Fenômeno natural associado à ressaca e ao comportamento da espécie levou milhares de bolachas-do-mar à faixa de areia em Ilha Comprida, mobilizando análise técnica e ações pontuais de manejo para reduzir impactos sem comprometer o equilíbrio ambiental costeiro.
O aparecimento de milhares de bolachas-do-mar na faixa de areia de Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo, foi classificado pela prefeitura como um fenômeno natural associado à ressaca, ao mar agitado e à dinâmica biológica da espécie.
O registro ocorreu em 8 de março de 2026 e, dias depois, a administração municipal divulgou uma nota com base em análise técnica da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, que descartou a necessidade de intervenção ampla em toda a praia e orientou ações pontuais apenas nos trechos mais críticos.
Encalhamento de bolachas-do-mar e condições do mar
Segundo a Nota Técnica 002/2026, o encalhamento em larga escala envolve exemplares de Mellita quinquiesperforata, espécie que vive em águas rasas, sobre fundos arenosos e em agrupamentos próximos à arrebentação.
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Nessa condição, mudanças no mar e no tempo podem deslocar os organismos para a areia, sobretudo quando há ressaca combinada com frente fria e ondas mais intensas.
A própria fundação registrou que o episódio coincidiu com essas condições ambientais no fim de semana em que houve o aparecimento dos bichos.
A análise oficial informa que o caso foi verificado ao longo de um extenso trecho da praia e motivou consulta da prefeitura sobre a possibilidade de limpeza controlada.

O documento aponta que a maré alta e a ressaca depositaram grande quantidade de bolachas-do-mar na faixa de areia, situação que passou a gerar odor e desconforto para moradores, comerciantes e frequentadores da orla.
A Fundação Florestal tratou o episódio como uma demanda local ordinária e produziu orientação específica para o município.
Comportamento da espécie ajuda a explicar o fenômeno
Além da ação das ondas, a nota menciona o comportamento natural da espécie como fator relevante para entender o encalhamento.
O parecer técnico reproduz a avaliação de um especialista consultado pela gestão da área protegida, segundo a qual esses organismos vivem agregados em regiões rasas sujeitas à dinâmica das ondas e, dependendo da época do ano, podem estar mais próximos da rebentação.
Quando o mar piora, esses agrupamentos acabam sendo arrastados e encalham.
Esse padrão é compatível com registros científicos sobre a espécie no Brasil e em outros trechos do Atlântico, que descrevem a presença de Mellita quinquiesperforata em substratos arenosos rasos, abaixo da linha de maré, e em áreas costeiras influenciadas pela energia das ondas.
Estudos acadêmicos também indicam que a distribuição desses organismos varia conforme as características locais da praia e da zona de surfe, o que ajuda a explicar por que episódios assim podem surgir de forma concentrada em determinados períodos.
Recomposição natural é prioridade no manejo ambiental
Embora a cena tenha chamado atenção de quem circulou pela orla, a orientação principal da Fundação Florestal foi de respeito ao processo natural de recomposição.
Em vez de remover automaticamente todos os organismos, o parecer indica que, sempre que possível, a dinâmica das marés deve seguir seu curso para que os próprios movimentos do mar promovam o enterramento natural das bolachas-do-mar.
A recomendação considera o equilíbrio ecológico da faixa de areia e o menor impacto sobre o ambiente costeiro.
Ainda assim, o documento reconhece que o caso de Ilha Comprida apresentou uma condição excepcional.

Como a concentração ocorreu em uma área extensa e com grande volume de indivíduos mortos, a simples interdição de toda a faixa afetada foi considerada impraticável.
Nesse contexto, a fundação autorizou medidas controladas para reduzir os transtornos à população, desde que executadas com critérios técnicos e com o menor impacto possível sobre a praia.
A primeira alternativa indicada foi a rastelagem manual nas áreas mais sensíveis, com uso de equipamentos leves.
O objetivo é evitar revolvimento excessivo da areia e preservar a dinâmica costeira.
Uso de máquinas é restrito a áreas críticas
Apenas quando esse procedimento não for viável, ou quando houver acúmulo muito elevado em pontos específicos, a nota técnica admite o uso restrito de maquinário, sempre limitado aos trechos de maior concentração.
Nos pontos em que a retirada mecanizada for necessária, a fundação orienta a abertura de pequenas valas na parte superior da faixa de areia para o depósito adequado dos organismos.
O texto técnico também frisa que a medida não deve ser expandida indistintamente por toda a praia.
Em áreas com quantidade menor de bolachas-do-mar, a recomendação é não executar intervenção mecânica, justamente para evitar dano desnecessário ao ecossistema costeiro.
Monitoramento e resposta oficial do município
A prefeitura afirmou que passou a conduzir as ações com base nessas diretrizes e informou que segue monitorando a situação.
A comunicação oficial do município reforça que as medidas adotadas buscam conciliar o uso público da praia com a preservação ambiental, dentro das normas aplicáveis às áreas protegidas da região.
O município também destacou que a resposta foi construída a partir do parecer dos órgãos responsáveis pela gestão ambiental local.
Espécie comum, mas ocorrência em massa chama atenção

As bolachas-do-mar são equinodermos e costumam ser conhecidas do público sobretudo quando aparecem secas na praia, mas sua ocorrência em grande quantidade ainda provoca estranhamento.
No caso de Ilha Comprida, o que tornou o episódio incomum não foi a presença isolada da espécie, e sim o encalhamento em massa observado em um único trecho temporal, com repercussão imediata entre moradores e comerciantes por causa do odor e do impacto visual na areia.
A própria fundação registra que houve relatos em redes sociais e canais oficiais da prefeitura sobre a extensão do problema.
A publicação da prefeitura sobre o caso foi ao ar em 19 de março de 2026, às 14h08, já com referência direta à nota técnica da Fundação Florestal.
O documento, por sua vez, traz assinaturas eletrônicas datadas de 18 e 19 de março e foi emitido no âmbito do processo administrativo 262.00002234/2026-76.
Esses registros ajudam a situar a resposta institucional dada depois do aparecimento em massa observado em 8 de março.
Ao detalhar a estratégia adotada, os órgãos envolvidos evitam tratar o episódio como evento sem explicação ou como sinal automático de contaminação.
A leitura técnica apresentada até aqui associa o encalhamento a fatores oceanográficos e biológicos já reconhecidos, com manejo pontual apenas onde o acúmulo de organismos mortos trouxe efeitos diretos sobre a rotina da praia.
A tendência indicada no parecer é preservar o funcionamento natural da costa sempre que isso for possível, restringindo intervenções às situações em que o volume registrado efetivamente justifique a ação.
