Sylvio Massa critica a privatização da antiga subsidiária, questiona a prioridade aos dividendos e defende a volta da Petrobras à distribuição de combustíveis
A Petrobras deve voltar a distribuir combustíveis no Brasil. Essa é a posição do economista Sylvio Massa, um dos criadores da BR Distribuidora, que critica a venda da empresa e questiona quem ganhou com a saída da estatal desse mercado.

Em entrevista ao jornalista Beto Almeida, no programa Latitud Brasil, Massa defendeu a recuperação da antiga subsidiária. Para ele, a decisão de vender a distribuidora enfraqueceu a capacidade da Petrobras de influenciar os preços e proteger o consumidor.
“A Petrobrás já fazia distribuição e eu era superintendente. Nada impede que a empresa volte a fazê-lo”
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O argumento atinge uma disputa central no setor: qual deve ser a prioridade de uma companhia controlada pelo Estado? Massa cobra maior compromisso com o abastecimento nacional e acusa os interesses ligados aos dividendos de ocupar espaço excessivo nas decisões da empresa.
A venda que Massa considera um erro para o país
A crítica do economista parte de uma experiência direta. Ex-superintendente de Distribuição da Petrobras, Massa foi diretor comercial da BR e participou de sua criação, conforme a biografia publicada pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
A distribuidora nasceu em 12 de novembro de 1971, para comercializar derivados de petróleo e concorrer com as empresas que já operavam no Brasil. A data, registrada na história institucional da companhia, antecede a crise internacional do petróleo de 1973.
Ao recordar aquele mercado, Massa descreve um setor dominado por grandes companhias estrangeiras. Em sua avaliação, a entrada da BR deu à Petrobras condições de interferir na concorrência por meio da própria atividade comercial.
“A BR era parâmetro para os custos e a distribuição em todo território nacional”, declarou.
É essa referência que, segundo ele, o país perdeu. Massa sustenta que a presença da distribuidora ajudava a conter preços e dava à Petrobras uma atuação mais próxima do consumidor.
Sua defesa da retomada nasce daí: na visão do economista, a estatal abriu mão de uma empresa que tinha utilidade para o país além do resultado financeiro.
Petrobras saiu, mas a disputa sobre a decisão continua
A separação ocorreu em duas etapas decisivas durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2019, a Petrobras deixou de controlar a BR após uma oferta de ações. Em julho de 2021, vendeu os 37,5% que ainda possuía e encerrou sua participação acionária na distribuidora.
Naquele mesmo ano, a antiga subsidiária adotou o nome Vibra Energia.
Massa contesta a lógica dessa saída. Para ele, a distribuição deveria permanecer entre as atividades da Petrobras porque permite disputar o mercado que recebe os combustíveis produzidos nas refinarias.

O economista também critica a prioridade que atribui aos investidores interessados em dividendos. Sua avaliação é que o consumidor brasileiro perdeu espaço nessa escolha.
A Petrobras apresentou outra justificativa ao concluir a venda: afirmou que a operação buscava melhorar a alocação de capital e reorganizar seus negócios.
A divergência está no destino dado à empresa e no papel que ela deveria cumprir. Enquanto a justificativa da venda se concentrou na gestão dos investimentos, Massa cobra a preservação de uma presença estatal na distribuição.
O preço internacional cabe no salário brasileiro?

Na entrevista, Massa também atacou o preço de paridade de importação, o PPI, adotado em 2016, durante a gestão de Pedro Parente. Sua crítica se concentra na aproximação dos preços brasileiros às condições de compra de combustíveis no exterior.
O economista questiona o efeito dessa referência sobre uma população com renda inferior à dos países ricos. Em sua avaliação, a política favoreceu importações e contribuiu para deixar parte da capacidade das refinarias brasileiras sem utilização.
Massa relaciona esse processo ao enfraquecimento da Petrobras e à abertura de espaço para a venda de ativos. Essa é a interpretação apresentada por ele na entrevista.
“Ou o Brasil retoma o controle desse mercado, ou estaremos sem saída”, afirmou.
O PPI, porém, não pode ser tratado como uma política que atravessou os anos sem mudanças. Em maio de 2023, a Petrobras anunciou o fim da vinculação obrigatória à paridade de importação na definição dos preços de gasolina e diesel.
A estratégia anunciada passou a considerar as alternativas de abastecimento dos clientes e as condições comerciais da própria Petrobras. A empresa manteve referências de competitividade por polo de venda.
A mudança é relevante para entender a discussão. A proposta de Massa, contudo, exige mais do que alterar a política de preços: ele quer a companhia novamente presente na distribuição.
Quem deve orientar as decisões da Petrobras?

Ao pedir o “resgate” da Petrobras, Massa dirige sua cobrança também ao Conselho de Administração. Ele considera excessivo o peso dos interesses dos acionistas sobre os rumos da companhia.
A crítica exige uma distinção: a Petrobras continua sob controle da União. Conforme o perfil institucional da empresa, ela é uma sociedade de economia mista, e a presença de investidores privados não retirou do governo federal o controle acionário.
O que Massa põe em discussão é o uso desse controle. Para ele, a atuação da empresa deve responder com mais força às necessidades do país, especialmente no abastecimento e no preço dos combustíveis.
Na entrevista, o economista defende a mobilização da juventude e a participação dos meios de comunicação nessa disputa. Sua cobrança é política: fazer da recuperação da presença estatal no mercado de combustíveis uma pauta pública, com pressão sobre quem decide os próximos passos da Petrobras.
