Brian May, guitarrista do Queen, plantou o primeiro carvalho em 2013. O plano técnico previa mudas britânicas, protetores, cerca contra cervos e corte de químicos. A conta por hectare fica perto do padrão usado no Brasil.
O bosque que Brian May começou a plantar em Bere Regis, no condado inglês de Dorset, passou de 101 mil árvores e arbustos em dez anos. O número está na atualização do site oficial do músico, publicada no aniversário de uma década do projeto. A história voltou a circular no domingo (4), em reportagem da CNN Brasil.
A área tem 157 acres, cerca de 63,5 hectares. Até 2013, era terra de cultivo. Hoje se chama May’s Wood, e o site do músico registra a chegada de flores silvestres, insetos, aves e pequenos mamíferos que não apareciam ali no tempo da lavoura.
O que torna o caso útil para quem acompanha reflorestamento não é a fama do dono. É o plano. Ele foi escrito antes da primeira muda e está publicado pelo Save Me Trust, a entidade de proteção à fauna que Brian May fundou com Anne Brummer.
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O primeiro carvalho e o plano de 12 meses
O primeiro plantio foi em 28 de setembro de 2013, um sábado, aberto aos moradores da vila. Segundo o relato do próprio site do músico, cerca de 600 árvores foram para o chão naquele dia, quase todas carvalhos.
A meta de Brian May era mais ambiciosa: plantar mais de 100 mil árvores e arbustos em 12 meses, em oito antigos campos agrícolas. A maior parte do plantio ficou para depois de 1º de janeiro de 2014, quando o ciclo da lavoura terminou de vez.
As regras técnicas do reflorestamento
O comunicado do Save Me Trust detalha como o bosque seria montado. O plantio e o manejo ficaram com a UPM Tilhill, empresa britânica de gestão florestal. Os pontos principais:

- Espécies: carvalho, faia, castanheira, tília, cerejeira-brava, abeto, pinheiro-de-douglas e nogueira.
- Bordas: arbustos mais baixos, como aveleira, espinheiro, viburno e cerejeira-de-cacho, em faixas para flores silvestres.
- Origem das mudas: todas criadas no Reino Unido, a partir de sementes de árvores saudáveis ou de fontes locais.
- Proteção: protetores individuais nas mudas e cercas contra cervos em parte dos trechos.
- Química: sem inseticida e sem fungicida; herbicida reduzido de imediato e, depois de três ou quatro anos, só como último recurso.
Dois detalhes mostram que o plano não foi decorativo. O freixo ficou fora da lista por causa de uma doença que atacava a espécie no país. E as exceções à regra das nativas, a nogueira e as coníferas, entraram com função definida: dar cobertura no inverno.
O próprio texto admite que o manejo “não seria totalmente orgânico”. Em outro trecho, citado pela CNN Brasil, Brian May escreveu que queria um cuidado com a floresta sem abates e sem caça recreativa.
A conta das árvores por hectare
Dividir 101 mil árvores e arbustos por 63,5 hectares dá cerca de 1.590 plantas por hectare. Só que o plano reservava mais de 60 acres (uns 24 hectares) como área aberta, com clareiras e talhadia de aveleira.
Tirando essa parte, sobram perto de 39 hectares plantados. Aí a densidade sobe para cerca de 2.570 plantas por hectare. O valor é aproximado, já que o tamanho de cada talhão do reflorestamento de Brian May não foi publicado.
A Embrapa aponta como espaçamentos mais usuais no plantio de mudas o de 3 m por 2 m (1.667 plantas por hectare) e o de 2 m por 2 m (2.500 plantas por hectare).
| Referência | Plantas por hectare |
|---|---|
| May’s Wood, área total | cerca de 1.590 |
| Embrapa, espaçamento 3 m x 2 m | 1.667 |
| Embrapa, espaçamento 2 m x 2 m | 2.500 |
| May’s Wood, sem a área aberta | cerca de 2.570 |
O tamanho do desafio no Brasil
O Decreto 8.972, de 2017, fixou a recuperação de pelo menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 31 de dezembro de 2030. Isso equivale a quase 189 mil áreas do tamanho do bosque de Dorset.
O reflorestamento da Mata Atlântica tem meta própria. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, criado em 2009, mira 15 milhões de hectares até 2050. Os dados estão em reportagem da Agência Brasil de fevereiro. A Mata Atlântica tinha cerca de 130 milhões de hectares e hoje mantém 24% dessa cobertura.
A mesma reportagem traz um dado que mostra o risco de recuo. Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica viu 4,9 milhões de hectares entrarem em regeneração entre 1993 e 2022. Desses, 1,1 milhão foi desmatado de novo, cerca de 22%. Ficaram de pé 3,8 milhões.
O que o caso inglês ensina
No espaçamento de 3 m por 2 m, cada milhão de hectares refeito só com mudas pediria cerca de 1,67 bilhão de plantas. Por isso o reflorestamento em grande escala no Brasil mistura plantio com regeneração natural, que dispensa parte das mudas.
O bosque de Brian May mostra o outro lado da equação: o cuidado depois do plantio. Cerca, protetor, corte gradual de herbicida e acompanhamento com a Dorset Wildlife Trust estavam no plano desde o início. Manter de pé o que foi recuperado também pesa na Mata Atlântica, como mostra o recuo de 22%.
