A mudança levou Fernanda Pires e Leonardo Tangoda de ocupações no interior paulista para a linha de produção em Izumo, onde o pagamento por hora aumentou, mas veio acompanhado de contrato temporário, expediente prolongado e uma reorganização familiar após a descoberta da gravidez.
Fernanda Pires e Leonardo Tangoda trocaram Matão, no interior de São Paulo, por Izumo, no Japão, buscando uma rotina com maior segurança e estabilidade financeira. A mudança elevou de forma expressiva a remuneração por hora de Fernanda, mas colocou o casal diante de jornadas industriais que chegavam a 12 horas.
A experiência relatada pelo casal mostra que a diferença de renda não pode ser separada das condições de trabalho encontradas no país. O pagamento dependia das horas efetivamente cumpridas, enquanto a escala extensa e o vínculo temporário reduziam a previsibilidade do rendimento mensal.
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A trajetória foi apresentada em reportagem do Terra, que acompanhou brasileiros empregados no Japão e registrou como remuneração, segurança e qualidade de vida pesaram na decisão de permanecer no país apesar da intensidade do trabalho.
Da academia e da farmácia para a fábrica
Antes da mudança, Fernanda trabalhava como educadora física em diferentes academias de Matão e recebia aproximadamente R$ 12 por hora. Como a renda dependia da quantidade de aulas disponíveis, havia meses em que o total recebido não chegava a R$ 1 mil.
Leonardo trabalhava como balconista de farmácia, e o orçamento do casal frequentemente ficava apertado. A possibilidade de receber melhor e construir uma rotina considerada mais segura começou, então, a pesar na decisão de tentar a vida fora do Brasil.
A ligação de Leonardo com o Japão transformou o país em uma alternativa viável. Descendente de japoneses de terceira geração e com parte da infância vivida lá, ele tinha uma condição familiar que facilitava o processo relacionado ao visto.
Ainda no Brasil, os dois conseguiram uma oportunidade profissional por meio de uma agência de recrutamento e viajaram com a colocação encaminhada. O destino foi Izumo, na província de Shimane, onde passaram a atuar em uma empresa ligada à produção de componentes eletrônicos.
A mudança representou também uma ruptura profissional: Fernanda deixou as academias e Leonardo saiu do comércio para trabalhar ao lado dela como operador de máquinas, inicialmente no período noturno, em turnos de cerca de 12 horas com 45 minutos de intervalo.
Pagamento por hora subiu, mas renda variava
A diferença mais clara apareceu no valor da hora trabalhada. O Terra informou que Fernanda recebia 1.410 ienes por hora, quantia convertida na época da reportagem em aproximadamente R$ 45,36, quase quatro vezes os cerca de R$ 12 que ganhava nas academias brasileiras.
O valor inicial praticado no setor era de aproximadamente 1.350 ienes por hora. Em uma simulação feita pelo veículo, 12 horas diárias durante 22 dias levariam a 356.400 ienes no mês, equivalentes a cerca de R$ 11,5 mil pela cotação usada naquele período.
Essa conta, porém, não correspondia a um salário mensal garantido, porque o vínculo era temporário e o pagamento acompanhava as horas efetivamente trabalhadas. Folgas determinadas pela empresa e mudanças de escala poderiam reduzir o total recebido.
O professor de sociologia Angelo Ishi, da Musashi University, explicou ao Terra que contratos desse tipo podem oferecer remuneração maior por hora, mas não a mesma previsibilidade encontrada em vínculos fixos. A oscilação do expediente, portanto, também interfere na capacidade de estimar a renda ao longo do ano.
Gravidez alterou turno e jornada
Pouco depois da chegada ao Japão, a rotina de Fernanda mudou novamente. Cerca de dois meses após se estabelecer no país, ela descobriu que estava grávida e deixou o turno noturno, passando a trabalhar no período da manhã durante a gestação.
Depois do nascimento do filho, houve uma nova alteração: a jornada diária caiu de 12 para oito horas. Fernanda continuou profissionalmente ativa, enquanto a família passou a conciliar o emprego industrial com os cuidados exigidos pela criança.
A mudança de horário reduziu a carga que ela havia enfrentado no início da experiência japonesa, mas não significou uma volta à profissão que exercia no Brasil. Fernanda permaneceu na fábrica, agora dentro de uma rotina reorganizada pela maternidade.
Mesmo com o expediente intenso, a segurança apareceu entre os fatores que mais pesaram na avaliação do casal sobre a vida no Japão. Ao Terra, Fernanda afirmou: “Aqui a gente viaja todo fim de semana, comemos bem, não tenho medo de andar na rua”.
O relato indica que a decisão de permanecer não esteve ligada apenas ao valor recebido por hora. Para a família, a possibilidade de circular com menos receio e incluir viagens e momentos de lazer na rotina também fazia parte da mudança que buscavam quando deixaram Matão.
A experiência do casal ocorreu dentro de uma comunidade brasileira já consolidada no Japão. Dados da Agência de Serviços de Imigração do Japão mostram que os brasileiros continuam entre os grupos estrangeiros numerosos no país, resultado de um fluxo migratório construído ao longo de décadas.
Esse contingente já foi maior. A reportagem do Terra registrou cerca de 317 mil brasileiros no Japão em 2008 e citou estimativa do Ministério das Relações Exteriores de que mais de 50 mil retornaram ao Brasil entre 2008 e 2009, período marcado pelos efeitos da crise econômica internacional.
Depois do nascimento do filho, Fernanda permaneceu empregada na fábrica com jornada de oito horas, enquanto Leonardo continuou na operação de máquinas. A reorganização permitiu que o casal mantivesse a vida profissional em Izumo sem retornar ao expediente de 12 horas que marcou o início da experiência dela no Japão.

