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Casamento infantil volta a crescer em Gaza: ao menos 400 meninas de 14 a 16 anos receberam autorização para casar em quatro meses, e ONU alerta que colapso dos registros pode esconder uma crise ainda maior

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/06/2026 às 15:42
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Casamento infantil volta a crescer em Gaza
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Casamento infantil volta a crescer em Gaza após anos de queda, com meninas de 14 a 16 anos empurradas para uniões precoces em meio à guerra, fome e deslocamento.

Segundo o UNFPA, a guerra em Gaza reverteu parte de um avanço social construído ao longo de mais de uma década. O órgão da ONU informou, em análise publicada em 6 de abril de 2026, que o casamento infantil, que havia caído de 26% em 2009 para 11% em 2022 na Palestina, voltou a subir de forma abrupta sob a pressão do conflito, do deslocamento e da pobreza extrema.

Em apenas quatro meses de 2025, ao menos 400 meninas entre 14 e 16 anos receberam autorizações de casamento em tribunais de emergência. O próprio UNFPA afirma que esse número provavelmente está abaixo da realidade, porque grande parte dos casamentos passou a ocorrer de forma informal, sem registro judicial e sem documentação oficial em meio ao colapso dos sistemas civis.

Guerra em Gaza desfez em meses uma década de redução do casamento infantil

Segundo o UNFPA, a trajetória anterior era de queda consistente. Entre 2009 e 2022, a taxa de casamento infantil na Palestina caiu mais de 50%, resultado de anos de investimento em educação de meninas, proteção social e programas de apoio a famílias vulneráveis.

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A guerra interrompeu esse processo de forma violenta. A análise aponta que, já em 2024, uma pesquisa do órgão encontrou 71% dos entrevistados em Gaza relatando aumento da pressão para casar meninas com menos de 18 anos. Em vez de continuidade no recuo, o conflito abriu espaço para uma reversão acelerada.

O dado dos 400 registros formais em quatro meses de 2025 é apenas a parte visível do problema. Segundo o UNFPA, a maioria dos casamentos agora acontece fora dos canais formais, o que significa que a escala real da crise pode ser significativamente maior do que a documentada.

Famílias passaram a ver o casamento precoce como estratégia de sobrevivência

O UNFPA foi direto ao explicar os mecanismos por trás dessa alta. Em Gaza, o casamento infantil não pode ser tratado apenas como tradição ou costume. A análise mostra que ele passou a ser usado por parte das famílias como estratégia de sobrevivência econômica e social em um território devastado.

Com meios de vida destruídos, renda desaparecida e ajuda humanitária irregular, casar uma filha pode significar uma pessoa a menos para alimentar dentro de uma família deslocada. Em alguns casos, também pode representar acesso a algum tipo de arranjo financeiro ou de apoio material em meio ao colapso da rotina doméstica.

Outra lógica descrita pelo UNFPA é a da proteção percebida. Em abrigos superlotados, com aumento da insegurança e do medo de violência, algumas famílias passaram a acreditar que o casamento oferece uma forma de retirar meninas da vulnerabilidade direta desses espaços.

Colapso de escolas, serviços sociais e tribunais enfraqueceu as barreiras de proteção

Em situações normais, o casamento de uma menina de 14 anos enfrentaria diversas barreiras institucionais. Escolas poderiam perceber o desaparecimento da aluna, serviços sociais poderiam intervir, organizações de proteção poderiam agir e tribunais teriam mais filtros para barrar uniões precoces.

Segundo o UNFPA, em Gaza esses sistemas colapsaram ao mesmo tempo. Escolas foram destruídas ou fechadas, serviços sociais operam com capacidade mínima, organizações de proteção perderam estrutura e os tribunais funcionam em regime de emergência, pressionados por uma população que precisa de documentação para múltiplas urgências.

O resultado é que a distância entre a decisão de uma família e a formalização de um casamento infantil ficou muito menor. Mesmo os casos que passam pelos tribunais representam apenas uma parte de um fenômeno que já escapou amplamente do controle institucional.

Aumento da gravidez adolescente expõe o impacto direto da crise sobre a saúde

Os efeitos já aparecem nos dados de saúde. Segundo o UNFPA, em dezembro de 2025, cerca de 10% das gestações recém-registradas em Gaza eram de adolescentes, percentual significativamente acima dos níveis observados antes da guerra.

A gravidez na adolescência já traz riscos elevados em qualquer contexto. Em Gaza, esses riscos aumentam porque o sistema de saúde foi devastado pelo conflito, o acesso ao pré-natal é limitado e os serviços obstétricos funcionam sob extrema pressão, com falta de medicamentos, estrutura e segurança.

A mesma análise aponta que adolescentes responderam por 12% de todos os sobreviventes de violência de gênero documentados nos territórios palestinos ocupados em 2025. Isso mostra como casamento precoce, gravidez adolescente, violência de gênero e colapso dos serviços de saúde passaram a se reforçar mutuamente.

Crise de saúde mental agrava ainda mais a vulnerabilidade das meninas em Gaza

O UNFPA também descreve o cenário como uma emergência profunda de saúde mental. Segundo a análise, 96% das crianças em Gaza relataram sentir que a morte é iminente, um dado que ajuda a dimensionar o nível de trauma coletivo em que essas decisões familiares estão sendo tomadas.

A oficial de programas para adolescentes e jovens do órgão, Sima Alami, afirmou que um milhão de crianças em Gaza precisam de apoio em saúde mental e suporte psicossocial. Muitas das meninas empurradas para casamentos precoces estão dentro desse universo de trauma, perda e deslocamento extremo.

Isso significa que o casamento infantil não ocorre isoladamente. Ele se insere em um ambiente em que meninas já vivem sob medo constante, ruptura escolar, perda de familiares, insegurança alimentar e colapso das redes básicas de proteção.

UNFPA diz que reverter a alta do casamento infantil exige ajuda humanitária e proteção social

Segundo o UNFPA, frear essa alta exige um conjunto de medidas que hoje não está disponível em escala suficiente. O órgão cita a necessidade de acesso humanitário, restauração de serviços de saúde e educação, apoio psicossocial e programas econômicos para famílias em situação extrema.

A lógica é clara. Enquanto famílias continuarem sem renda, sem segurança, sem escola funcionando e sem proteção social mínima, o casamento de meninas seguirá sendo visto por parte delas como uma saída possível, mesmo que trágica. Sem alternativas reais, a pressão continuará.

O próprio UNFPA reconhece que a distância entre o que seria necessário e o que existe hoje em Gaza continua enorme. O progresso que levou anos para reduzir a taxa de casamento infantil na Palestina está sendo desfeito em meses, em um contexto em que os sistemas capazes de conter esse retrocesso praticamente deixaram de funcionar.

Casamento infantil em Gaza virou um retrato brutal do custo social da guerra sobre meninas

O que acontece em Gaza mostra que a guerra não destrói apenas prédios, hospitais e escolas. Ela também desmonta mecanismos sociais que protegiam meninas de decisões impostas pela fome, pelo deslocamento e pelo desespero. O crescimento do casamento infantil virou um dos sinais mais duros desse colapso.

Segundo o UNFPA, os registros formais disponíveis já mostram uma aceleração preocupante, mas a própria agência alerta que a realidade provavelmente é ainda pior. Quando casamentos passam a ocorrer sem documentação, sem registro e sem supervisão, a crise deixa de ser apenas grande e passa a ser também invisível.

No centro dessa tragédia estão meninas de 14, 15 e 16 anos que deveriam estar na escola, sob proteção e com perspectiva de futuro, mas que passaram a ser empurradas para uniões precoces em meio a uma guerra que transformou sobrevivência imediata em critério de decisão familiar.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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