados com os perfis disponíveis e produzem informações técnicas para apoiar a investigação. A ideia da “impressão digital do ouro” descreve essa comparação de características minerais; a conclusão pericial depende da qualidade dos vestígios e da abrangência dos registros geológicos.
Para quem investiga o comércio clandestino, a mudança abre uma frente adicional de trabalho. Além de verificar documentos, rotas e movimentações financeiras, os agentes poderão buscar elementos científicos capazes de aproximar o metal de sua procedência mineral.
Uma declaração sobre a origem do ouro poderá ser confrontada com evidências da própria jazida
O problema investigado pela PF não termina quando o ouro é retirado do solo. Depois da extração, o metal pode passar por compradores, transportadores e intermediários até chegar ao mercado. Ao longo dessa cadeia, documentos apresentados para justificar a procedência também entram no foco das investigações.
Humberto Freire de Barros, diretor de Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal, destacou na inauguração que o rastreamento ajudará a confrontar as informações declaradas sobre o ouro com evidências obtidas a partir do próprio material. O diretor técnico-científico Roberto Reis Monteiro Neto também apontou o avanço da capacidade pericial de examinar a procedência do minério.
Essa possibilidade ganha importância diante de investigações que alcançam muito além do ponto de extração. Em agosto, por exemplo, a Operação Solo Sagrado apurou suspeitas de retirada ilegal de ouro da Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, e sua posterior entrada no mercado formal. Segundo a PF, a ação envolveu dez mandados de busca e apreensão, uma prisão preventiva e o cruzamento de dados bancários, fiscais e patrimoniais.
A operação é um exemplo anterior de como os investigadores seguem a circulação do ouro e do dinheiro. A inauguração do novo laboratório acrescenta uma ferramenta científica a esse conjunto de recursos, sem substituir a apuração documental e financeira.
O investimento de R$ 49,7 milhões vai além da bancada onde o ouro será examinado
O reforço tecnológico contempla equipamentos para análises minerais e de mercúrio, preparação e caracterização de amostras, além de estruturas para armazenamento do material. A nova unidade funciona no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, que concentra atividades especializadas de perícia da Polícia Federal.
Os R$ 49,7 milhões citados pelas autoridades correspondem à frente do parque tecnológico e do laboratório de rastreamento. Já os R$ 318,5 milhões são recursos do Fundo Amazônia destinados ao Plano Amazônia: Segurança e Soberania, conhecido como AMAS. A distinção importa porque o orçamento maior financia também ações operacionais e de integração entre forças de segurança.
Coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o plano envolve a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional e órgãos dos nove estados da Amazônia Legal. O BNDES administra os recursos do Fundo Amazônia sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
A estruturação do programa inclui equipamentos e capacidade de investigação voltados à repressão de crimes ambientais. O laboratório amplia a parte científica desse trabalho: transformar amostras apreendidas em informações úteis para a produção de provas.
Do garimpo aos rios: a origem do metal também importa para quem vive na Amazônia
O impacto da extração ilegal de ouro costuma aparecer primeiro na paisagem. Máquinas abrem clareiras, sedimentos alteram cursos d’água e substâncias utilizadas no beneficiamento do minério podem contaminar o ambiente. O mercúrio está entre os principais riscos associados ao garimpo clandestino.

O Ministério da Saúde alerta que esse metal pode alcançar os peixes e afetar a saúde de comunidades indígenas, ribeirinhas, trabalhadores e famílias que dependem dos rios. O Ibama mantém um projeto de monitoramento de água, sedimentos e pescado na região da Terra Indígena Yanomami e do Alto Amazonas para acompanhar substâncias ligadas à atividade garimpeira.
Uma operação da PF e do Ibama realizada no Rio Madeira em 30 de outubro ilustra a dimensão do problema. Os agentes localizaram dragas que operavam sem autorização e recolheram mercúrio e outros materiais nocivos antes da inutilização das estruturas. As investigações também procuram identificar financiadores, responsáveis pelo apoio logístico e compradores do ouro extraído.

O rastreamento mineral pode contribuir justamente para ligar o produto encontrado em circulação às áreas de exploração investigadas. Esse elo técnico interessa às autoridades ambientais e também aos participantes do mercado regular, que dependem de documentação confiável sobre a origem do metal.
O próximo desafio será ampliar as referências geológicas e levar as análises às investigações
Com a inauguração, a Polícia Federal passa a contar com uma estrutura dedicada ao confronto entre amostras de ouro e registros minerais de referência. O resultado das análises dependerá do trabalho contínuo de coleta, caracterização e comparação de materiais de diferentes regiões.
O avanço também dependerá de como os laudos forem integrados às investigações, às provas documentais e às informações sobre a comercialização do metal. A expectativa anunciada pela PF é fortalecer a identificação de fraudes e a produção de evidências contra a extração irregular e a lavagem de ouro.
O novo laboratório coloca uma pergunta no centro dessa disputa: quando uma barra de ouro chegar às mãos dos investigadores, até onde sua composição poderá contar a história que os documentos tentaram esconder? Compartilhe sua opinião sobre o uso da ciência para combater o garimpo ilegal na Amazônia.
