Após morrer, o bóia-fria que ficou milionário com botinas deixa uma herança milionária ligada a uma fazenda com animais exóticos e a uma reserva ecológica em plena disputa judicial pela herança.
Nas terras de Minas Gerais, um bóia-fria que ficou milionário com a venda de botinas deixou para trás uma herança milionária, uma fazenda com animais exóticos e uma vasta reserva ecológica que agora são alvo de uma complexa disputa judicial pela herança, envolvendo família biológica, um ex-funcionário de confiança, uma empresa arrendatária e dois meninos criados como filhos.
O que começou como a história de um trabalhador rural semianalfabeto que apostou em um modelo de botina de lona confortável e durável, cresceu até virar um pequeno império com fábrica nos Estados Unidos, mais de mil funcionários e um zoológico particular cravado no interior. Com a morte de Luiz Antônio Costa, conhecido como Luiz Botina, o que era sonho de proteção ambiental e de legado afetivo virou um caso digno de novela nos tribunais.
De bóia-fria a dono de um império de botinas
Luiz Antônio Costa saiu da condição de bóia-fria, cortador de cana e trabalhador braçal, para se tornar o bóia-fria que ficou milionário ao criar uma botina de lona que unia conforto e durabilidade. A fábrica surgiu em Uberaba, no Triângulo Mineiro, e rapidamente ganhou escala.
-
Imagens de satélite entregam desmatamento ilegal no Paraná, revelam mais de 10,3 hectares de floresta nativa destruídos na Lapa e fazem proprietário receber multa de R$ 109 mil
-
Governo estadual lança plano inédito contra lixo no mar com 45 metas, ações por 10 anos e prioridade para reduzir plásticos que já aparecem em 100% das praias analisadas no litoral brasileiro
-
Correios preparam novo plano de demissões para até 7 mil funcionários em meio à crise: o plano deve mirar empregados de unidades que serão extintas durante a reestruturação da companhia
-
Aposentadoria já não cobre as contas de milhões no Brasil: número de idosos trabalhando cresce 53% em dez anos e expõe a dura realidade de quem precisa seguir na ativa depois dos 60
Ele apostou em um conceito simples e ousado: uma botina de lona, mais leve e mais acessível do que o couro tradicional, aliada a um investimento pesado em propaganda.
O resultado foi um crescimento meteórico. A empresa chegou a ter cerca de 1.300 funcionários e produzir 16 mil pares de calçados por dia, abrindo inclusive uma filial nos Estados Unidos e passando a faturar em dólar.
Com o tempo, o bóia-fria que ficou milionário construiu um patrimônio diversificado, mas sempre teve clareza sobre qual era o seu bem mais precioso: a fazenda onde pretendia consolidar o seu maior sonho, uma reserva ecológica com espécies raras e estrutura para receber pessoas.
Fazenda com animais exóticos e reserva ecológica particular

Com o dinheiro das botinas, Luiz comprou uma fazenda de 180 alqueires, o equivalente a quase 1.100 campos de futebol, e começou a transformá-la em uma mistura de parque ecológico, santuário e zoológico particular.
Ali nasceram a fazenda com animais exóticos e a reserva ecológica que ele dizia ser o grande sonho da sua vida.
Ele trouxe animais da fauna brasileira e de várias partes do mundo. Havia girafa vinda da Tchecoslováquia, antílopes africanos, lhamas do Peru e outros bichos raros, que passaram a viver nos pastos, recintos e áreas abertas da fazenda.
A girafa, batizada de Loura, era apontada como o animal mais caro daquele acervo particular.
Além dos animais, Luiz construiu alojamentos, estruturas de apoio e um centro de convenções no meio de um lago, projeto que ele próprio dizia ter consumido cerca de 50 milhões de dólares, valor que, atualizado à época da declaração, equivaleria a algo em torno de 250 milhões de reais.
A fazenda se tornou o cenário físico mais marcante da sua trajetória e também o epicentro da atual disputa judicial pela herança.
Dívidas com o fisco, prisão decretada e fechamento da fábrica
A ascensão do bóia-fria que ficou milionário teve um ponto de ruptura quando surgiram as dívidas fiscais. Multas por sonegação se acumularam até levarem à decretação de prisão em 2007.
Para escapar da polícia, Luiz passou cerca de um ano e meio escondido no mato, tentando, segundo amigos, provar a própria inocência e relatando o que carregava às costas enquanto se afastava da vida empresarial.
Contrariado com a situação, sentindo-se perseguido e estrangulado pelas cobranças, ele tomou uma decisão radical: demitiu todos os funcionários e fechou a fábrica de botinas.
A partir daí, recuou para a fazenda, afastou-se ainda mais da família biológica e se cercou de poucos amigos de confiança.
Em 2019, a dívida fiscal foi executada, e a fazenda só não foi a leilão porque Luiz conseguiu parcelar um débito de quase 18 milhões de reais, parte dele paga com dinheiro proveniente de uma empresa que arrendava 110 alqueires da propriedade para o plantio de cana.
A partir desse ponto, as relações entre fazenda, dívidas e contratos começaram a se complicar, abrindo caminho para a atual disputa judicial pela herança.
A família que ele escolheu: Reginaldo, Elaine e os dois meninos
Depois de fechar a fábrica, Luiz passou a viver na fazenda ao lado de Reginaldo e Elaine, um casal que acompanhou toda a sua trajetória, desde o auge até o isolamento final.
Eles administravam o dia a dia da propriedade, cuidavam dos animais, dos galpões e da própria reserva ecológica, sendo apontados como guardiões do lugar.
Luiz pedia a eles algo além do trabalho: queria que tivessem filhos para que ele pudesse criá-los como pai. O casal teve dois meninos, e, com o tempo, o empresário se referia a eles como filhos, participava da rotina, ensinava a nadar, andar a cavalo e compartilhar tarefas.
Em entrevistas passadas, ele chegou a dizer que desejava que essa família desse continuidade ao sonho da fazenda com animais exóticos e do santuário ecológico.
Ele afirmava querer dar a terra para Reginaldo, com a condição de que o local permanecesse como um santuário ecológico, onde “quem manda são os bichos”.
Em um registro em vídeo, Luiz apresentava os meninos como se fossem sua família de fato. Para Reginaldo e Elaine, Luiz era mais do que patrão: era um parente afetivo e a figura paterna dos filhos.
Com a morte do bóia-fria que ficou milionário em janeiro, vítima de infarto, o casal entrou na justiça pedindo o reconhecimento da paternidade socioafetiva pós-morte, argumentando que, na prática, se formou ali uma família independente dos laços de sangue.
Eles também defendem que Luiz desejava que a reserva ecológica fosse preservada e conduzida pelos dois meninos.
O ex-funcionário que virou dono da fazenda no papel
O enredo se complica quando se descobre que, por causa das dívidas fiscais e de problemas com o fisco, Luiz havia transferido a escritura da fazenda com animais exóticos para o nome de um ex-funcionário de confiança, Dalgo Alfredo Silva, ainda em 1996.
Na prática, a fazenda continuou sendo usada, administrada e tratada como sendo de Luiz, mas, no papel, o proprietário era Dalgo.
A situação nunca chegou a ser revertida. Quando Dalgo morreu, vítima de covid em 2020, abriram-se as portas para um novo capítulo da disputa judicial pela herança.
A mãe e a irmã de Dalgo, herdeiras legais dele, relatam em documento que teriam sido levadas a um cartório, onde assinaram uma cessão de direitos hereditários sem plena consciência do alcance do ato.
Segundo o relato, elas receberam uma quantia e depois perceberam que tinham transferido o direito sucessório de Dalgo sobre a fazenda para uma empresa.
Em extrato bancário, a irmã afirma ter visto uma transferência de 1 milhão de reais justamente no dia da morte de Luiz.
Elas dizem que a fazenda sempre foi, de fato, de Luiz, e manifestam intenção de devolver o dinheiro, alegando que foram enganadas e que não tinham entendimento completo daquela negociação.
A empresa da cana e a cobrança das dívidas
Outra peça importante entra em cena: a empresa que arrendava 110 alqueires da fazenda para plantio de cana e que, segundo os relatos, teria emprestado dinheiro a Luiz em 2019 para que ele pudesse quitar parte das dívidas com a Receita Federal.
É essa empresa que aparece como beneficiária da cessão de direitos hereditários feita pela mãe e pela irmã de Dalgo.
Em nome dessa cessão e da dívida, a empresa reivindica a posse da fazenda, exigindo inclusive a saída de Reginaldo, Elaine e dos dois meninos da propriedade onde hoje vivem e cuidam da reserva ecológica e da fazenda com animais exóticos.
Em nota, a empresa informa que optou por discutir tudo apenas na esfera judicial, sem detalhar publicamente o acordo, os valores ou a estratégia.
Assim, ela se coloca como mais um ator central na disputa judicial pela herança do bóia-fria que ficou milionário.
Irmãos, sobrinhos e a família biológica
Do outro lado estão os irmãos e sobrinhos de Luiz, herdeiros biológicos que se apresentam como sucessores naturais do patrimônio. Luiz tinha oito irmãos, dos quais seis ainda estariam vivos.
Segundo amigos próximos, porém, a relação de Luiz com parte da família biológica foi se desgastando ao longo dos anos.
A distância, o ressentimento e a sensação de que ele queria “apagar o passado” teriam afastado o empresário dos parentes de sangue.
Há relatos de que ele dizia se sentir desanimado com algumas atitudes, buscando, na convivência com Reginaldo, Elaine e os meninos, um novo núcleo afetivo.
Ainda assim, do ponto de vista do direito sucessório tradicional, os irmãos e sobrinhos reivindicam a divisão da herança entre eles, sustentando que, na ausência de filhos reconhecidos em registro civil, a família biológica é quem deve receber a herança milionária deixada pelo bóia-fria que ficou milionário.
Procurados, esses familiares preferiram não falar publicamente sobre o caso, mas atuam judicialmente para que o patrimônio seja partilhado conforme a ordem legal de herdeiros.
O que está em jogo na disputa judicial pela herança
O que se discute hoje é um patrimônio avaliado em mais de 100 milhões de reais, com estimativas que chegam a uma herança de 160 milhões, considerando fazenda, galpões, imóveis e outros bens.
De um lado, estão Reginaldo, Elaine e os dois meninos, que afirmam ter constituído uma família de fato com Luiz, com forte vínculo afetivo, e defendem que a reserva ecológica e a fazenda com animais exóticos sejam preservadas conforme o sonho do empresário.
De outro, está a empresa arrendatária, que alega ter aportado recursos para pagamento de dívidas fiscais e apresenta a cessão de direitos hereditários de Dalgo como base para reivindicar a propriedade.
Em outro flanco, surgem a mãe e a irmã de Dalgo, que alegam terem sido enganadas, querem devolver o dinheiro e reconhecem que a fazenda sempre pertenceu, de fato, ao bóia-fria que ficou milionário.
Por fim, há a família biológica, com irmãos e sobrinhos que se veem como herdeiros legítimos e pedem a partilha tradicional da herança milionária.
É uma trama em que se cruzam afeto, negócios, dívidas fiscais, transferências de propriedade, animais raros e um sonho de santuário ecológico.
Enquanto a justiça não decide, a fazenda segue habitada por girafas, lhamas, antílopes e outras espécies, à sombra da pergunta que ninguém consegue responder de imediato: como conciliar vontade do falecido, vínculos afetivos e regras frias da sucessão patrimonial.
No fim, a história do bóia-fria que ficou milionário mostra que, muitas vezes, o mais difícil não é conquistar uma fortuna, mas decidir o que será feito dela depois.
E você, olhando para essa disputa entre família biológica, empresa, ex-funcionário e filhos de criação, quem você acha que deveria ter prioridade na herança milionária e no futuro da fazenda com animais exóticos e da reserva ecológica?


1
Penso que a família dele não era a biológica, já que era afastados não tinham convivência, creio que o casal que morava na fazenda Elaine Reginaldo e os dois meninos que deveriam ficar com os bens ….família é o maior bem que temos não sei o que seria de mim sem meus familiares irmãos, (as)cunhadas (os ) sobrinhos …mas temos um relacionamento muito forte somos unidos até com os primos (as) somos muito presentes nos encontramos sempre que Deus ilumine paz e bem