A moeda é um “real de a ocho” cunhado durante o reinado de Felipe II e foi colocada sobre uma pedra durante a cerimônia de fundação da cidade em 1584 pelo navegador Pedro Sarmiento de Gamboa que depois foi capturado pelos ingleses enquanto tentava buscar suprimentos
Uma moeda de prata do tamanho de uma mão, enterrada sob os alicerces de uma igreja em ruínas no extremo sul do Chile, acabou de resolver um dos mistérios mais antigos da colonização espanhola na América do Sul. Arqueólogos confirmaram que a peça, de 440 anos, marca a localização exata da Ciudad del Rey Don Felipe, uma colônia onde quase todos os 300 colonos morreram de fome.
A descoberta foi feita em março de 2026, durante escavações no sítio arqueológico localizado na margem norte do Estreito de Magalhães, na região que hoje corresponde a Punta Arenas, no sul do Chile, segundo reportagem da revista Live Science.
A moeda não estava ali por acaso. Ela foi deliberadamente colocada sobre uma pedra na fundação da primeira igreja da colônia em 25 de março de 1584, como parte de um ritual de fundação comum nas colônias espanholas do Novo Mundo. E o mais impressionante é que a descrição exata desse ritual e da localização da moeda estava nos escritos de Pedro Sarmiento de Gamboa, o navegador que fundou a colônia.
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Ou seja: os arqueólogos sabiam o que estavam procurando. E encontraram exatamente onde os documentos de quatro séculos atrás diziam que estaria.
Por que a Espanha fundou uma colônia no Estreito de Magalhães?

A resposta tem nome: Francis Drake. O corsário inglês, autorizado pela Rainha Elizabeth I, passou pelo Estreito de Magalhães em 1578 e causou estragos nas operações espanholas na costa do Pacífico, atacando navios e cidades portuárias no Chile e no Peru. Drake foi tão bem-sucedido que o vice-rei do Peru ordenou que Sarmiento de Gamboa fosse atrás dele.
Sarmiento nunca alcançou Drake, mas voltou com uma missão diferente: o Rei Felipe II da Espanha o nomeou governador do Estreito de Magalhães em 1581, com ordens de construir fortes e fundar colônias para impedir que os ingleses usassem a passagem, segundo o portal Heritage Daily.
Na época, o Estreito de Magalhães era a única rota marítima conhecida entre o Atlântico e o Pacífico. Controlar essa passagem significava controlar o comércio global. A missão de Sarmiento era, na prática, trancar a porta do Pacífico na cara dos ingleses.
Mas a realidade foi muito diferente do plano.
O que aconteceu com os 300 colonos?
A expedição de Sarmiento partiu da Espanha com uma frota de navios e centenas de colonos, mas já chegou ao Estreito de Magalhães devastada. Tempestades, naufrágios e deserções reduziram drasticamente o grupo antes mesmo de pisar em terra, segundo o portal Ancient Origins.
Em 1584, Sarmiento fundou duas colônias: a Ciudad del Nombre de Jesús (na atual Argentina) e a Ciudad del Rey Don Felipe (no atual Chile). A segunda, onde a moeda foi encontrada, ficava numa área brutal: solo rochoso, ventos implacáveis e um inverno patagônico que os colonos europeus não estavam preparados para enfrentar.
A agricultura era praticamente impossível. Os suprimentos que deveriam vir da Espanha nunca chegaram porque as tempestades destruíam os navios de abastecimento. Sarmiento partiu para buscar ajuda, mas seu navio foi desviado pela tempestade e ele acabou capturado pelos ingleses. Nunca voltou.
Os colonos ficaram sozinhos. Sem comida, sem reforços, sem saída.
Quando o navegador inglês Thomas Cavendish passou pela colônia em janeiro de 1587, encontrou apenas 18 sobreviventes entre os 300 originais. Os corpos dos demais estavam espalhados, insepultos. Cavendish pegou parte da artilharia, deu passagem a um dos sobreviventes e rebatizou o lugar com o nome que ficaria na história: Puerto del Hambre. Porto da Fome.
O último colono foi resgatado em janeiro de 1590, por outro navio inglês. A ironia é cruel: a colônia fundada para barrar os ingleses foi salva, no final, pelos próprios ingleses.
O que exatamente os arqueólogos encontraram?
A moeda é um “real de a ocho”, conhecida entre piratas como “peça de oito”, uma das primeiras moedas de circulação global da história. De um lado, tem a Cruz de Jerusalém. Do outro, o brasão de armas do Rei Felipe II, segundo a Live Science.
Ela foi localizada usando detectores de metal e equipamentos de geolocalização com precisão milimétrica, sob o que os arqueólogos identificaram como os alicerces da primeira igreja da colônia, conforme explicou Francisco Garrido, arqueólogo do Museu Nacional de História Natural do Chile.
A importância da moeda vai além do seu valor histórico: ela permite mapear toda a colônia. Segundo Garrido, sabendo onde ficava a igreja, é possível deduzir a posição de todas as outras estruturas, porque as colônias espanholas seguiam um padrão urbanístico padronizado.
Não é a primeira descoberta no local. Em 2019, a mesma equipe já tinha encontrado dois canhões de bronze da colônia, também usando os escritos de Sarmiento de Gamboa como guia. A moeda completa o quebra-cabeça.
Por que essa descoberta importa hoje?
Porque ela transforma documentos escritos há quatro séculos em evidência física. Joaquín Zuleta, filólogo da Universidade dos Andes, explicou ao portal Greek Reporter que a descoberta cria uma conexão direta entre os relatos arquivísticos e a paisagem moderna do Estreito de Magalhães, algo raro na arqueologia colonial.
A moeda tem poucos centímetros de diâmetro. Mas carrega o peso de uma cidade inteira e de séculos de perguntas sem resposta. Como escreveu o portal Arkeonews: “Às vezes, os menores objetos carregam o peso de cidades inteiras e de séculos de perguntas sem resposta.”
O Estreito de Magalhães hoje é uma rota movimentada, com navios de cruzeiro e cargueiros passando pelo mesmo ponto onde 300 espanhóis morreram de fome tentando trancar uma porta que o mundo acabou abrindo de qualquer jeito. A moeda enterrada por Sarmiento em 1584 sobreviveu a tudo: ao inverno, à fome, ao abandono e a quatro séculos de esquecimento. Os colonos não tiveram a mesma sorte.
Com informações da Live Science, Ancient Origins, Heritage Daily, Arkeonews e Greek Reporter.

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