A China respondeu por 56,1% das entregas globais de navios em 2025, medidas por capacidade de carga. No Brasil, uma carteira de aproximadamente R$ 41,7 bilhões ligada ao Fundo da Marinha Mercante reúne projetos de construção e manutenção, enquanto reparos, hidrovias e fragatas oferecem caminhos possíveis para recuperação industrial sustentável.
A China concentrou 56,1% das entregas mundiais de navios em 2025, enquanto o Brasil busca recuperar sua capacidade de construção naval por meio de financiamentos, reparos de embarcações, transporte fluvial e programas militares. O Ministério de Portos e Aeroportos apresentou, em março de 2026, uma carteira de aproximadamente R$ 41,7 bilhões em projetos associados ao Fundo da Marinha Mercante (FMM), envolvendo construção, docagens, modernizações e serviços de reparo.
As informações foram apresentadas em análise publicada pelo Defesa em Foco em outubro de 2026. O levantamento compara a expansão industrial chinesa com as oportunidades brasileiras e destaca que a recuperação dos estaleiros depende não apenas de recursos financeiros, mas também de contratos contínuos, fornecedores qualificados e capacidade de entregar embarcações dentro dos prazos previstos.
China respondeu por 56,1% das entregas mundiais de navios em 2025

A indústria naval chinesa encerrou 2025 com participação de aproximadamente 56,1% nas entregas mundiais de embarcações, segundo dados do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China.
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O percentual considera toneladas de porte bruto, indicador utilizado para medir a capacidade de carga dos navios. Portanto, não significa que 56,1% da quantidade de embarcações construídas no mundo tenha sido entregue pela China.
Em volume absoluto, os estaleiros chineses concluíram navios que somaram aproximadamente 53,69 milhões de toneladas de porte bruto durante o ano.
O resultado demonstra a dimensão da capacidade produtiva instalada no país, especialmente no segmento de grandes embarcações mercantes.
Estaleiros chineses receberam 69% das novas encomendas globais

(Foto por Shi Jun/Xinhua)
Além de liderar as entregas, a China concentrou 69% das novas encomendas mundiais de navios em 2025.
Os contratos recebidos pelos estaleiros chineses somaram aproximadamente 107,82 milhões de toneladas de porte bruto.
A diferença entre entregas e novos pedidos revela dois momentos distintos da atividade industrial. As entregas representam embarcações concluídas, enquanto as encomendas indicam demanda contratada para construção.
A existência de novos contratos não significa que todos os navios serão entregues imediatamente. O resultado produtivo dependerá da execução dos projetos.
Carteira chinesa alcançou 66,8% do mercado mundial
A participação da China na carteira global de pedidos chegou a 66,8% em 2025, também considerando toneladas de porte bruto.
Esse indicador reúne encomendas que permanecem vinculadas à indústria de construção naval, incluindo projetos ainda não concluídos.
A combinação de entregas, novos contratos e carteira de pedidos mostra que a liderança chinesa não está restrita à produção realizada em um único ano.
Os dados indicam uma estrutura industrial capaz de sustentar grandes volumes de atividade, apoiada por encomendas futuras.
China construiu uma cadeia que reúne aço, motores, portos e financiamento
A expansão da construção naval chinesa ocorreu ao longo de décadas e envolveu diferentes segmentos industriais.
O país desenvolveu uma rede que integra fornecedores de aço, motores, componentes, equipamentos portuários, serviços financeiros, empresas de navegação e grandes estaleiros.
Essa organização permite que a fabricação de embarcações esteja conectada a outras atividades econômicas, incluindo a movimentação de mercadorias e o comércio exterior.
A indústria exportadora gera demanda por transporte marítimo, enquanto os operadores de navegação precisam de navios para manter suas operações.
A construção naval participa desse sistema tanto como fornecedora de embarcações quanto como atividade que depende da continuidade das rotas comerciais.
Estudo estimou US$ 132 bilhões em apoio estatal chinês entre 2010 e 2018
O financiamento também teve participação importante no desenvolvimento da indústria naval chinesa.
Um estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS) estimou aproximadamente US$ 132 bilhões em diferentes formas de apoio financeiro estatal a empresas chinesas de navegação e construção naval entre 2010 e 2018.
A estimativa inclui principalmente financiamento bancário e corresponde ao período analisado pela instituição.
O valor não deve ser tratado como uma medida universal dos subsídios chineses nem somado automaticamente a estimativas produzidas com metodologias diferentes.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também desenvolveu análises sobre os efeitos de financiamentos, incentivos e políticas industriais no setor.
Governos e empresas apresentam interpretações diferentes sobre os impactos dessas medidas na concorrência internacional.
Brasil apresentou carteira de R$ 41,7 bilhões em projetos ligados ao FMM
No Brasil, o Fundo da Marinha Mercante aparece como um dos instrumentos disponíveis para apoiar a recuperação da indústria naval.
Em março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos divulgou uma carteira de aproximadamente R$ 41,7 bilhões em projetos associados ao FMM.
As iniciativas abrangem construção de embarcações, reparos, docagens e modernizações.
Em divulgações posteriores, o ministério também apresentou valores acumulados de projetos aprovados desde 2023.
Os números indicam a existência de projetos e instrumentos de financiamento, mas exigem cuidado na interpretação dos resultados.
R$ 41,7 bilhões em projetos não significam navios já construídos
A carteira anunciada pelo Ministério de Portos e Aeroportos não representa necessariamente recursos integralmente desembolsados ou obras concluídas.
A aprovação de um projeto ou a concessão de prioridade de financiamento são etapas diferentes da assinatura de um contrato financeiro e da liberação efetiva dos recursos.
Da mesma forma, uma encomenda aprovada não significa que a embarcação tenha começado a ser construída.
A recuperação da indústria naval dependerá da transformação desses projetos em atividade produtiva, com obras iniciadas, prazos cumpridos e entregas efetivamente realizadas.
A capacidade dos estaleiros também precisará ser avaliada pela continuidade dos contratos e pelo desempenho das operações.
Estaleiro Atlântico Sul mostra os riscos de depender de poucos contratos
O Estaleiro Atlântico Sul, localizado no complexo de Suape, em Pernambuco, representa uma das principais experiências brasileiras de construção de grandes navios mercantes.
A instalação foi desenvolvida durante um período de expansão da indústria naval nacional, com investimentos em infraestrutura e formação de trabalhadores especializados.
Entretanto, dificuldades financeiras e interrupções de encomendas comprometeram a continuidade da produção.
A crise dos programas e clientes que sustentavam a operação reduziu a possibilidade de manter equipes e utilizar as instalações de maneira previsível.
A experiência mostra que a existência de docas e equipamentos industriais não garante, isoladamente, a continuidade da construção naval.
Suape pode encontrar oportunidades em reparos e manutenção
A infraestrutura existente em Suape pode oferecer possibilidades para atividades relacionadas ao setor marítimo.
Entre as alternativas estão reparos de embarcações, manutenção, serviços industriais e apoio logístico.
A utilização dessas instalações dependerá das condições reais dos ativos, da infraestrutura de acesso e da existência de demanda comercial.
A possibilidade de aproveitar parte da estrutura não significa que todas as áreas anteriormente utilizadas possam ser imediatamente reconvertidas para construir grandes navios.
Cada atividade exige condições técnicas e econômicas próprias.
Navegação fluvial pode ampliar a demanda por embarcações brasileiras
A navegação interior aparece entre os segmentos com potencial de desenvolvimento para os estaleiros nacionais.
O Brasil possui demanda por barcaças, empurradores e embarcações utilizadas em hidrovias e transportes regionais.
Na Amazônia, as características dos rios e dos terminais interiores exigem projetos adaptados às condições de operação.
A fabricação dessas embarcações pode oferecer oportunidades para estaleiros que consigam atender às necessidades dos operadores com preços competitivos, qualidade e cumprimento de prazos.
Projetos padronizados e encomendas em série também podem ajudar a melhorar os processos industriais entre uma unidade e outra.
Apoio offshore e rebocadores representam outras oportunidades
A atividade de exploração de petróleo e gás no mar exige embarcações especializadas para apoiar operações realizadas longe da costa.
Esse mercado inclui navios de apoio offshore e serviços relacionados à manutenção das atividades marítimas.
Os rebocadores utilizados em operações portuárias também estão entre os segmentos considerados promissores para a indústria nacional.
A demanda por esses equipamentos está ligada às operações de portos, terminais e instalações energéticas.
O crescimento desses mercados dependerá da capacidade dos fabricantes brasileiros de competir em custo, prazo e qualidade.
Reparação naval pode manter estaleiros ocupados entre encomendas
A construção de navios novos não é a única atividade capaz de movimentar a indústria naval.
O reparo e a modernização de embarcações podem utilizar instalações já existentes e manter profissionais especializados em atividade.
Esse segmento apresenta possibilidades de prestação contínua de serviços, mas exige planejamento comercial, certificações e cumprimento dos prazos estabelecidos pelos armadores.
A combinação entre construção e manutenção pode reduzir a dependência de grandes contratos isolados.
Também permite que parte da estrutura produtiva permaneça em funcionamento mesmo quando a procura por novas embarcações diminui.
Fornecedores de bombas, válvulas e automação podem participar da recuperação
A fabricação de um navio depende de uma cadeia industrial que vai além do estaleiro responsável pela montagem.
Entre os fornecedores envolvidos estão empresas de estruturas metálicas, materiais, instalações elétricas, bombas, válvulas, sistemas de automação e serviços de engenharia.
O desenvolvimento dessa rede pode ampliar as oportunidades industriais em diferentes estados brasileiros.
Entretanto, aumentar a participação de fornecedores nacionais exige atenção à qualidade dos componentes, à produtividade e aos custos.
A incorporação de peças fabricadas no Brasil precisa contribuir para a competitividade das embarcações, evitando que dificuldades de fornecimento comprometam os projetos.
Quatro fragatas da classe Tamandaré mobilizam indústria naval em Itajaí
A Marinha do Brasil também representa uma fonte de demanda para o setor de construção naval.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré envolve a construção de quatro navios militares no Brasil, em parceria tecnológica e industrial internacional.
As atividades mobilizam instalações, fornecedores e profissionais especializados em Itajaí, Santa Catarina.
O programa envolve competências de construção modular e integração de sistemas, incluindo exigências técnicas próprias da construção militar.
A continuidade da atividade industrial após as entregas dependerá da possibilidade de aproveitar equipes, instalações e conhecimentos em outros projetos.
Marinha precisa de estaleiros para construir, reparar e modernizar sua frota
A manutenção da capacidade naval brasileira está relacionada à disponibilidade de instalações industriais no território nacional.
A Marinha depende de atividades de construção, modernização, reparo e sustentação de seus meios.
A existência de profissionais especializados e fornecedores locais pode contribuir para reduzir determinados riscos de indisponibilidade das embarcações.
Esse aspecto é particularmente importante diante dos interesses marítimos associados à Amazônia Azul, incluindo atividades econômicas, transporte e proteção de áreas estratégicas.
A construção de navios militares, entretanto, exige sistemas de combate, sensores, armamentos e requisitos técnicos que não são necessariamente utilizados em embarcações comerciais.
Por isso, a existência de um estaleiro civil não significa que ele esteja automaticamente preparado para fabricar navios de guerra.
Continuidade das encomendas será decisiva para a recuperação industrial
A experiência brasileira mostra que investimentos em infraestrutura precisam ser acompanhados por uma demanda capaz de manter a produção ao longo do tempo.
A interrupção de contratos pode provocar perda de trabalhadores especializados e reduzir o aproveitamento das instalações.
A construção de uma primeira embarcação permite desenvolver conhecimentos que podem ser utilizados nas seguintes. Entretanto, longos períodos sem encomendas dificultam a preservação dessa experiência.
Uma estratégia industrial pode combinar projetos seriados, diversificação de clientes, construção naval e serviços de manutenção.
O objetivo é evitar que os estaleiros dependam exclusivamente de contratos isolados ou de um único comprador.
Produtividade e cumprimento de prazos serão indicadores da recuperação
O desempenho da indústria naval brasileira não poderá ser medido apenas pelo volume de projetos anunciados.
Indicadores como produtividade por hora trabalhada, cumprimento dos prazos de entrega, custos de reparo e utilização das instalações permitem acompanhar os resultados das atividades.
A participação de fornecedores qualificados também ajuda a demonstrar a capacidade de desenvolver uma cadeia industrial competitiva.
O financiamento público pode apoiar os investimentos, mas a continuidade do setor dependerá da entrega de embarcações e serviços capazes de atender às exigências do mercado.
Brasil pode recuperar capacidade naval sem reproduzir a escala chinesa
A China construiu sua liderança mundial a partir de uma integração entre indústria, comércio exterior, financiamento e demanda por transporte marítimo.
O Brasil possui condições econômicas, volume de encomendas e estrutura financeira diferentes, o que torna necessária uma estratégia compatível com seu próprio mercado.
As oportunidades identificadas incluem navegação interior, apoio offshore, reparos, modernizações e programas militares como o das fragatas da classe Tamandaré.
A carteira de aproximadamente R$ 41,7 bilhões associada ao Fundo da Marinha Mercante, divulgada em março de 2026, representa um conjunto de iniciativas que ainda precisam avançar pelas etapas de contratação, execução e entrega.
A recuperação efetiva da indústria naval brasileira dependerá de transformar esses projetos em produção contínua, preservar trabalhadores especializados e manter estaleiros e fornecedores em atividade após a conclusão das encomendas atuais.
