Gigantes de tecnologia planejam US$ 635 bilhões em data centers de IA, mas crise energética e geopolítica ameaçam os planos enquanto o Brasil se posiciona com megacomplexos no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, apostando no gás natural como fonte firme para garantir operação 24 horas em infraestruturas que podem consumir o equivalente a 16 milhões de residências.
A inteligência artificial está reescrevendo os mapas do consumo energético global. Assim, os data centers de IA se tornaram um dos debates mais urgentes da economia mundial.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram 415 TWh de eletricidade em 2024 — cerca de 1,5% de todo o consumo global. Portanto, isso equivale ao consumo anual de países inteiros.
O relatório da IEA projeta que esse consumo pode dobrar até o final de 2026, superando 1.000 TWh — equivalente à Alemanha ou ao Japão.
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Além disso, o Gartner quantifica a aceleração. O consumo global de data centers deve saltar de 448 TWh em 2025 para 980 TWh em 2030. Os servidores de IA devem passar de 21% para 44% do total nesse período.

Data centers de IA podem consumir o equivalente a 16 milhões de casas no Brasil
O Brasil ocupa o 12º lugar no ranking mundial de data centers e lidera a América Latina, com cerca de 200 clusters instalados. Contudo, o país está prestes a dar um salto qualitativo gigantesco.
Para ter dimensão da diferença: um data center convencional de 20 MW consome o equivalente a 80 mil residências por dia. Já os novos megacomplexos de IA operam em escala radicalmente maior.
Dessa forma, os quatro primeiros complexos de IA no Brasil — previstos para Rio de Janeiro (RJ), Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG) — devem consumir juntos o equivalente a 16,4 milhões de residências.
O maior deles é o Rio AI City, em Jacarepaguá, com potência inicial de 1.500 MW — equivalente ao consumo diário de 6 milhões de casas — e expansão prevista para 3.200 MW.
No Rio Grande do Sul, o Scala AI City em Eldorado do Sul chegará a 1.800 MW até 2033. Portanto, pode alcançar 5.000 MW — tudo isso num município com apenas 40 mil habitantes.

Demanda dos data centers de IA no Brasil deve saltar 23 vezes até 2030
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já incorporou esse impacto no planejamento. Segundo o PLAN 2026–2030, a demanda adicional dos data centers deve saltar de 89 MW médios em 2025 para 2.157 MW médios em 2030.
Além disso, a projeção do MIT Technology Review Brasil vai na mesma direção. O consumo de eletricidade dos data centers brasileiros deve mais que dobrar até 2029, saltando de 1,7% para 3,9% da demanda nacional.
Por consequência, esse percentual ultrapassará o consumo de toda a iluminação pública do país.
Big techs planejam US$ 635 bilhões, mas crise ameaça investimentos
Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta planejavam investir cerca de US$ 635 bilhões em 2026 em data centers, chips e infraestrutura de IA.
Contudo, esse plano agora enfrenta um obstáculo grave. Melissa Otto, chefe de pesquisa da S&P Global Visible Alpha, alertou que a crise gerou preocupações sérias com os custos de energia.
A lógica é simples: data centers são infraestruturas extremamente intensivas em energia. Quando o preço dispara, a equação econômica dos investimentos em IA se deteriora rapidamente.
Além disso, o Gartner alerta que 40% dos data centers de IA existentes estarão limitados por disponibilidade de energia até 2027. Bob Johnson, vice-presidente do Gartner, afirmou que a demanda de energia da IA “superará a capacidade dos provedores de expandir a infraestrutura com rapidez suficiente”.

Gás natural surge como solução para energia firme dos data centers de IA
Data centers exigem disponibilidade energética entre 99,982% e 99,995% ao ano — menos de cinco minutos de falha em doze meses. Portanto, essa exigência é incompatível com a natureza intermitente de fontes como solar e eólica.
Dessa forma, o gás natural se posiciona como solução estratégica. Turbinas a gás, motores de ciclo combinado e microturbinas podem ser instalados junto aos data centers, oferecendo geração descentralizada e redundância.
Além disso, o gás natural emite até 50% menos CO₂ do que carvão e óleo combustível. Também garante maior estabilidade de preços em comparação à eletricidade da rede.
Um estudo inédito da Energisa com o instituto Pensar Energia revelou que o futuro dos data centers no Brasil depende diretamente da integração entre fontes renováveis e energia firme de gás natural.
Assim, o Nordeste brasileiro — com ventos constantes, alta irradiação solar e capacidade renovável instalada — pode se tornar um hub digital nacional. Contudo, precisa de energia despachável. Atualmente, mais de 20% da geração renovável nordestina é descartada por falta de demanda regional.
Pesquisas da USP confirmam a viabilidade: sistemas de cogeração a gás natural em data centers são economicamente viáveis e aumentam a disponibilidade da infraestrutura.

Debate regulatório: REDATA pode excluir o gás natural
Em setembro de 2025, o governo criou o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), com suspensão de tributos federais. A Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro de 2026 o PL 278/26.
Contudo, o regime exige que as empresas usem exclusivamente energia de fontes limpas ou renováveis. Por isso, entidades como IBP, Abegás, FGV Energia, Firjan e Fiergs lançaram manifesto pedindo a inclusão do gás natural.
O argumento é direto: sem uma fonte firme e estável, o Brasil corre o risco de perder competitividade na atração de data centers globais.
Para entender como o setor de petróleo e gás já investe em automação e robótica, veja a reportagem completa.
Brasil tem 87% da matriz renovável, mas data centers de IA exigem mais
O Brasil tem 87% da matriz elétrica composta por fontes renováveis — contra média global de 30%. Portanto, o país oferece uma combinação de custo e pegada de carbono difícil de replicar.
O pipeline de investimentos reflete esse potencial: estima-se R$ 500 bilhões em data centers até 2030, com objetivo de quadruplicar a capacidade de 730 MW para 3,2 GW.
Ainda assim, a IEA aponta que o consumo global de água por data centers está em 560 bilhões de litros por ano — e deve chegar a 1,2 trilhão de litros até 2030. Um único data center pode consumir 1,9 milhão de litros por dia.
Dessa forma, a integração com o biometano reforça ainda mais a perspectiva. A mesma infraestrutura que opera com gás natural pode receber volumes renováveis progressivamente. Confira também como a Petrobras investe US$ 180 milhões em tecnologia submarina para manter essa infraestrutura operando.
Enquanto as big techs disputam chips e capacidade de processamento, a disputa mais estratégica dos próximos cinco anos pode estar nos contratos de fornecimento de energia firme — e quem domina essa energia no Brasil serão as empresas de gás natural.


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