Megaprojeto ambiental saudita pretende plantar bilhões de árvores em território desértico para reduzir calor urbano e recuperar áreas degradadas, mas levanta dúvidas entre especialistas sobre disponibilidade de água, custos de irrigação e viabilidade de manter florestas em uma das regiões mais secas do planeta.
A meta de plantar 10 bilhões de árvores transformou a estratégia ambiental da Arábia Saudita em uma das mais ambiciosas do mundo árido.
Vinculado à Saudi Green Initiative, o plano promete reduzir o calor nas cidades, conter a desertificação, recuperar áreas degradadas e ampliar a vegetação em um território onde a escassez de água já condiciona o abastecimento humano, a produção agrícola e a atividade industrial.
A proposta ganhou escala internacional porque combina impacto climático, projeção política e transformação urbana.
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No material oficial, o governo saudita afirma que o plantio não será disperso de forma aleatória sobre o deserto, mas distribuído por zonas ecológicas, áreas urbanas, rodovias e cinturões verdes, com a intenção de gerar benefícios mensuráveis.
O roteiro mais recente da iniciativa associa essa meta à reabilitação de mais de 74 milhões de hectares e projeta mais de 600 milhões de árvores até 2030, além de uma redução estimada de 2,2°C em centros urbanos com maior cobertura de copas.
O tamanho do plano e o limite da água

É nesse ponto que o entusiasmo esbarra na principal restrição física do país.
A Arábia Saudita está entre as economias mais pressionadas pela falta de água no Golfo, uma região frequentemente classificada entre as mais vulneráveis do planeta em segurança hídrica.
Grande parte do abastecimento doméstico depende da dessalinização, tecnologia que transforma água do mar em água potável, mas exige infraestrutura complexa e alto consumo de energia.
Em paralelo, levantamentos internacionais indicam que a agricultura consome quase 70% do suprimento de água do reino, o que torna qualquer expansão de irrigação um tema sensível dentro do planejamento nacional.
A dependência da dessalinização ajuda a explicar o ceticismo de especialistas quando o projeto é analisado em larga escala.
Dados oficiais apontam que o país segue como o maior produtor mundial de água dessalinizada, com produção diária superior a 11,1 milhões de metros cúbicos.
Essa capacidade sustenta cidades e corredores industriais em meio ao clima desértico, mas não elimina o custo energético, logístico e ambiental de ampliar o uso desse recurso para manter milhões de árvores vivas por décadas.
O que a ciência diz sobre arborização em áreas secas
A discussão não se resume à pergunta sobre plantar árvores ser, em tese, algo positivo.
Estudos científicos indicam que o resultado depende fortemente do regime de chuvas, do tipo de solo, da espécie escolhida e da disponibilidade de água ao longo do tempo.
Pesquisas publicadas em revistas científicas mostram que florestas plantadas podem reduzir a quantidade de água disponível em determinados ecossistemas, sobretudo em regiões com clima seco.
Outros trabalhos apontam que o aumento da vegetação pode intensificar a evapotranspiração e reduzir a chamada água disponível para rios, reservatórios e aquíferos, especialmente em períodos de seca prolongada.
Esse tipo de evidência ajuda a enquadrar o alerta feito por hidrólogos e analistas ambientais.

Em ambientes com baixa chuva e alta evaporação, uma paisagem mais verde pode melhorar sombra, conforto térmico e estabilidade do solo, mas também pode apertar o balanço hídrico se a irrigação for contínua e mal calibrada.
O debate, portanto, gira em torno da sobrevivência das mudas, da competição por água e do custo de manter a cobertura vegetal sem deslocar pressão para aquíferos ou sistemas de dessalinização.
A resposta saudita para as críticas ambientais
O governo saudita tenta responder a essa objeção com planejamento mais segmentado e com ênfase em espécies nativas.
Autoridades afirmam que a estratégia foi desenhada após um estudo de viabilidade conduzido por dois anos por órgãos ligados ao meio ambiente, água e agricultura.
Documentos oficiais também destacam que o país abriga mais de 2 mil espécies de flora, distribuídas por manguezais, áreas úmidas, florestas de montanha, pastagens e vales.
Esse argumento é usado para sustentar que a restauração não seguirá uma fórmula única em todo o território, mas deverá respeitar características ecológicas específicas de cada região.
Relatos sobre a implementação do programa também indicam a aposta em espécies locais com menor necessidade de irrigação, além do uso de água reciclada e outras soluções técnicas para reduzir a pressão sobre fontes naturais.
Em iniciativas mais específicas, acordos já foram firmados para plantar 200 mil árvores em áreas de parque nacional, com fornecimento contínuo de água tratada destinada à irrigação.
Entre vitrine climática e teste de viabilidade
Mesmo com esse desenho mais cuidadoso, a dimensão do programa continua impondo dúvidas entre especialistas.
Informações divulgadas pelo governo indicam que mais de 151 milhões de árvores já foram plantadas e que centenas de milhares de hectares de terras degradadas passaram por recuperação ambiental.
Embora o avanço seja relevante, esses números ainda representam uma fração da escala necessária para atingir a meta de bilhões de árvores nas próximas décadas.
Ao longo do tempo, o próprio escopo do programa passou por ajustes técnicos à medida que os estudos avançaram e as exigências reais de implementação ficaram mais claras.
Na prática, o projeto passou a ser observado em duas frentes simultâneas.
De um lado, ele funciona como vitrine de uma agenda climática que busca reposicionar a Arábia Saudita no debate ambiental global.
De outro, tornou-se um teste concreto sobre até que ponto é possível reverdecer regiões extremamente secas sem agravar o principal gargalo ecológico local, que continua sendo a disponibilidade de água.
O resultado dificilmente será medido apenas pelo número de mudas colocadas no solo.
Especialistas apontam que o fator decisivo será a capacidade de manter essas árvores vivas com espécies adequadas, reuso de água em escala suficiente e manejo sustentável ao longo dos anos.
No deserto saudita, a diferença entre um projeto de restauração ecológica e um programa de alto consumo hídrico estará menos na meta anunciada e mais na sustentabilidade do sistema que permitirá manter essas florestas no longo prazo.

