Governo de Mark Carney troca a meta obrigatória de mercado por incentivos de até C$ 5.000 para veículos elétricos, endurece regras de emissões e tenta equilibrar pressão dos Estados Unidos e da China
O Canadá decidiu redesenhar sua estratégia para veículos elétricos de um jeito que parece contraditório à primeira vista. O governo de Mark Carney está revogando a obrigatoriedade nacional de vendas de modelos elétricos, mas ao mesmo tempo vai injetar bilhões de dólares em incentivos diretos para compra, leasing e recarga desses veículos, além de criar normas de emissões mais rígidas para os próximos anos. Não é um recuo simples, é uma troca de ferramenta: sai a obrigação direta, entra um pacote de dinheiro e regulações climáticas.
Ao redor desse movimento, há um tabuleiro complexo. A Comissão Europeia já flexibilizou regras que apertavam demais os motores a combustão, os Estados Unidos cortaram créditos fiscais importantes para veículos elétricos, e a China disputa espaço no mercado norte-americano com tarifas, cotas e acordos. O Canadá está tentando se posicionar como “líder climático”, sem perder a competitividade da indústria e sem ficar preso à estratégia de nenhum dos dois gigantes.
De obrigação a dinheiro na mão: quanto o Canadá vai pagar pelos veículos elétricos
Carney anunciou que o país vai destinar cerca de C$ 2,3 bilhões para financiar incentivos de até C$ 5.000, aproximadamente US$ 3.653, na compra ou leasing de veículos elétricos por pessoas físicas e jurídicas.
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Além disso, haverá C$ 1,5 bilhão para expandir a infraestrutura de recarga, um gargalo clássico para quem pensa em migrar de vez para o carro elétrico.
Na prática, o governo está dizendo que prefere convencer o consumidor de veículos elétricos com dinheiro e infraestrutura em vez de apenas impor uma meta de participação de mercado.
O pacote inclui ainda até C$ 3,1 bilhões para o setor automobilístico canadense, com o objetivo de ajudar montadoras na transição cara e arriscada para os carros elétricos.
É um recado direto à indústria: o Canadá quer veículos elétricos, mas está disposto a dividir a conta da mudança.
Em vez de meta obrigatória, emissões veiculares mais duras
Sob o governo anterior, de Justin Trudeau, Ottawa havia determinado que 20% de todos os veículos vendidos em 2026 fossem livres de emissões. A medida, pensada para acelerar a adoção de veículos elétricos, foi mal recebida por fabricantes, que alegavam custos insustentáveis e dificuldades práticas para atingir a meta.
Carney decidiu seguir outro caminho. Em vez de manter a obrigatoriedade de vendas, o Canadá introduzirá normas de emissões mais rigorosas entre os modelos 2027 e 2032.
Segundo o governo, esse pacote de regras deve ajudar o país a chegar a 75% de vendas de veículos elétricos até 2035 e 90% até 2040. A lógica é focar no resultado final da poluição, e não necessariamente no rótulo do tipo de motor.
Para o primeiro-ministro, substituir a meta rígida por padrões de emissões veiculares “foca nos resultados que importam aos canadenses” e evita encargos excessivos para a indústria automotiva nacional.
Na visão oficial, isso mantém o Canadá como “líder em mudanças climáticas”, mesmo com o recuo na obrigação de vendas.
Ambientalistas x indústria: o racha em torno dos veículos elétricos
A mudança dividiu opiniões. Grupos ambientalistas enxergam a nova estratégia como um passo para trás. Sam Hersh, da organização Environmental Defence, classificou o plano para veículos elétricos como “um enorme retrocesso”, argumentando que o alívio atual para as montadoras pode se traduzir em problemas maiores no longo prazo.
Na avaliação dele, a indústria pode entrar em um “caminho inevitável de declínio” se não acelerar o ritmo da eletrificação.
Do outro lado, a Associação Canadense de Fabricantes de Veículos elogiou o anúncio. Para as montadoras, o financiamento para incentivos de compra e a expansão da infraestrutura de recarga são exatamente o empurrão que faltava para os veículos elétricos ganharem massa crítica sem quebrar o setor.
Há ainda quem celebre por outro motivo: o Consumer Choice Center, grupo de defesa do consumidor, afirmou que sempre foi errado o governo “ditar aos canadenses que tipo de carro eles deveriam comprar”.
No meio desse racha, o governo tenta se equilibrar. Ao mesmo tempo em que afrouxa a obrigação para os veículos elétricos, Carney endurece emissões e abre o cofre para quem quiser comprar ou produzir modelos elétricos.
Estados Unidos apertam combustão? Não. Canadá tenta se diferenciar
Enquanto o Canadá amplia incentivos para veículos elétricos, os Estados Unidos caminham na direção oposta em alguns pontos. Washington encerrou, em setembro, um crédito fiscal de longa data de US$ 7.500 para carros elétricos, reduzindo o apelo econômico imediato de muitos modelos.
Desde que Donald Trump assumiu a presidência, o país tomou medidas para facilitar a venda de veículos a gasolina, favorecendo motores tradicionais.
Já na Europa, a Comissão Europeia concordou em suspender a proibição de novos carros com motor a combustão interna a partir de 2035, diante da adoção mais lenta que o esperado de veículos elétricos.
O Canadá se posiciona em um ponto intermediário: segue alguns movimentos da Europa, mas mantém um apoio financeiro aos elétricos bem mais robusto do que os Estados Unidos oferecem hoje.
O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, chamou a nova estratégia de momento “crucial”, apontando que a economia e a soberania canadense estão sob ataque das políticas de Trump.
Ao reforçar os veículos elétricos com dinheiro e exigências ambientais, o Canadá tenta blindar sua indústria dos choques vindos de Washington.
Veículos elétricos no meio da guerra comercial com EUA e China
A política para veículos elétricos também está ligada a uma disputa comercial mais ampla. Carney criticou os danos das tarifas americanas ao setor automotivo norte-americano, altamente integrado entre Canadá, Estados Unidos e México, e defendeu a diversificação do comércio, com foco em produção nacional.
O Canadá decidiu manter tarifas retaliatórias sobre importações de automóveis dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, avançar em um acordo com a China.
Em um entendimento inicial, o país permitirá a importação de até 49.000 veículos elétricos chineses com tarifa de 6,1%, seguindo o princípio da nação mais favorecida. Essa cota deve subir para cerca de 70.000 unidades em cinco anos.
Há, porém, um limite claro: os veículos elétricos chineses não serão elegíveis para os incentivos governamentais canadenses. Isso significa que eles entram no mercado, ajudam a aumentar a oferta e a competição, mas não consomem o orçamento público destinado aos incentivos para veículos elétricos.
Ao mesmo tempo, o governo quer que a parceria com a China resulte em novos investimentos de joint ventures chinesas em território canadense, fortalecendo a produção local.
O lado menos visível: petróleo, eletricidade e credibilidade climática
Nem todas as decisões recentes estão alinhadas com a narrativa de vanguarda climática. Em novembro, o governo federal descartou um limite de emissões planejado para o setor de óleo e gás e abandonou regras sobre eletricidade limpa que pretendiam incentivar investimentos em geração de energia menos poluente.
Isso cria um quadro ambíguo. De um lado, o Canadá injeta bilhões em veículos elétricos, aperta emissões veiculares e define metas ambiciosas de participação elétrica nas vendas.
De outro, recua em medidas estruturais ligadas à matriz energética e ao setor de combustíveis fósseis. A pergunta que fica é se a transição puxada pelos veículos elétricos será suficiente para compensar essas concessões em outras frentes.
Ainda assim, Carney insiste que o país continua sendo um “líder em mudanças climáticas” e promete, para as próximas semanas, uma estratégia de competitividade climática que tente amarrar melhor todos esses movimentos.
No fim das contas, o Canadá escolheu um caminho mais complexo para os veículos elétricos: sem obrigar ninguém diretamente, mas combinando dinheiro, emissão mais rígida e geopolítica dura com Estados Unidos e China.
Na sua opinião, essa mistura de incentivos e metas de emissões é suficiente para acelerar de vez os veículos elétricos no Canadá, ou a falta de obrigação direta ainda vai atrasar a virada da frota?

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