A BP nomeia Meg O’Neill como nova CEO, reforça estratégia focada em petróleo e gás, responde à pressão de investidores e sinaliza mudança definitiva após resultados fracos em energias renováveis.
A BP iniciou um novo capítulo em sua trajetória ao anunciar a nomeação de Meg O’Neill como nova CEO. A executiva assume o comando da companhia em um momento decisivo, marcado por cobranças do mercado e pela necessidade de reposicionar a estratégia da gigante do petróleo.
A troca ocorre após apenas dois anos da gestão de Murray Auchincloss, que deixa o cargo em meio a resultados considerados abaixo do esperado.
Com a decisão, a empresa sinaliza ao mercado uma retomada clara do foco em petróleo e gás, após uma tentativa frustrada de acelerar investimentos em energias renováveis. O movimento também entra para a história da companhia, já que O’Neill se torna a primeira mulher a liderar a BP.
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Pressão de investidores acelera reorientação estratégica
Nos últimos anos, a BP enfrentou uma combinação de desafios. Entre eles, retornos fracos em projetos verdes, desastres corporativos, impactos geopolíticos e desempenho inferior ao de concorrentes diretas. Esse cenário abriu espaço para a atuação do investidor ativista Elliott Investment Management, que passou a pressionar a empresa por mudanças profundas.
O fundo adquiriu pouco mais de 5% de participação na BP e passou a defender uma volta ao foco tradicional em petróleo e gás. Além disso, exigiu cortes relevantes de custos, venda de ativos e redução da exposição a negócios considerados pouco rentáveis.
Esse contexto foi decisivo para a mudança no comando. Para analistas, a escolha de O’Neill reforça a intenção de executar uma estratégia mais pragmática e alinhada ao core business da companhia.
Perfil técnico reforça estratégia de “volta ao básico”
Meg O’Neill construiu carreira sólida no setor de petróleo. Antes de ser escolhida pela BP, comandou por quatro anos a Woodside Energy, uma das maiores petroleiras da Austrália. Anteriormente, acumulou mais de duas décadas de experiência na Exxon Mobil, uma das gigantes globais do setor.
Segundo Neil Beveridge, diretor-gerente de pesquisa da Bernstein, o perfil da nova CEO aponta para uma abordagem mais direta. “Ela tem um histórico muito prático em engenharia e operações, o que sugere uma abordagem de volta ao básico para a BP”, afirmou. Ele acrescentou: “Com a entrada de Meg a bordo, a direção será claramente de petróleo e gás e GNL”.
Enquanto O’Neill não assume oficialmente, em abril, Carol Howle ocupará o cargo de CEO interina, conforme comunicado divulgado pela empresa.
Estratégia anterior não convenceu o mercado
Murray Auchincloss assumiu a presidência executiva em janeiro de 2024, após a saída repentina de Bernard Looney. A renúncia do antigo CEO ocorreu depois que ele deixou de revelar relacionamentos anteriores com colegas, o que abalou a governança da empresa.
Já sob pressão, Auchincloss tentou redefinir os rumos da BP. Em fevereiro deste ano, anunciou planos de desinvestimento para reduzir a dívida e fortalecer o balanço. No entanto, até agora, as vendas de ativos foram limitadas. A reação dos investidores, portanto, foi considerada morna.
Nesse intervalo, a companhia passou a ser alvo de rumores de aquisição. Em maio, a Bloomberg informou que a Shell Plc analisava a possibilidade de comprar a BP. No mês seguinte, porém, a Shell negou qualquer intenção de oferta, rebatendo informações do Wall Street Journal sobre negociações avançadas.
Histórico de O’Neill reforça aposta em petróleo e gás natural
Durante sua gestão na Woodside, Meg O’Neill concentrou esforços na expansão de ativos estratégicos de gás. A empresa avançou na aquisição de um projeto de usina de gás natural liquefeito nos Estados Unidos, no estado da Louisiana. Além disso, obteve autorização para manter em operação a maior e mais antiga instalação de exportação de gás da Austrália até 2070.
Desde 2021, O’Neill também liderou a aquisição multibilionária da unidade de petróleo do BHP Group. Paralelamente, expandiu os negócios de GNL fora da Austrália, reforçando a presença global da Woodside.
Outro ponto relevante foi sua defesa pública do gás natural como combustível de transição. Para a executiva, o gás pode reduzir a dependência global do carvão e contribuir para a diminuição das emissões, sem comprometer a segurança energética.
Investidores veem mudança como sinal positivo
Apesar do impacto inicial, analistas avaliam que a troca no comando pode beneficiar a BP no médio prazo. Para a Piper Sandler, a mudança tende a ser bem recebida pelo mercado.
“Embora o anúncio tenha sido surpreendente em termos de tempo e imediatismo, esperamos que a mudança seja, em última análise, positiva” para o preço das ações da BP, afirmaram os analistas da instituição, incluindo Ryan Todd.
Eles destacaram ainda que havia uma demanda crescente por uma abordagem mais agressiva. Segundo a nota, investidores defendiam que “tudo estivesse na mesa”, incluindo revisão completa da estratégia, do portfólio e até da cultura corporativa, algo que poderia se beneficiar de uma liderança externa.
Reflexos no mercado global de petróleo
A movimentação da BP ocorre em um momento em que grandes companhias do setor reavaliam seus compromissos com a transição energética. O retorno ao foco em petróleo e gás indica que, para parte da indústria, o afastamento acelerado dos combustíveis fósseis não entregou os resultados esperados.
Enquanto isso, a Woodside também passa por ajustes. As ações da empresa australiana fecharam em queda de 2,7% em Sydney, no menor nível desde outubro. A companhia informou que Liz Westcott assumirá como CEO interina após a saída de O’Neill.
Esse cenário reforça como decisões estratégicas no setor de petróleo seguem altamente conectadas ao humor dos investidores, às pressões por rentabilidade e às incertezas do mercado global de energia.

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