Estudo detalha evidências inéditas de cremação pré-histórica e reforça sofisticação cultural de grupos humanos que viveram na região há milênios e transformam nossa compreensão histórica sobre essas sociedades antigas
Uma pira funerária localizada próxima à base do Monte Hora, uma formação de granito que se destaca abruptamente na paisagem, revelou evidências de que o corpo de uma mulher foi cremado há cerca de 9.500 anos.
A descoberta foi detalhada em estudo publicado na revista Science Advances, que aponta para a atuação de grupos de caçadores-coletores que ocupavam a região naquele período.
A análise envolveu ossos e sedimentos encontrados no local, permitindo reconstruir aspectos de um ritual raro e complexo para sociedades desse tipo.
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Os pesquisadores destacam que se trata de um achado singular, capaz de ampliar a compreensão sobre práticas funerárias pré-históricas.
Embora o sítio já fosse conhecido como um espaço de sepultamento, a presença de uma cremação isolada surpreendeu a equipe e reforçou a ideia de que diferentes tradições podiam coexistir entre esses grupos.

Ritual raro: Quem era a mulher cremada
A maior parte dos fragmentos analisados corresponde a ossos de braços e pernas. De acordo com a análise forense, pertenciam a uma mulher com idade estimada entre 18 e 60 anos e com pouco menos de 1,5 metro de altura.
Não foram identificados fragmentos de dentes ou ossos do crânio, o que sugere que a cabeça pode ter sido removida antes da cremação.
Marcas de corte nos ossos indicam que parte da carne foi retirada previamente, conforme explicou Jessica Thompson, professora assistente de antropologia da Universidade de Yale e coautora do estudo.
A hipótese de canibalismo foi descartada, já que os padrões observados diferem daqueles encontrados em ossos de animais.
O sítio Hora 1 e sua longa ocupação
O local, conhecido como Hora 1, fica sob uma grande saliência rochosa capaz de abrigar cerca de 30 pessoas.
Escavado inicialmente na década de 1950, o sítio é reconhecido como um cemitério de caçadores-coletores.
Pesquisas retomadas a partir de 2016 mostraram que humanos ocuparam a área há cerca de 21 mil anos e enterraram seus mortos ali entre 8 mil e 16 mil anos atrás.
Apesar dessa longa história, os fragmentos da pira representam a única cremação identificada até agora.
Segundo Jessica Cerezo-Román, professora associada de antropologia da Universidade de Oklahoma e autora principal do estudo, a cremação é muito rara entre caçadores-coletores antigos e modernos, em parte pelo esforço necessário para construir e manter uma pira.
Evidências do fogo e do ritual
Escavações realizadas entre 2016 e 2019 revelaram um grande monte de cinzas, com cerca do tamanho de uma cama de casal, contendo fragmentos ósseos humanos queimados.
A análise dos sedimentos indica que o fogo ultrapassou 500 °C e permaneceu ativo por horas ou até dias, exigindo reabastecimento constante de madeira.
Com base em vestígios preservados, os pesquisadores estimam que cerca de 30 quilos de madeira seca foram usados, segundo Elizabeth Sawchuk, curadora de evolução humana do Museu de História Natural de Cleveland.
Fragmentos de ferramentas de pedra também foram encontrados, sugerindo que esses objetos foram colocados na pira durante o ritual.
Um espaço de memória ao longo de gerações
Para os cientistas, as evidências apontam para rituais funerários elaborados, possivelmente ligados à memória e à simbologia.
Além da cremação, há sinais de que grandes fogueiras foram acesas no local séculos antes e depois, indicando que o Monte Hora pode ter funcionado como um espaço de significado ritual por gerações.
As descobertas reforçam que caçadores coletores africanos já apresentavam práticas culturais sofisticadas milhares de anos antes do surgimento das cidades, da agricultura e da metalurgia.
Sawchuk observa que esses grupos tinham capacidade de coordenar grande volume de trabalho, embora geralmente optassem por não fazê-lo.
Thompson acrescenta que estudar outros sítios semelhantes e revisitar coleções antigas de museus pode revelar uma diversidade cultural maior do que a tradicionalmente reconhecida, oferecendo novos caminhos para a pesquisa sobre esses povos e seus modos de vida.
Com informações de Planeta.

