No estado de Washington, o lago Ketchum recebeu duas aplicações iniciais de sulfato de alumínio e aluminato de sódio para bloquear o fósforo na água e no sedimento, reduzir as algas, elevar a transparência e testar uma recuperação química sem revolver o fundo inteiro do reservatório em operação anual controlada.
O lago Ketchum, no noroeste do condado de Snohomish, a cerca de três quilômetros ao norte de Stanwood, passou por uma intervenção incomum para tentar corrigir um problema que se acumulou durante décadas no fundo e na coluna d’água. Em vez de apostar em dragagem integral do leito, o projeto concentrou a resposta em aplicações de sulfato de alumínio e aluminato de sódio para prender o fósforo na água e no sedimento.
A escolha não foi aleatória. Antes da restauração, o lago registrava níveis de fósforo 13 vezes maiores do que os valores estabelecidos pelo estado, condição que alimentava florações recorrentes e comprometia o uso público da área. O centro da estratégia era interromper o ciclo interno da poluição, especialmente o retorno anual do nutriente armazenado no fundo, sem precisar remover mecanicamente todo o material acumulado.
Por que o lago Ketchum entrou em colapso de qualidade

O ponto de partida da crise era químico e estrutural ao mesmo tempo. O lago Ketchum recebia fósforo de três frentes principais identificadas no estudo conduzido entre 2010 e 2012.
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A entrada do lago respondia por 23% da carga, drenando uma antiga fazenda leiteira com solos já sobrecarregados.
Outras fontes residenciais, como fossas sépticas, fertilizantes, dejetos de animais de estimação, águas subterrâneas e escoamento de chuva, respondiam por 4%.
Mas o dado decisivo estava no fundo. Nada menos que 73% do fósforo vinha dos sedimentos do próprio lago, acumulados ao longo de décadas.
Esse estoque interno era reativado ano após ano, voltando à água e alimentando novas florações. É por isso que o projeto não se limitou a olhar para as margens ou para a superfície.
A contaminação mais persistente estava enterrada no sedimento e, sem neutralizar esse reservatório, qualquer melhora seria passageira.
Essa leitura técnica explica por que a dragagem total do leito não se tornou a solução central.
Remover todo o fundo de um lago público de 10,5 hectares significaria uma operação mais extensa, cara e disruptiva.
O plano desenvolvido pelo Departamento de Gestão de Águas Superficiais com os moradores preferiu outra via: usar alumínio tratado para imobilizar o fósforo exatamente onde ele sustentava o problema, tanto na água quanto no sedimento.
Como o alumínio foi aplicado e por que 2014 não encerrou a operação

O elemento mais crítico do plano foi um tratamento inicial em larga escala com sulfato de alumínio, seguido por manutenções anuais menores com o mesmo produto.
Segundo o projeto, esse método era considerado o mais eficaz para controle de fósforo em lagos porque o composto se liga permanentemente ao nutriente presente na água e nos sedimentos, retirando sua disponibilidade para novas florações.
O aluminato de sódio entrou como tampão de pH, estabilizando a aplicação.
Em maio de 2014, contratados aplicaram mais de 13.400 galões de sulfato de alumínio líquido e 7.400 galões de aluminato de sódio.
A dosagem foi calculada para remover o fósforo da coluna d’água e inativar a maior parte do nutriente armazenado no fundo do lago. Só que a primeira operação precisou ser interrompida antes da conclusão por complicações que levaram à morte de alguns peixes.
Isso mostrou que a técnica era promissora, mas exigia controle operacional muito mais rigoroso.
O segundo tratamento de grande porte ocorreu em março de 2015. Nessa etapa, foram usados mais 13.000 galões de sulfato de alumínio e 8.100 galões de aluminato de sódio.
Para evitar a repetição do problema anterior, a empresa melhorou o método de mistura dos produtos na água, e a aplicação foi antecipada para o início do ano, antes do avanço das florações. Dessa vez, a execução foi concluída sem complicações.
A partir de 2016, o lago passou a receber aplicações anuais menores, concentradas no fósforo que continua entrando pela foz durante o inverno.
O que mudou na água e no sedimento depois do tratamento
Os resultados medidos após a intervenção mostram por que o projeto ganhou peso técnico. As concentrações totais de fósforo caíram 95% nas águas superficiais e 98% nas águas de fundo.
Na prática, isso significa que o mecanismo que devolvia o nutriente do sedimento para a água foi quase eliminado. O coração do problema estava no fundo, e foi ali que a resposta química produziu o maior efeito.
A melhora não ficou restrita aos indicadores de nutrientes. Os níveis de algas no verão, medidos por clorofila a, caíram mais de 85%, enquanto a transparência média da água aumentou 1,8 metro.
Esse salto é importante porque torna visível a diferença entre um lago dominado por carga interna de fósforo e um lago onde essa circulação foi contida.
Houve apenas uma floração potencialmente tóxica registrada na primavera de 2020, pouco antes do tratamento anual, que naquele ano foi adiado por causa da COVID-19.
Esse dado de 2020 é relevante porque evita uma leitura simplista. O projeto não demonstrou que uma única aplicação isolada resolveria tudo para sempre.
O que ele mostrou foi outra coisa: uma intervenção química pesada, seguida de manutenção anual, pode substituir a dragagem completa como eixo principal de recuperação da água.
O sucesso, portanto, não está em uma solução milagrosa e definitiva, mas em um sistema contínuo de bloqueio do fósforo com custo e escala controláveis.
Quanto custa manter o lago estável e quem banca a conta
Entre 2014 e 2015, os tratamentos iniciais com sulfato de alumínio custaram aproximadamente US$ 250.000. De 2016 a 2020, os custos anuais ficaram relativamente estáveis, variando entre US$ 40.000 e US$ 50.000.
A partir de 2021, porém, o cenário começou a mudar por causa do aumento e da imprevisibilidade dos preços do alumínio, dos custos de transporte e da inflação. Para o período de 2024 a 2029, a estimativa anual passou para cerca de US$ 94.000.
O financiamento também foi organizado de forma compartilhada.
O planejamento original e os tratamentos iniciais foram pagos por proprietários da área do lago, pela Gestão de Águas Superficiais do condado, pelo Distrito de Água Limpa Stillaguamish e pelo Departamento de Ecologia do Estado de Washington.
Depois da etapa inicial, a base de custeio passou a depender dos moradores locais e da estrutura pública do condado. Desde 2024, a SWM cobre 60% do custo, até o limite de US$ 60.000, enquanto a comunidade do lago responde por 40% e por qualquer valor que ultrapasse US$ 100.000.
Esse arranjo importa porque mostra que recuperar a água não foi apenas uma decisão laboratorial, mas também institucional e financeira.
A comunidade do lago ajuda a bancar o processo por meio de taxas cobradas pelo Lake Ketchum Shores Improvement Club, complementadas por uma taxa de serviço de gestão hídrica criada em 2017 a pedido dos próprios moradores.
Sem esse modelo de custeio recorrente, a melhora obtida no sedimento e na água poderia se perder com o tempo.
Por que o projeto não terminou com a melhora inicial
Mesmo com a redução expressiva do fósforo, o plano de controle de algas continuou em andamento porque o problema não dependia apenas do passado acumulado no fundo.
O estudo já mostrava que a entrada do lago seguia trazendo parte da carga externa, especialmente a partir da antiga fazenda leiteira e de fontes difusas em propriedades da bacia.
Por isso, o projeto combinou tratamento químico com monitoramento contínuo, proteção de áreas úmidas e ações para reduzir a poluição em lotes vizinhos.
Nesse ponto entra o programa LakeWise, criado para incentivar mudanças pequenas, mas persistentes, nas propriedades que drenam para o lago.
A meta é reduzir o fósforo vindo de fertilizantes, fossas sépticas, dejetos de animais de estimação e escoamento de telhados e calçadas.
A restauração, portanto, não depende só do alumínio lançado na água, mas da contenção simultânea das fontes que poderiam reabastecer o sistema e comprometer novamente a transparência e a qualidade do reservatório.
O caso do Ketchum interessa justamente porque foge da lógica mais intuitiva de remover tudo por dragagem.
Em vez disso, o projeto tratou o lago como um sistema químico e hidrológico que podia ser reequilibrado pela imobilização do fósforo no ponto exato em que ele sustentava as florações.
O teste mais duro não era apenas fazer a aplicação funcionar, mas manter a água limpa sem precisar revolver integralmente o fundo todos os anos.

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