Nova frota de 60 veículos substitui diesel por biometano produzido no próprio complexo que recebe o lixo e pode retirar quase metade das carretas pesadas atualmente usadas na operação
Uma operação que movimenta cerca de 9 mil toneladas de resíduos todos os dias no Rio de Janeiro começou a funcionar com uma lógica pouco comum: parte dos caminhões que levam o lixo até o aterro agora utiliza como combustível justamente o gás produzido pela decomposição dos resíduos descarregados no local.
A Regenera Rio, empresa do grupo Aegea responsável pelo transporte e tratamento dos resíduos, iniciou em agosto de 2026 a entrada em operação de uma nova frota de 60 veículos pesados movidos 100% a biometano. O combustível renovável é produzido a partir do biogás gerado pela decomposição dos resíduos encaminhados ao Centro de Tratamento de Resíduos de Seropédica.
Na prática, forma-se uma espécie de ciclo. O caminhão sai do Rio carregado de lixo, descarrega os resíduos em Seropédica e pode ser abastecido com um combustível cuja matéria-prima teve origem justamente na decomposição do material acumulado no próprio aterro antes de voltar à cidade para buscar uma nova carga.
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Operação movimenta mais de 300 viagens por dia

O transporte dos resíduos funciona de forma contínua, 24 horas por dia e sete dias por semana, com mais de 300 viagens diárias entre as estações de transferência localizadas na capital e o CTR de Seropédica.
Atualmente, a operação utiliza quase 120 carretas pesadas, mas a chegada dos novos veículos deve permitir uma redução expressiva dessa quantidade. Isso acontece porque as novas carretas possuem maior capacidade de carga e conseguem transportar mais resíduos em cada deslocamento.
Enquanto os modelos anteriores têm capacidade aproximada de 65 metros cúbicos e transportam entre 28 e 30 toneladas por viagem, os novos implementos chegam a aproximadamente 87 metros cúbicos, permitindo transportar cerca de 38 toneladas de resíduos por vez.
Com isso, a empresa pretende realizar praticamente o mesmo trabalho com pouco mais de 60 veículos, reduzindo o número de caminhões circulando diariamente entre o Rio de Janeiro e Seropédica.
Caminhões podem percorrer 14 milhões de quilômetros por ano
Mesmo com a redução da frota, os números da operação permanecem gigantescos. A expectativa é que os veículos percorram cerca de 14 milhões de quilômetros por ano, o equivalente a dar centenas de voltas ao redor do planeta.
Atualmente, essa logística consome aproximadamente 600 mil litros de diesel por mês. Com a substituição do combustível fóssil pelo biometano, a estimativa é utilizar cerca de 750 mil metros cúbicos do gás renovável mensalmente.
Se o consumo atual de diesel fosse mantido durante um ano inteiro, isso representaria aproximadamente 7,2 milhões de litros de combustível fóssil, volume que poderá deixar de ser utilizado à medida que a nova frota entrar completamente em operação.
O combustível nasce debaixo das próprias montanhas de lixo

O processo começa com a decomposição da matéria orgânica enterrada no aterro. Esse processo libera biogás, uma mistura que contém grande concentração de metano e que precisa ser captada por uma rede de tubulações instalada dentro das células onde os resíduos são depositados.
Depois de coletado, o biogás passa por um processo de purificação que remove contaminantes e aumenta a concentração de metano. O resultado é o biometano, combustível com características semelhantes às do gás natural e que pode ser utilizado em motores preparados para funcionar com gás.
A planta instalada em Seropédica possui capacidade declarada de produção de cerca de 130 mil metros cúbicos de biometano por dia, volume muito superior aos aproximadamente 750 mil metros cúbicos que a frota deverá consumir mensalmente.
Caminhões não são modelos diesel improvisados
Os novos veículos também não são antigos caminhões a diesel convertidos posteriormente. Segundo a empresa, os modelos já saem de fábrica preparados para operar com biometano, com motores e sistemas desenvolvidos especificamente para esse tipo de combustível.
Antes de ampliar a tecnologia para dezenas de veículos, a operação passou por aproximadamente oito meses de testes, período usado para avaliar consumo, autonomia, manutenção e funcionamento no trajeto entre o Rio e Seropédica.
A aquisição desses caminhões custa mais do que a compra de modelos convencionais a diesel, mas a empresa afirma que a análise considera todo o período de utilização da frota, incluindo combustível, manutenção e redução das emissões.

Piso móvel também muda a forma de descarregar o lixo
Outra mudança importante está escondida dentro das próprias carretas. Os novos veículos utilizam um sistema de piso móvel, que empurra gradualmente os resíduos para fora da carroceria durante a descarga.
Nos modelos tradicionais, a carreta precisa levantar grande parte da estrutura para despejar o material, aumentando o risco de tombamento, principalmente quando o terreno apresenta irregularidades ou quando a carga está mal distribuída.
Com o piso móvel, a carroceria permanece praticamente na posição horizontal enquanto o lixo é expulso pela parte traseira, reduzindo a necessidade de elevar dezenas de toneladas durante a descarga.
Cinco pontos do Rio concentram toneladas antes da viagem
Antes de chegar a Seropédica, o lixo recolhido nas ruas passa por grandes estações de transferência espalhadas pela capital. Entre elas estão unidades em Caju, Marechal Hermes, Bangu, Jacarepaguá e Santa Cruz.
Essas estruturas recebem os resíduos trazidos pelos caminhões compactadores responsáveis pela coleta urbana e transferem o material para carretas maiores, mais adequadas para percorrer longas distâncias.
O sistema evita que centenas de caminhões menores precisem viajar repetidamente até Seropédica, reduzindo custos, tempo de deslocamento e quantidade de veículos pesados circulando em determinados trechos.
Complexo recebe mais de 10 mil toneladas de resíduos diariamente
O CTR de Seropédica começou a operar em 2011 e hoje recebe mais de 10 mil toneladas de resíduos por dia, considerando materiais provenientes do Rio e de outras operações atendidas pelo complexo.
Além de transformar parte do biogás em biometano, o local também aproveita o gás para geração de energia e possui sistemas destinados ao tratamento do chorume, líquido produzido durante a decomposição do lixo.
O resultado é uma operação em que aquilo que normalmente seria apenas um enorme passivo urbano passa também a ser utilizado como fonte energética.
E é justamente esse detalhe que torna a nova frota incomum: o caminhão transporta o lixo, o lixo produz gás, o gás vira combustível e o mesmo veículo volta para buscar mais resíduos, fechando um ciclo que começa e termina dentro da própria operação de coleta e tratamento do Rio.

